A maioria dos usuários acredita que não são viciados, mas a maconha provoca transtorno psicótico reversível
Tida como o mais inofensivo dos entorpecentes, a maconha circula facilmente nas festas, shows ou meras aglomerações de jovens e adolescentes. Não é difícil ver o cigarro feito de forma improvisada rodando de mão em mão, mesmo em lugares públicos.
A maioria dos usuários da droga acredita que não é viciada e que pode deixar de fumar na hora que bem entender. Eu fumo uma média de 30 a 40 cigarros de maconha por semana. Uma vez, fiz uma operação e precisei ficar dois meses sem colocar o cigarro na boca. A única reação que senti no começo foi insônia. Mas, não tive crise de abstinência, contou Alex (nome fictício), 25 anos.
De acordo com o psiquiatra João Maurício Bolzan, que trabalha em uma clínica de recuperação de usuários de droga em Pirajuí, a maconha não tem nada de inocente. Ela altera a percepção, causa transtorno psicótico reversível e ataque de pânico, disse. Uma de suas conseqüências mais graves é a síndrome antimotivacional, ou seja, a pessoa perde a vontade de fazer qualquer outra coisa além de fumar.
De acordo com pesquisas científicas, menos de 10% dos usuários de maconha tornam-se dependentes da droga. Pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o potencial da erva para induzir à dependência é considerado de leve a moderado e até menor do que o álcool.
Entretanto, esse não é um argumento que pode ser usado em favor do consumo da droga. Isso porque, em grande parte dos casos, ela torna-se a porta de entrada para os entorpecentes mais pesados, como a cocaína e o crack. Quando eu comecei a fumar maconha, nunca imaginei que iria partir para outras drogas. Em menos de dois meses, eu já estava cheirando cocaína, disse N.H. 21 anos, que fuma um cigarro de maconha por dia.
Ele não continuou a usar o pó pois não gostou dos seus efeitos. Mas, não é isso o que ocorre com uma boa parcela dos usuários. 90% dos viciados em drogas como cocaína, crack e heroína começaram com a maconha, disse Bolzan.
Curiosidade
N.H. fumou o primeiro baseado com 15 anos. O que o levou a isso foi a curiosidade de saber se a droga poderia lhe causar um efeito tão bom quanto ele imaginava. Alex também foi pelo desejo de conhecer a erva. Já T., 14 anos, teve o apoio total dos pais. Aliás, foram eles próprios que deram a ela o primeiro cigarro, no seu último aniversário. Meus pais sempre fumaram dentro de casa. Eu tinha vontade de experimentar desde criança, mas eles falavam que eu não tinha idade para isso. Agora, que completei 14 anos, eles me deram um para experimentar, disse.
Ela é um exemplo de quem teve todo o esclarecimento sobre o que é a erva dentro de casa. Eu e meus pais conversamos muito sobre o assunto. Eu não uso por usar. Também não considero errado fumar maconha. Sei muito bem o que ela pode causar e decidi experimentar porque eu tenho vontade, disse.
A mãe de T., A., 40 anos, fuma há cerca de 20 anos. Ela conta que suspendeu o consumo somente durante a gravidez de seus dois filhos (T., 14 anos, e um menino de 13 anos). Ela diz que fuma apenas esporadicamente e que não associa a droga a algo ruim. Eu sempre fumei com pessoas bacanas, em situações muito legais. Sempre foi muito bom, disse, ressaltando que tudo que é consumido de forma errada e exagerada pode trazer problemas à saúde. Se você beber demais, pode ficar viciado; se você comer demais, pode virar obeso. Ou seja, tem que saber usar as coisas para não causar prejuízo à saúde, salientou.
Para a psicóloga Maria Regina Vanin, as pessoas autodestrutivas, que sentem solidão interior, imediatistas, que não suportam frustrações, depressivas e insatisfeitas são as mais vulneráveis à droga. Ela passa a ser vista como um recurso para atender as necessidades internas, disse.
Já o dirigente regional de ensino de Bauru, Jair Sanches Vieira, disse que muitos jovens são estimulados a usar a erva para ganhar destaque no seu grupo ou comunidade. As propagandas do cigarro de tabaco sempre associam o fumo a status. Isso vale também para a maconha. É uma forma de fixar a feminilidade ou masculinidade, disse.