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Eternidade: a realização dos nossos sonhos

Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

A sonhar eu venci mundos, escreveu certa vez Fernando Pessoa. Com a famosa frase, o poeta refere-se não à experiência que fazemos ao dormir, ao sonho como linguagem do inconsciente, mas sim ao movimento que surge em nossa mente e acaba mexendo com a realidade, ou seja, à utopia, imaginação ou fantasia.

Este sonhar acordado não é necessariamente sinal de alienação. Ele constitui-se muito mais em uma prova de que não estamos completamente felizes com a nossa realidade. O sonho é, na verdade, fruto de nosso desejo consciente de melhorar e transformar nossa existência. Um exemplo de sonho que vivifica o cotidiano é narrado pela comédia japonesa Dança Comigo?, um filme que assistimos, do começo ao fim, com um sorriso no rosto. Um dos maiores sucessos do cinema japonês, e a produção nipônica mais assistida nos Estados Unidos, Dança Comigo? possui como ponto de partida o fato de o Japão não ter o costume de praticar a dança de salão, pois o contato físico em público ainda é um forte tabu.

Assim, o roteiro mostra um grupo de pessoas comuns que, às escondidas e com muita vergonha, decide realizar um sonho: aprender a dançar. À medida que as barreiras entre sonho e realidade começam a romper-se, o grupo introduz um novo ânimo à vida rigorosamente planejada do proletariado japonês trocando a monotonia pelo prazer e a rotina pela surpresa. O filme possui um carinho especial por todos os personagens, e as sutilezas do roteiro conquistam o espectador mais exigente. Dança Comigo? conta a história daqueles que sonham e por sonharem transformam momentos de suas vidas em pura eternidade.

Sonho e eternidade não só caminham juntos, mas também completam-se mutuamente. Eternidade é um dos desejos mais profundos do ser humano. Todos nós queremos ser eternos. Não é por menos que a grande esperança que todas as religiões nos oferecem é a promessa de Vida Eterna. Eu estou convencido de que ela não é nenhuma ilusão. Mas é necessário que a eternidade seja entendida em suas duas dimensões. A primeira e a mais conhecida é a dimensão horizontal. A eternidade aqui é entendida em sua forma quantitativa, ou seja, eternidade significa uma vida que não possui um final. Todo ser humano viverá para sempre. É assim que entendemos a eternidade quando nos confrontamos com a realidade da morte. Com a dimensão horizontal da eternidade ganhamos a perspectiva de que nunca deixaremos de existir.

A eternidade, porém, possui uma segunda dimensão: a dimensão vertical. Nesta, ela não é entendida na sua quantidade, mas sim em sua qualidade. O importante aqui não é o não deixar de existir, mas sim o existir plenamente. Eternidade compreende-se também e fundamentalmente como uma potencialidade que pode ser vivida agora e não somente depois da morte. No seu sentido qualitativo, a eternidade pode e deve ser vivida no momento presente. Viver a eternidade no momento é estar completamente aberto ao que os místicos medievais chamavam de nunc stans, o instante momento, o agora que nos envolve e nos oferece um momento eterno de vida. Se vivemos o momento presente com intensidade, com vontade de viver, procurando libertar-nos do passado e do futuro, eternizamos o presente e rompemos as barreiras entre sonho e realidade. Uma doença do ser humano é viver prisioneiro da nostalgia ou do sofrimento do passado, como também dos planos ou dos medos diante do futuro.

Eternizar o momento é compreendê-lo como uma síntese de toda a nossa história passada e futura. Pois, o presente é conseqüência do passado e depende dele o que está por vir. Portanto, dar a importância necessária ao nosso presente é valorizar os momentos que passaram e principalmente os que virão. Como afirma Pier Paolo Pasolini, o melhor da vida é o passado, o presente e o futuro, e estes encontramos no agora. Eternizar o momento é ter a consciência de que o futuro pode ser uma grande ilusão. Portanto, a oportunidade de viver, o momento de realizar os nossos sonhos é o agora. Viver a eternidade é não perder a chance de viver o momento atual como uma oferta, um verdadeiro presente.

Viver a eternidade é tornar este agora fundamental, realizando aquilo que é necessário. Como afirma Renato Russo, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar para pensar, na verdade, não há. Em todo o início de ano, desejamos um novo ano repleto de felicidade e nele a realização de nossos sonhos. Porém, 2002 só será um ótimo ano, se os momentos, dos quais ele é constituído, forem vividos por cada um de nós com lucidez, intensidade e dedicação. No viver o agora está o segredo da eternidade: a realização de nossos sonhos.

O fundamental não é a vida eterna, mas sim a eterna vivacidade (Friedrich Nietzsche). Para o ano de 2002 desejo à todos momentos verdadeiramente eternos e as bençãos do Deus da Vida.

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

Especial para o JC Cultura

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