Em Metrópole e Cultura: São Paulo no Meio Século XX, a socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda investiga a capital paulista.
Professora livre-docente do Departamento de Sociologia da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda acaba de publicar o livro Metrópole e Cultura: São Paulo no Meio Século XX, pela Edusc. A obra, que se insere na área dos estudos da sociologia da cultura, expressa as preocupações intelectuais da autora no momento.
Secretária-executiva da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e representante da área de Sociologia e Ciências Humanas da Capes, Maria Arminda é natural de Minas Gerais, viveu no Rio de Janeiro e hoje mora em São Paulo. Ela afirma que um dos motivos principais que a levaram a escrever esta obra foi interrogar-se sobre a natureza do processo de metropolização de São Paulo nos anos 50.
A partir desta indagação buscou nas linguagens científicas, culturais e arquitetônicas a resposta para esta transformação vital ocorrida no meio do século XX. A obra aborda a história cultural da cidade de São Paulo num período vital de sua evolução - o período pós Segunda Guerra Mundial - e situa os principais movimentos culturais do período, desde o modernismo até o concretismo, num contexto que insere elementos sociológicos mais amplos.
Pergunta - Qual é o tema central deste livro?Maria Arminda do Nascimento Arruda - O tema central do livro é a busca da articulação entre o processo de metropolização da cidade de São Paulo, que ocorre sobretudo no período pós Segunda Guerra Mundial, e o aparecimento de linguagens da cultura moderna, porém diferentes das linguagens culturais do modernismo dos anos 20. A obra mostra que em meados dos anos 40 se desenvolveram em São Paulo linguagens da cultura, como o teatro, o cinema e a ciência.
Eu analiso como foi possível emergir no processo de urbanização da cidade uma cultura cuja proposta rompe as fronteiras nacionais e, nesse sentido, apresenta um caráter histórico específico: uma cultura histórica como fruto do progresso, uma cultura da racionalidade.
O tema principal do livro é a busca de articulação entre a metropolização e o desenvolvimento da cultura ou das linguagens modernas de vanguarda do meio do século.
Pergunta - De que forma este trabalho se insere no conjunto de sua obra?Maria Arminda - Este trabalho é produto das minhas preocupações mais gerais no campo da sociologia e, particularmente, no campo da sociologia da cultura. Sou uma socióloga da cultura e isso significa que procuro entender a cultura a partir da sociologia. Desde de que comecei a escrever os primeiros trabalhos, minha preocupação central, na busca de compreensão da sociedade, era entender a vida social que pulsa através das expressões da cultura.
Para resumir, busco os fundamentos da vida social pela via da cultura, ou os fundamentos culturais da vida social. A cultura é o meu ponto de partida, apesar de já ter me dedicado a outros campos de pesquisa.
Porém, desde meu primeiro trabalho, voltado à teledramaturgia brasileira, eu já manifestava interesse particular no campo da literatura, área pela qual possuo grande predileção. A partir daí, acredito que comecei a delinear meu campo de preocupações.
Em seguida, investiguei os meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, numa pesquisa que deu origem ao livro A Embalagem do Sistema, sobre a publicidade no capitalismo brasileiro, publicado pela editora Duas Cidades.
Voltando às minhas raízes universitárias, época em que pretendia escrever um trabalho sobre Carlos Drumond de Andrade e Guimarães Rosa, surgiu um projeto que resultou num livro sobre Minas Gerais, Mitologia da Mineiridade: o imaginário mineiro na vida política e cultural do Brasil, da editora Brasiliense.
Trata-se de um livro de sociólogo da cultura, não de um historiador, porque o sociólogo tem uma liberdade maior de trabalhar a história e, ao mesmo tempo, uma liberdade de sobrevoar as cadeias temporais.
