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Mortes causadas por chuva completam 1 ano

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 8 min

O dia era 8 de fevereiro do ano passado, uma quinta-feira, há exatamente um ano. Passava um pouco mais da 20h30 quando começou a cair a pior tempestade registrada em Bauru nos últimos sete anos. Pouco mais de 40 minutos de chuva intensa foram suficientes para matar quatro pessoas, todas vitimadas pela fúria das águas das enchentes.

Outras três pessoas também morreram, vítimas do descaso da Administração Municipal com a erosão da avenida Waldemar Ferreira, provocada pela mesma tempestade. As Zonas Sul e Oeste da cidade foram as que mais sofreram com a forte chuva. Segundo dados do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a chuva de 40 minutos acumulou 49,5 milímetros de água, 25% da quantidade registrada naquele fevereiro inteiro: 213 milímetros.

Na avenida Alfredo Maia, cortada pelo córrego Água do Sobrado, duas pessoas foram tragadas pelas enxurradas. A enfermeira Maria Anita Ribeiro Correa da Silva, 46 anos, e o motoboy Rodrigo Maciel dos Santos, 18 anos, desapareceram nas águas do córrego (leia matéria nesta página). O corpo do motoboy foi encontrado, mas até hoje a família de Anita reclama da privação de não ter um túmulo para chorar a sua morte.

Naquela mesma noite, um homem também foi arrastado pelas enxurradas. Foi resgatado com vida por uma unidade do Corpo de Bombeiros na confluência da rua Inconfidência com a avenida Nuno de Assis. Sem roupa e com ataque de arritmia, ele não sobreviveu.

A madrugada foi castigada por cenas de horror. Na Praça Palestina (localizada na região baixa do Jardim América), carros empilhados registravam a fúria das águas que passaram pelo bairro. Na avenida Nações Unidas - mais famoso ponto das enchentes em Bauru -, a situação não foi diferente embora, desta vez, as vítimas estavam do outro lado da cidade.

Na manhã de sexta-feira, os sobreviventes da tempestade computavam os prejuízos. Proprietários de sete veículos foram buscá-los no leito do rio Bauru. Cerca de 20 famílias que tiveram suas casas invadidas pelas águas foram socorridas pela Defesa Civil do Município.

Dois dias depois da chuva, um sábado, um corpo, sem identidade, foi localizado, semi-enterrado, às margens do rio Bauru, nas proximidades do Horto Florestal. Era mais uma vítima da chuva da morte, cujas conseqüências ainda levariam a óbito outras três pessoas. Desta vez, o motivo era único: a erosão da avenida Waldemar Ferreira.

No início de março passado, as irmãs Eliane e Viviane Cristina Costa morreram, instantaneamente, depois que o veículo em que viajavam como passageiras caiu na cratera. Sete mese depois, em setembro, o buraco fez mais uma vítima fatal.

Desta vez foi o aposentado João Moraes Filho, 62 anos. Por um descuido, Moraes escorregou na borda da erosão e foi engolido por ela. Resultado: fraturas expostas e perfurações nos pulmões. Após 15 dias internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital de Base (HB), ele morreu.

Depois de quase dez meses interrompendo o tráfego entre a regiões das Vilas Industrial e Dutra com a Vila Nova Esperança, a erosão foi atacada pela Secretaria Municipal de Obras.

Justiça

A Comissão de Direitos Humanos da Subseção de Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) representou a Prefeitura junto ao Ministério Público do Estado por contas das mortes registradas.

Segundo o coordenador da comissão, advogado Sandro Fernandes, a representação foi arquivada pela Promotoria de Defesa da Cidadania, após a assinatura de um termo de ajustamento de conduta por parte da Administração, que se responsabilizou em recuperar os pontos críticos provocados pelas chuvas até o final do ano passado.

Uma outra representação, no entanto, ainda tramita no MP, acusando a Prefeitura de ter responsabillidade criminal pelas mortes das enchentes de fevereiro passado.

Nova enchente não está descartada

O secretário municipal de Obras, arquiteto Edmilson Queiroz Dias, prevê que a cidade estará melhor preparada para enfrentar as chuvas de verão a partir do ano que vem. Ele explica que a Administração já contratou a construção de cerca de 17 mil metros lineares de galerias de captação de águas pluviais para os pontos mais críticos da cidade.

Se não ocorrerem imprevistos, as obras devem ficar prontas até o meio do ano. “Também já pedi a reserva à Secretaria Municipal de Finanças de mais R$ 2 milhões para reforçar a construção de mais galerias”, informa.

O arquiteto calcula que a verba será o suficiente para implantar mais 12 mil metros lineares de galerias de captação de águas pluviais. A previsão é de que até o final deste ano a Prefeitura coloque em funcionamento cerca de 30 mil metros lineares de galerias.

