Vou contar um pouco da minha história. O meu nome é Jorge Sakashita, sou filho caçula de imigrantes japoneses e tenho hoje, 49 anos de idade. Eu e minha família éramos lavradores como a maioria que veio do Japão com intuito de ficar rico aqui no Brasil, razão pela qual só pensávamos em trabalhar, sem tempo para o lazer, esporte e convívio social. Além de tudo, lutávamos com a natural dificuldade de comunicação.
Quando eu tinha dois anos, não sei porque, minha mãe tirou sua própria vida e daí em diante fiquei órfão de mãe e do pai parcialmente, porque ele não tinha tempo para os nove filhos. Após seis meses de falecimento da minha mãe, muito doente, fiquei sem nenhuma condição de vida, segundo o meu irmão que na época tinha 14 anos. Mas, com certeza, Deus tinha outros planos para mim pois sobrevivi.
Logo depois, meu pai veio a se casar de novo, tive uma nova mãe já com mais três filhas e daí, dessa união, vieram mais três crianças. Isso fez com que houvesse muita desarmonia familiar em casa, que somada à falta de convivência social, foram as motivadoras do início da depressão que atacou-me.
Todos esses acontecimentos tornaram minha infância conturbada. Ao cursar os seis últimos meses do primário, vim para a cidade terminar o primeiro grau na casa de conhecidos, agravando-se ainda mais a dificuldade de relacionamento com as pessoas.
A minha família queria que eu continuasse os meus estudos, mas preferi não estudar e sim refugiar-me no sítio, com certeza para me isolar, porque já estava com problemas e a partir daí, as coisas só foram piorando devido ao isolamento, pois só haviam algumas famílias no sítio e logo elas foram embora para a cidade e então ficamos apenas nós.
Na minha adolescência, comecei a sentir uma preocupação com relação ao futuro sem estudo, sem lazer, sem convívio social, ocasionando assim a perda de perspectiva de uma vida digna. Aos 16 anos, sentindo a falta de motivação para a vida, comecei a pensar em suicídio, mas periodicamente retomava o ânimo pela vida e assim fui resistindo à muita angústia, insegurança, até completar 21 anos, quando tomei a decisão de pôr um fim à minha vida e comecei a elaboração do plano de execução.
Não cometi o suicídio porque na época nós tínhamos uma colheita de abacaxi com cerca de 80 mil frutas e, apesar da depressão, achei que teria que esperar porque as vendas dependiam de mim.
Já não conseguindo suportar mais a espera do fim da colheita para praticar o suicídio, pensei em ir à Igreja. Nessa noite eu deitei e era uma pessoa totalmente sem forças para a sobrevivência e quando acordei, não sei como, mas estava totalmente livre desse pesadelo, razão pela qual considero que foi um renascimento. Mas, ao invés de procurar a Igreja, fui procurar a medicina, tomando várias injeções na veia porque o médico me disse que eu estava esgotado. Pedi que fizesse um eletroencefalograma para ver o que eu tinha na cabeça sendo o resultado totalmente normal. Repeti o exame e também nada de anormal foi constatado. Toda essa alegria durou pouco tempo. Após 6 meses, os mesmos sintomas começaram a acontecer novamente levando-me a médicos, psicólogos e depois, a psiquiatras, ocasionando uma pequena melhora em função dos pesados medicamentos.
Casei-me. Após o nascimento da primeira filha, voltou a depressão e daí a situação piorou porque já havia uma família para cuidar. Veio o segundo filho e, através de tratamento psiquiátrico, eu conseguia amenizar a dor e assim o tempo foi passando, mas cada vez piorando e sempre eu pensando em suicídio, chegando até a fazer um seguro de vida bem alto para não deixar a família desamparada financeiramente.
Mas, no momento em que eu havia concluído como executar, percebi que o dinheiro não iria deixar a família mais feliz pois desde os meus 10 anos sempre tive uma condição financeira equilibrada e nem por isso era feliz. Tive até a possibilidade de ir para o Japão, mas Deus não permitiu por algum motivo.
Por essa razão e com a depressão aumentando, comecei planejar levar toda a família comigo pois não tinha mais forças para continuar o tratamento tradicional proposto pela medicina. Após mais de 20 anos de luta e, já dependente de fortíssimos remédios, estava sem dinheiro para os tratamentos psiquiátricos e compra de medicamentos, sem condições até para dormir, perdendo inclusive a capacidade para administrar os meus negócios.
Em julho de 1995, após alguns anos com essa idéia fixa, decidi que esperaria a temporada de férias do final do ano quando faria uma última viagem com a família. Entretanto, por algum motivo que ainda desconhecia, fui desviado desse tenebroso plano.
Aí então, depois de tudo, fui procurar Deus através de uma religião que por algum tempo preencheu o meu vazio existencial servindo-me de único amparo para o meu espírito sedento de paz. Quando estava certo de que Deus me amparava, veio a falência da minha empresa e perdi tudo, até a minha casa vendi para diminuir a dívida.
Na busca do reino de Deus, conheci outras filosofias sendo que hoje, embora sem nenhum bem material mas já plenamente transformado e consciente dessa riqueza interior representada pela paz, equilíbrio, saúde, etc., tenho uma razão para viver após 45 anos de muitos sofrimentos. Sei que tenho uma missão muito importante na obra de Deus, que ele me ama e através desse amor eu estou totalmente curado da depressão, chegando à conclusão de quanto é importante amar no sentido universal e segui-lo através de Jesus que nos ensinou: Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai a Deus senão por mim. Esse caminho consiste em seguir os seus passos, os seus ensinamentos, ou seja: amar a todos e a tudo. Somente com atitudes nesse sentido é que construiremos um mundo melhor: quem ama faz.
Consciente do meu papel na grande obra de Deus, tenho lutado desde 1.998, apesar das inúmeras dificuldades materiais que se apresentaram, para desenvolver um projeto que visa o bem-estar dos meus semelhantes.
Inicialmente, o projeto resumia-se na reunião de praticantes de skate e patins utilizando as vias públicas no bairro onde eu residia, Alto Paraíso. Ali, eu já realizava um pequeno trabalho social além do esporte em si. No desenvolvimento das atividades, senti que esses jovens apresentavam uma carência de apoio familiar bem como necessitavam de um espaço maior que lhes proporcionasse uma convivência social sadia, razões pelas quais, após divulgar a minha atividade, recebi uma proposta da Prefeitura Municipal para desenvolver o meu projeto no Sambódromo, onde, através de um Centro Esportivo, poderíamos oferecer aos jovens uma melhor qualidade de vida, tornando-os futuros profissionais mais capacitados, mais felizes e, ao mesmo tempo, diminuir também o índice de violência, de depressão, de insegurança, preocupação, ansiedades, etc., fatores que levam ao ingresso no mundo das drogas.