Ao se aposentar, as pessoas do sexo masculino ficam mais em casa, ociosas, ao contrário do que acontece com as mulheres
A expectativa de vida do brasileiro aumentou 2,6 anos na década de 90, mas os homens, comparados às mulheres, continuam vivendo menos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A esperança de vida de uma menina nascida em 2000 é de 72,6 anos, enquanto a de um menino é de 64,8 anos. Além de causas externas, que incluem homicídios e acidentes de trânsito e de trabalho, que atingem mais os homens, a diferença entre a esperança de vida entre os dois sexos pode estar ligado à maneira que encaram a velhice.
A estudante Roseli Barbosa da Silva, que pesquisou sobre a convivência social na terceira idade para o seu projeto de conclusão de curso na Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), concluiu que os homens têm mais dificuldade que as mulheres em enfrentar a velhice. Ao aposentar-se, ao invés de buscar novas atividades em grupos de terceira idade, muitos homens ficam em casa, ociosos.
A falta de convivência social é um dos fatores que pode influenciar na expectativa de vida. Ao ficar ociosa, a pessoa tornar-se mais propensa a problemas de saúde como a depressão. Para Roseli, isso ocorre porque os homens, devido à cultura que ainda separa funções por sexo, têm maior dificuldade em adaptar-se a novas atividades, como os grupos de terceira idade, se comparado às mulheres.
Roseli, que fez estágio prático na Universidade Aberta à Maturidade da ITE, disse que a esmagadora maioria do público de grupos de terceira idade é de mulheres. Na Universidade Aberta à Maturidade da ITE, 98% dos alunos são do sexo feminino. Na Universidade Aberta à Terceira Idade da Universidade do Sagrado Coração (USC), apenas cinco dos 68 alunos matriculados neste semestre são homens.
O número de mulheres no Grupo da Terceira Idade do Sesc de Bauru também é muito superior ao de homens: dos 507 inscritos que participam das atividades assiduamente, 381 são mulheres. A maior sociabilidade das mulheres entre os idosos também é observado na Vila Vicentina Abrigo para Idosos.
Na ultima quinta-feira, enquanto várias mulheres, em mesas coletivas, pintavam guardanapos na oficina coordenada pela voluntária Rosa Maria Riccó Plácido da Silva, não havia nenhum grupo de homens. Apesar de vários deles afirmarem que têm muitos amigos na entidade onde moram, estavam sozinhos e não faziam nenhuma atividade.
Benedito Rossini, 70 anos, um dos 100 idosos abrigados na Vila Vicentina, foi claro ao explicar porque estava sozinho, sentando em sua cadeira, do lado externo do pavilhão onde mora, observando o movimento da instituição: A gente fica no cantinho da gente. Ninguém amola. Assim é melhor, disse.
Ele, que explicou que não participa das atividades oferecidas na Vila Vicentina, porque está com um lado do corpo paralisado, disse que sua rotina é comer e dormir. O que eu faço aqui é comer e dormir. Nem ver TV eu posso por causa da vista, alega.
Mas nem a pouquíssima visão que resta à simpática Rosa Barbosa Romanofi, 98 anos, também abrigada na Vila Vicentina, a faz parar de fazer crochê e participar das atividades oferecidas na instituição. Extremamente lúcida, ela aponta para os óculos e explica que houve um erro durante a cirurgia de miopia à qual foi submetida há mais de 20 anos, que lhe impede de enxergar de uma vista.
A outra também não é boa, explica, mas mesmo assim ela faz bonitas toalhas em crochê. Eu enxergo muito pouco, mas faço pela prática, revela enquanto, muito bem humorada, conta um pouco sobre sua vida e que, apesar de ter casa boa, decidiu mudar-se para a Vila Vicentina quando passou a não enxergar o suficiente para atravessar a rua sozinha, precisando da ajuda de outras pessoas.