“A previsão para o quadriênio 2001/2004 era a implantação de 40 mil metros de galerias. Vamos cumprir a meta em dois anos e vamos continuar trabalhando para ampliar a rede de captação de águas pluviais. Bauru vai enfrentar com mais tranquilidade as chuvas de verão do ano que vem”, garante.

"Não tenho túmulo para chorar"

O funcionário público estadual Lucas Correia da Silva agradece a Deus por ter sobrevivido à tragédia do dia 8 de fevereiro do ano passado, mas diz que sua vida ficou “vazia” com a morte da mulher, a enfermeira Maria Anita Ribeiro Correa da Silva, tragada pelo córrego Água do Sobrado. Seu corpo não foi encontrado. “Não tenho túmulo para chorar”, lamenta.

Silva e Maria Anita haviam completado nove meses de casamento poucos dias antes da tragédia. Anita era sua segunda mulher. “Vivi um filme de terror. E eu não o estava assistindo porque fui seu principal protagonista”, conta, com a voz embargada. O funcionário público é confortado pela filha, a estudante Keli Cristina da Silva, que mora com ele.

“Não tivemos o direito a um enterro cristão. Não tenho um túmulo para chorar, levar uma flor e rezar uma oração”, reclama. A mágoa com a Administração Municipal está estampada no rosto de Silva. “No dia da tragédia, não tive nenhum tipo de auxílio por parte da Prefeitura. Não nos procuraram nem para dar pêsames ou para dizer que a Anita era uma excelente servidora municipal.”

Ao Corpo de Bombeiros e policiais militares, no entanto, o funcionário público estadual só tem elogios. “Eles nos apoiaram muito naquela noite e nos 24 dias que duraram as buscas. É um pessoal a quem devemos muito”, afirma, agradecendo o apoio.

Silva lembra que decidiu deixar o templo da Igreja Assembléia de Deus, localizado na avenida Alfredo Maia, logo depois que faltou energia elétrica na noite de 8 de fevereiro. “Sem luz, eu, minha mulher e sua filha decidimos ir embora.”

Quando o três sairam para a rua já estava chovendo. “Entramos no carro e rodei pouco mais de 40 metros. O carro afogou e fomos surpreendido por uma onda de água que chegou repentinamento ao local. Fui o primeiro a ser levado e não vi mais minha esposa e nem minha enteada”, relata.

Jogado à margem do córrego pela força da correnteza, o funcionário público conseguiu escapar da morte. A mesma sorte teve sua enteada, Ana Beatriz de Holanda Mollo, na época com 11 anos. Ela foi encontrada levemente ferida nas imediações da antiga Escolinha da Noroeste do Brasil.

"A natureza levou o meu filho"

A dona de casa Célia Aparecida Lima dos Santos sobrevive, há um ano, sob efeitos de remédio. Ela é mãe do motoboy Rodrigo Maciel dos Santos, uma das vítimas da enchente de 8 de fevereiro do ano passado. Naquela noite, o motoboy foi carregado pelo córrego Água do Sobrado. “A natureza levou o meu filho”, desabafa.

Sem poupar críticas à Administração Municipal, Célia acha que muitas mães ainda correm o risco de chorar a morte de seus filhos devido ao descaso com que o problema das enchentes é tratado. â€œÉ preciso fazer alguma coisa”, cobra.

Ela não esconde a mágoa que tem do Poder Público Municipal. “Nunca fui procurada por alguém da Prefeitura depois da morte de meu filho.” Seu filho tinha planos para o futuro. Havia acabado de terminar o segundo grau e planejava cursar Letras.

A moto com a qual Santos desapareceu naquela noite só foi encontrada no meio do ano passado. “A moto era novinha. Tinha pouco mais de oito meses de uso”, lembra Célia. O operador de máquina Hermenegildo Vitoreli foi quem resgatou o veículo do fundo do córrego Água do Sobrado, através da caçamba de uma draga.

O encontro da moto acabou confortando a mãe do motoboy. Ela não hesitou: mandou a motocicleta para o conserto. Hoje, a moto está na sala de sua casa e não será vendida pela família. â€œÉ um pedacinho dele que está comigo”, diz, com um tom de voz triste e amargurado.

Célia lembra que seu filho sempre ligava para ela antes de sair do trabalho rumo a sua casa. “Ele era pontual. Ligava avisando que chegaria em casa em dez minutos.” Na noite de 8 de fevereiro, porém, o telefone não tocou no mesmo horário de sempre - por volta das 23h30.

A dona de casa diz que a forte chuva daquela noite já a deixou preocupada. Ela foi avisada do desaparecimento do filho pelo proprietário da loja de lanches em que ele trabalhava, fazendo entregas. “Eu e meu marido passamos a noite andando pelos corredores de hospitais e de delegacias.”

Na tarde de sexta-feira, dia seguinte da tempestade, o corpo do motoboy foi encontrado no rio Bauru, em Guaianás, 20 quilômetros distante de onde havia desaparecido. “Minha vida, agora, é só choro”, finaliza.

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