Foi-se o tempo em que vovó era aquela senhora que sentava e esperava os netinhos com bolinhos e adorava fazer o estilo Dona Benta, do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Que me desculpe Monteiro Lobato e todas as avós que fazem quitutes maravilhosos e vivem para contar histórias aos seus netos. É que hoje, as avós estão mais para Vinícius de Morais, para quem “beleza é fundamental, e porque não dizer Ziraldo, que no livro “Vovó Delícia†mostra essas senhoras apaixonadas pelos netos, só que politizadas, fazendo ginástica e circulando entre amigas para fazer festas e passear.
A avó do novo milênio é vaidosa, ativa e querer aproveitar cada momento da vida como se fosse o último. Mas se depender dela, este minuto derradeiro está muito, mas muito longe.
A funcionária pública Maria Rita Cândido é uma vovó jovem de corpo e alma. “Quero chegar aos meus 70 e muitos anos, como essa minha cara, meu corpo, uns dois quilinhos mais magra, mas com um cabelo daquele tom “roxinhoâ€, que eu acho um charmeâ€, dispara.
Aos 43 anos, Rita não desce do salto. Coleciona bolsas, usa saia curta e é o modelo de beleza e bem-estar da neta Noemi de 4 anos. O cabelo ainda não é branco, mas sim pintado de vermelho intenso, como ela, uma mulher que menstruou aos 10 anos, casou-se aos 15, teve três filhos, o mais velho tem 28 anos. Sofreu um divórcio e perdeu um segundo companheiro, que faleceu depois de oito anos de união. Está sozinha, sem namorado, “mas com o coração abertoâ€.
Entretanto, não sai de casa na busca de um romance. Passa horas e horas no trabalho e o tempo que lhe resta é para ela e a neta, para quem, como toda avó à moda antiga gosta de costurar e cozinhar. “Ela é a razão da minha vida. Vamos juntas à piscina, ao teatro, ao cinema... E eu vou à luta para conseguir tudo o que queroâ€, revela Maria Rita.
A receita de boa forma é simples: levantar cedo, fazer caminhada diária e uma dieta sem carne vermelha. O toque de vaidade é dado pelo batom e pelas unhas sempre bem-feitas, apesar de lavar roupa e louça todo os dias. Ela conta que o segredo de sua longa vida está na fé, no alto-astral e no sorriso sempre aberto.
Rita não tem medo da menopausa que está para chegar. Muito menos dos sinais da terceira idade. “Sou negra e nesse ponto levamos vantagem. Meu pai tem mais de 70 anos e é novo, novo. Se Deus quiser vou ficar do mesmo jeitoâ€, filosofa.
Ao ser questionada sobre a felicidade, Maria Rita devolve: “Feliz? Iluminada! A vida me ensinou a ser desta maneira. Batalhei muito, sofri, criei meus filhos e sou vovó 2000 e gostaria que todas as mulheres do mundo fossem assim.â€
Sem medo da idade
A professora aposentada, Dalva Guimarães Leite da Silveira não revela a idade, mas dá a dica de que já viveu muito. Lecionou 30 anos, fez faculdade de psicologia, criou três filhos Sônia, Sílvio e Niltinho e é avó de dez netos, todos universitários, para quem muitas vezes faz as pesquisas para os trabalhos de faculdade, como se fossem os próprios filhos. “Afinal, ser avó é ser mãe de novo. A emoção, mesmo com as repetidas vezes, não dá para descrever.â€
Dalva se define como uma avó privilegiada. Tem os “probleminhas da idade†e um distúrbio de tireóide, mas encontra disposição para fazer 40 minutos diários de caminhada, nunca fez plástica, mas a beleza é um ritual que começa ao acordar. “Jamais saio do banheiro sem alguns cremes, batom e os olhos pintados, para ficar em casa, sim senhora. A idade é uma coisa de cabeça e a minha vaidade ainda é bem jovemâ€, argumenta.
Para manter a cabeça boa, como ela mesmo diz, joga xadrez, faz palavras cruzadas e lê muito. No momento, Dalva está lendo “A semente da vitóriaâ€, um livro que “fala muito sobre o otimismoâ€. Ela conta que quem lhe indicou o exemplar foi o padre Beto - autor dos artigos de cinema publicados aos domingos no JC Cultura. Numa feliz coincidência, o mesmo padre minutos antes de ser citado pela avó Dalva, abençoou a outra avó da matéria, a Maria Rita, durante uma visita ao Centro Cultural de Bauru, onde ela trabalha e realizávamos a entrevista.
