Tive um parente, infelizmente já falecido; que possuía uma extraordinária veia humorística. Privar de sua companhia, era um verdadeiro tratamento para aqueles que possuíam algum distúrbio hepático. Se, numa viagem, ao final desta, saíam todos com o fígado desopilado. Certa feita, ia eu e demais pessoas da famílias de volta para São Paulo, onde na época morávamos. Por desconhecimento do trajeto, acabamos entrando numa cidadezinha, que não lembro se Conchas, Maristela ou Bofete.
A estrada era uma lástima; o motorista precisava escolher o buraco menos profundo, para evitar quebrar a barra de direção ou a ponta de eixo do veículo. Naquele tempo, dificilmente se viajava por estrada asfaltada; eram quase todas de terra, esburacadas e poeirentas. Além disso, impreterivelmente os traçados passavam pelos centros das cidades. Ao entrarmos naquele pequeno centro urbano, a coisa piorou; era sair de uma valeta, para cair na outra. Nosso parente, na direção do Fordão antigo, transpirava por todos os poros, enquanto praguejava contra as autoridades e o prefeito do município.
Afinal, paramos em uma esquina para um breve descanso. Na janela de uma casa, debruçava-se uma jovem excessivamente maquiada; toda emperequetada Abrindo a porta do carro, nosso motorista muito sério, dirigiu-se à jovem e perguntou: moça, é verdade que o prefeito desta cidade faleceu? A jovem demonstrando surpresa: não senhor! Ele ainda é vivo.
Então moça, faça o favor: diga a ele que tome vergonha na cara e trate de arrumar as ruas desta cidade, que estão em estado miserável. A jovem levou um choque; contudo, respondeu: saiba o senhor que o prefeito é meu tio. Espere um pouco, que eu vou transmitir seu recado, e ele já vem dar a resposta que o senhor merece. Nosso Fordão roncou, saímos aos sacolejões pelas ruas esburacadas da cidade. Ao alcançarmos a saída, passado o susto, aí é que tivemos oportunidade de rir daquela viagem desastrada, e daquela brincadeira, que por pouco não nos trouxe dissabores.
Hoje, com as estradas asfaltadas, muitas delas duplicadas, os traçados corrigidos, não mais passando pelo perímetro urbano; já não há motivo para o viajante perguntar se o prefeito morreu. Contudo, existem por aí, muitas comunas abandonadas, dando a impressão que os políticos e administradores faleceram logo após a posse. Entretanto, é apenas impressão, porque na realidade permanecem vivos; às vezes até muito vivos, como diria aquele meu parente.
Embora vivos, perderam a percepção da realidade, isto é: de que aos poucos, estão cometendo um verdadeiro suicídio político. Aliás, se estes pela sua atitude de indiferença com relação aos seus deveres de políticos e administradores, não chegarem a um suicídio perfeito; cumpre a população, à sociedade, acabar com a sua carreira, linchando-os politicamente. Isto para que aprendam respeitar e valorizar o voto recebido de uma ponderável parcela da comunidade. Esta seria a mais eficiente maneira de se expurgar os falsos políticos, os maus administradores, que não visam os interesses da sociedade; tão somente seus desonestos, mesquinhos, egoísticos interesses pessoais. (Áureo Corrêa de Souza - RG. 3.538.605)