Regional

A vontade de ajudar acima de tudo

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Iacanga - Um grupo de sete pessoas, em sua maioria jovens, decidiu um dia largar o conforto do lar para se dedicar em tempo integral à recuperação da auto-estima de moradores de rua. Hoje estão completamente desprovidos de qualquer bem material. As únicas coisas que possuem são a fé no amor cristão e a certeza de que com ele podem transformar vidas de pessoas que hoje dormem em qualquer canto da cidade, mas amanhã podem ser transformados em um ser humano respeitado e amado em seu meio. É nesse poder de transformação que eles encontram prazer. “Nunca fomos tão felizes em nossas vidas. Não temos mais nada. Vivemos de doações; da alegria de sermos pobres”, declarou Carlos Eduardo Cruz, 27 anos, um dos abnegados franciscanos.

Além dele, fazem parte do grupo Sandra da Silva, 18 anos, Claudinéia de Cássia Domingos, 23 anos, Sebastião Pessoa, 35 anos, Abel Rogério Bativa, 24 anos, e o casal Sérgio e Luciene. Todos fazem parte da Comunidade Nova Vida, ligada à Igreja Católica. Para participar é preciso obedecer a algumas regras básicas como fazer votos de pobreza, de castidade e de obediência à igreja, a exemplo do que fez Jesus em sua passagem pela Terra, narrada pela Bíblia.

Como símbolo do desprendimento material e do propósito do grupo, a roupa normalmente usada por eles lembra velhas túnicas, confeccionadas com um tipo de tecido popularmente conhecido como “pano de chão”, tingidos de marrom.

Tudo, nessa vestimenta, tem um significado. O tecido representa a limpeza. “Ninguém usa o pano de chão para tirar pó. Ele normalmente é usado para limpeza pesada, de locais onde há muita sujeira”, explicou Cruz. A costura colocada propositalmente à mostra, ou seja, do lado externo da túnica, significa a unidade da igreja. E a cor marrom é uma imitação daquela usada por São Francisco de Assis, em suas roupas. Aliás, a semelhança com o santo não fica apenas na cor da túnica. Ele, assim como o grupo, também abriu mão de todos os bens materiais para estar com os pobres.

Outra coincidência. A inauguração da primeira casa da Comunidade Nova Vida, em Iacanga, foi estrategicamente marcada para o dia 4 de outubro, quando os católicos comemoram o Dia de São Francisco. Apesar de todas essas semelhanças com o santo dos pobres, Cruz revela que a grande inspiração do grupo é Jesus, considerado por eles o “maior de todos os pobres”.

Capela

Localizada no bairro Estância de Iacanga, um dos mais pobres da cidade, a casa da comunidade tem quatro dormitórios. Um deles, no entanto, aguarda autorização do bispo de Bauru Dom Luiz Antônio Guedes para ser transformado em capela, onde os devotos franciscanos e os acolhidos poderão fazer suas orações reservadamente.

Dos sete membros da Comunidade Nova Vida, quatro estão em Iacanga, dois em Pederneiras e um em Arealva. Ao todo, as três casas atendem atualmente 38 pessoas. Nove delas em Arealva, 12 em Pederneiras e 17 em Iacanga. A maior parte dos acolhidos foram levados para a casa pelos membros da comunidade. Poucos são os que chegam por vontade própria.

O primeiro morador de rua adotado pela comunidade saiu de Bauru. Ele foi encontrado debaixo do viaduto da avenida Duque de Caxias, no cruzamento com a avenida Nações Unidas. Depois de um ano e meio, ele ainda continua com o grupo, na casa em Arealva. Desde o início, já passaram pelas três casas cerca de 300 pessoas, segundo os cálculos dos membros da comunidade.

Tanto o entrar como o sair da casa é livre. De acordo com Cruz, ninguém é obrigado a permanecer na casa, mas se decidir ficar tem que obedecer algumas regras como acordar cedo, arrumar a cama, lavar a própria roupa e manter o quarto em ordem. Em troca recebe pouso, comida e “muito amor”. “A grande cura que a gente procura é a do coração. Essas pessoas nunca foram amadas. E nós queremos mostrar que é possível amar de verdade”, disse Cruz.

Ele conta que nem tudo são flores dentro da casa. Já houve um momento em que foi preciso recorrer à polícia para mandar embora um acolhido, depois de sérios desentendimentos.

Tudo na casa é doado. Desde os móveis até uma parte da comida. A outra parte é plantada e colhida pelos próprios integrantes da casa. Quem não planta nem colhe, como o acolhido Fábio Ota, usa o tempo para trabalhar com artesanatos.

Esse é o caso de Claudemir Aparecido Pinto e Roberto Gonçalves. Enquanto o primeiro se dedica a fazer rosários, o segundo faz, entre outras coisas, portas-jóias de madeira. O dinheiro da venda desses produtos ficam com os próprios artesãos.

Desta forma, o grupo procura recuperar a auto-estima e o sentimento de poder ser útil e produtivo dos moradores de rua, nem que para isso seja preciso pagar um preço alto aos olhos da maioria. “Não importa o preço que temos que pagar, pois o amor é a maior de todas as riquezas”, declarou Cruz, recitando um dos lemas da comunidade.

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