Dalva, que durante anos foi presidente da Rede Feminina de Combate ao Câncer, hoje Associação Bauruense, acredita muito que as pessoas precisam estar bem e na ativa para manter afastados os problemas que rondam a idade avançada, como a falta de memória, a depressão e a perda da agilidade.
Apesar da idade, a aposentada diz sentir-se como uma jovem de 20 anos, apaixonada pelo marido Nilton. “Vivemos como dois namorados, como vivemos a vida inteira.†Hoje, ela é oradora de sua turma na universidade da terceira idade.
Dalva também tem uma condição de vida privilegiada, que lhe deu a chance de conhecer quatro, dos cinco continentes e fazer das viagens uma terapia. Mas ela conta que, no início de sua vida e de seu casamento, chegou a passar por muitas necessidades, com três filhos pequenos para criar. Ela relembra que madrugou muito para dar aulas em fazendas e cidades vizinhas e diz que o marido lutou para chegar à magistratura e dar à família uma melhoria de vida. Mesmo assim trabalhou até quando pôde e mesmo hoje desenvolve trabalhos assistenciais e filantrópicos.
“Sou uma mulher feliz e acredito que Deus sabe tudo o que faz. Ele me ensinou a dar valor em tudo o que conquistei com sacrifício, o que é ainda mais valioso. Só peço a ele que me dê saúde para continuar sendo dinâmica e só parar o dia em que morrer. Mas antes disso, eu poderia ganhar um bisneto, para me sentir ainda mais jovem e felizâ€.
Busca pela eterna juventude começa aos 35
Clinicamente falando, o processo de envelhecimento do ser humano é o mais dinâmico. Afinal, começamos a envelhecer desde o útero materno. O reuma-tologista e geriatra Júlio Horta Filho ressalva que dos 35 aos 40 anos, tanto homens quanto mulheres começam a sentir alterações fisiológicas com o passar do tempo.
Na mulher, este processo é mais sentido depois da última menstruação, a menopausa, que dá início ao climatério, período de alterações hormonais que causam o primeiro impacto do envelhecimento feminino.
No climatério, existe uma queda dos hormônios femininos, acompanhada de uma série de sintomas e alterações de pele, que fica mais fina e mais seca, de cabelo; mudanças emocionais, depressão, vazios; dores articulares e osteoartrose, que, segundo Horta, são as reclamações mais freqüentes a partir da quarta e quinta décadas de vida.
O médico aponta que o perfil dos pacientes tem mudado muito nos últimos 15 anos. Anteriormente, o geriatra cuidava das doenças da velhice, mas hoje é comum pacientes com menos de 40 anos buscarem um consultório para alcançar mais qualidade de vida.
“Principalmente, a mulher, que é mais cuidadosa. O homem só vem em última instância. E o que é mais interessante é que poucos pacientes chegam aqui me dizendo para dar um jeito porque não querem envelhecer, mas sim viver melhorâ€, relata.
A partir disso, o geriatra faz um histórico mais que completo do paciente, traçando o perfil de doenças, as carências nutricionais, suas relações ambientais, suas alterações hormonais e com este relatório minucioso se parte para um tratamento de reposição das perdas com o envelhecimento.
Além dos recursos da medicina complementar, o médico aponta que a maior parte do tratamento é feita com equilíbrio nutricional adequado a cada paciente, atividade física que mantenha músculos saudáveis, para que estes mantenham as cartilagens e os ossos, controle do stress e também das doenças, como diabetes e hipertenção.
Suicídio
Entretanto, de acordo com Horta o primeiro passo a ser tomado durante a vida por qualquer indivíduo na tentativa de prolongar sua expectativa de vida e “envelhecer legalâ€, é primordialmente cuidar da nutrição, acabar com o sedentarismo e ter uma atividade física constante, principalmente musculação, e abolir os hábitos suicidas. No topo da lista estão o cigarro e o álcool. Outro fator é a preservação da memória. Muito se fala dos cuidados com o corpo, mas o médico diz que é preciso “ter cabeça boaâ€, pois é ela é o comando de tudo.
A pessoa com idade avançada precisa ser independente e esta é a sua maior busca.
Esse conjunto de atuações vai fazer com que se viva melhor e continue fazendo valer o crescente número de pessoas mais velhas, mais saudáveis e, conseqüentemente, mais felizes. O que é uma tendência mais que natural. “Vai deixar de envelhecer? Não, mais vai envelhecer melhorâ€, conclui.