Pergunta - É possível traçar uma relação direta entre a sua trajetória de vida e esta obra?Maria Arminda - Com certeza existe uma relação entre minha trajetória de vida e as obras que escrevi. Aliás, acredito que qualquer autor relaciona sua vida com sua obra. Porém, alguns autores deixam pistas mais evidentes. Este livro naturalmente tem uma forte relação com a minha vida. Eu nasci em uma pequena cidade de Minas Gerais, divisa com o Rio de Janeiro, filha de uma família parte radicada no Rio de Janeiro, parte em Minas. Depois me mudei para São Paulo. Isso criava um problema de identidade muito sério. No fundo, a pergunta que eu sempre me fiz é quem sou eu. O livro sobre Minas Gerais é uma pequena reconciliação com o meu passado.
Já este livro sobre a cidade de São Paulo, que está sendo lançado pela Edusc, tem muito a ver com minha trajetória de vida, pois foi em São Paulo que constituí família e também desenvolvi minha carreira acadêmica. Tem uma pergunta que sempre fiz sobre a capital paulista. Ela me intrigava muito. Foi esta inquietação que me levou a este tema, uma pergunta diretamente ligada à minha trajetória. O que foi essa metrópole tão inquietante?
A partir daí comecei a procurar suas raízes, raízes do ponto de vista da cultura e do ponto vista do processo de metropolização. As raízes da cultura de São Paulo alojam-se no período pós Segunda Guerra Mundial, no processo de metrópole moderna, de uma cultura de vanguarda. Hoje a capital paulista é uma cidade fatigada diante das propostas que estavam contidas no passado. Esta conclusão também preencheu minhas inquietações e a minha inserção na grande metrópole. Acho que agora me falta escrever um livro sobre o Rio de Janeiro.
Pergunta- Qual o significado deste livro no quadro dos estudos sobre a sociologia da cultura?Maria Arminda - Dentro dos estudos da sociologia cultural, eu não sei qual será o significado deste livro, mas posso dizer a que área da sociologia cultural ele se filia. Está ligado aos estudos sobre a vida intelectual - um campo de desenvolvimento relativamente recente -, porque é fruto da histórias das idéias do passado.
Já a sociologia da vida intelectual é uma área bastante diversa da chamada história das idéias, pois indaga sobre as condições sociais que levam à condição da cultura. Portanto, o livro integra esta tradição.
Quando terminei meu doutoramento filiei-me ao Instituto de Pesquisas Econômicas Sociais e Políticas (Idesp), um órgão destinado às pesquisas intelectuais e sem fins lucrativos. Foi a partir daí que comecei desenvolver, dentro da área da sociologia da cultura, um ramo de reflexão sobre a vida intelectual. Escrevi vários trabalhos, um deles sobre a constituição da sociologia acadêmica de Florestan Fernandes.
Esta análise é uma parte da reflexão deste livro que eu já vinha desenvolvendo. Mas então o que é história intelectual? É aquela que tem a produção da vida intelectual ou a sociologia da vida intelectual como fruto de certas condições sociais, que é uma conjunção de questões que levam à produção das idéias.
Pergunta - Sociologia da cultura e história da cultura são expressões sinônimas?Maria Arminda - Não, ainda que completamente irmãs. Porque a análise da história é um pouco diferente da análise da sociologia. Um bom sociólogo tem que ser um bom conhecedor de história, porque a sociologia é uma reflexão sobre a história. Acredito que é possível discriminar estilos de reflexão. O primeiro compromisso do historiador é com a reconstituição histórica de eventos, acontecimentos, etc.
A História se compromete com a narrativa, e esse não é o compromisso primeiro do sociólogo. Para o sociólogo, a reconstituição da história é só um momento para que ele possa conceituar, estabelecer relações gerais e conexões de sentido entre os episódios. A sociologia é uma disciplina comprometida com a idéia de ciência, ela tem uma preocupação com a teoria muito maior do que a história. No fundo, o problema do historiador é ser capaz de reconstituir, sem que ele impute, ou sem que ele atribua ao passado, as questões do presente, ainda que ele seja sempre prisioneiro do sentido.
A sociologia contextualiza o passado com o presente, a fim de construir um conhecimento válido e, ao mesmo tempo, dotado da maior universalidade possível.