Apesar da pouca visão e da idade avançada, Rosa, numa conversa deliciosa, conta que tem boa saúde e ainda quer viver muito porque gosta da vida. Indiscutivelmente um exemplo de amor à vida, a idosa que foi vendedora em loja e dona de casa aplicada em fazer comidas deliciosas, também participa da oficina de artesanato dada pela artista plástica voluntária Rosana Silva.
O grupo de mulheres coordenado por Rosana quer, agora, comercializar os artesanatos que produzem. A artista plástica explica que as mulheres, apesar da idade avançada e de muitas enfrentarem problemas de saúde, estão levando a idéia muito a sério. A venda dos produtos poderia gerar renda para compra de novos materiais.
O interesse das mulheres pelas várias atividades oferecidas na Vila Vicentina é indiscutivelmente maior que os homens, segundo Elisângela Ramiro Cotrin, supervisora de telemarketing da instituição. Ela contou que apenas as mulheres interessaram-se pelo curso de informática oferecido aos abrigados da casa, que foi ministrado em uma escola da cidade.
Enquanto boa parte das mulheres ajuda na cozinha da instituição e participa das atividades oferecidas pelos voluntários, os homens, em geral, passam o tempo assistindo televisão e observando o movimento. Em ocasiões festivas, de acordo com Elisângela, a maioria das mulheres dança, mas entre os homens são poucos.
Coisa de mulher
Ao aposentar-se, quem não precisa mais trabalhar, deixa um mundo cheio de tarefas para mergulhar em outro, em que não há mais o relógio ditando o tempo. Então, é hora de reestruturar a vida. Falta de tempo não pode mais ser a desculpa para dedicar-se ao lazer, à cultura, ao esporte e aos amigos. Mas nem sempre é fácil adaptar-se a novas atividades.
É o que concluiu Roseli Barbosa da Silva na sua pesquisa sobre a sociabilidade na terceira idade. Os homens, explica ela, têm mais dificuldade que as mulheres até por conta da cultura brasileira, ainda bastante permeada de traços machistas, em que não cabe ao homem aprender artesanato, por exemplo.
Reuniões para atividades que até então não faziam parte do dia-a-dia nem sempre despertam o interesse do público masculino acima dos 50 anos. Muitos homens, conta Roseli, consideram que grupo de terceira idade é coisa apenas para as mulheres. A sociedade ainda associa o homem ao espaço público e a mulher ao espaço doméstico. Ao aposentar-se, o homem perde o papel ocupacional que exercia e tem dificuldade em adaptar-se a outras atividades e de participação social em grupo tido por ele como coisa de mulher, disse.
Roseli ressaltou que até atividades como cuidar dos netos, para os homens, nem sempre são tão agradáveis como costumam pensar os adultos. Os homens, às vezes, sentem-se no papel da babá, ressaltou. De acordo com a formanda em Serviço Social, é bastante comum encontrar um casal de idosos em que a mulher é superativa enquanto o homem não.
Ela contou, inclusive, que um dos idosos que vinha acompanhando para sua pesquisa estava depressivo e morreu antes da conclusão do projeto. Já sua mulher é uma pessoa bastante ativa. Aliás, a morte de um dos cônjuges é encarada de forma diferente entre homens e mulheres. Em boa parte dos casais, quando o homem morre primeiro, a mulher torna-se mais ativa que na época que o marido era vivo. A tendência é a mulher querer fazer atividades que até então, por forças das obrigações com a família, não tinha condições de fazer.
Já o homem, ao perder a esposa, tem mais dificuldade em reestruturar sua vida sozinho. Um exemplo é a diferença no número de mulheres e homens da terceira idade que viajam desacompanhados. De acordo com Luiz Carlos Machado Scartezini, coordenador da área social do Sesc de Bauru, as mulheres viajam sozinhas sem problema.
Mas, segundo ele, é muito raro, nas viagens organizadas pelo Sesc, ver um homem viajando sozinho. Gislaine Aude Fantini, coordenadora da Universidade Aberta à Terceira Idade da USC, concorda. Uma aluna do curso de Turismo fez uma pesquisa que mostra que as mulheres procuram muito mais que os homens o turismo voltado à terceira idade.