Mulher

Avó: As senhoras que não temem a idade

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Foi-se o tempo em que vovó era aquela senhora que sentava e esperava os netinhos com bolinhos e adorava fazer o estilo Dona Benta, do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Que me desculpe Monteiro Lobato e todas as avós que fazem quitutes maravilhosos e vivem para contar histórias aos seus netos. É que hoje, as avós estão mais para Vinícius de Morais, para quem “beleza é fundamental, e porque não dizer Ziraldo, que no livro “Vovó Delícia” mostra essas senhoras apaixonadas pelos netos, só que politizadas, fazendo ginástica e circulando entre amigas para fazer festas e passear.

A avó do novo milênio é vaidosa, ativa e querer aproveitar cada momento da vida como se fosse o último. Mas se depender dela, este minuto derradeiro está muito, mas muito longe.

A funcionária pública Maria Rita Cândido é uma vovó jovem de corpo e alma. “Quero chegar aos meus 70 e muitos anos, como essa minha cara, meu corpo, uns dois quilinhos mais magra, mas com um cabelo daquele tom “roxinho”, que eu acho um charme”, dispara.

Aos 43 anos, Rita não desce do salto. Coleciona bolsas, usa saia curta e é o modelo de beleza e bem-estar da neta Noemi de 4 anos. O cabelo ainda não é branco, mas sim pintado de vermelho intenso, como ela, uma mulher que menstruou aos 10 anos, casou-se aos 15, teve três filhos, o mais velho tem 28 anos. Sofreu um divórcio e perdeu um segundo companheiro, que faleceu depois de oito anos de união. Está sozinha, sem namorado, “mas com o coração aberto”.

Entretanto, não sai de casa na busca de um romance. Passa horas e horas no trabalho e o tempo que lhe resta é para ela e a neta, para quem, como toda avó à moda antiga gosta de costurar e cozinhar. “Ela é a razão da minha vida. Vamos juntas à piscina, ao teatro, ao cinema... E eu vou à luta para conseguir tudo o que quero”, revela Maria Rita.

A receita de boa forma é simples: levantar cedo, fazer caminhada diária e uma dieta sem carne vermelha. O toque de vaidade é dado pelo batom e pelas unhas sempre bem-feitas, apesar de lavar roupa e louça todo os dias. Ela conta que o segredo de sua longa vida está na fé, no alto-astral e no sorriso sempre aberto.

Rita não tem medo da menopausa que está para chegar. Muito menos dos sinais da terceira idade. “Sou negra e nesse ponto levamos vantagem. Meu pai tem mais de 70 anos e é novo, novo. Se Deus quiser vou ficar do mesmo jeito”, filosofa.

Ao ser questionada sobre a felicidade, Maria Rita devolve: “Feliz? Iluminada! A vida me ensinou a ser desta maneira. Batalhei muito, sofri, criei meus filhos e sou vovó 2000 e gostaria que todas as mulheres do mundo fossem assim.”

Sem medo da idade

A professora aposentada, Dalva Guimarães Leite da Silveira não revela a idade, mas dá a dica de que já viveu muito. Lecionou 30 anos, fez faculdade de psicologia, criou três filhos Sônia, Sílvio e Niltinho e é avó de dez netos, todos universitários, para quem muitas vezes faz as pesquisas para os trabalhos de faculdade, como se fossem os próprios filhos. “Afinal, ser avó é ser mãe de novo. A emoção, mesmo com as repetidas vezes, não dá para descrever.”

Dalva se define como uma avó privilegiada. Tem os “probleminhas da idade” e um distúrbio de tireóide, mas encontra disposição para fazer 40 minutos diários de caminhada, nunca fez plástica, mas a beleza é um ritual que começa ao acordar. “Jamais saio do banheiro sem alguns cremes, batom e os olhos pintados, para ficar em casa, sim senhora. A idade é uma coisa de cabeça e a minha vaidade ainda é bem jovem”, argumenta.

Para manter a cabeça boa, como ela mesmo diz, joga xadrez, faz palavras cruzadas e lê muito. No momento, Dalva está lendo “A semente da vitória”, um livro que “fala muito sobre o otimismo”. Ela conta que quem lhe indicou o exemplar foi o padre Beto - autor dos artigos de cinema publicados aos domingos no JC Cultura. Numa feliz coincidência, o mesmo padre minutos antes de ser citado pela avó Dalva, abençoou a outra avó da matéria, a Maria Rita, durante uma visita ao Centro Cultural de Bauru, onde ela trabalha e realizávamos a entrevista.

Dalva, que durante anos foi presidente da Rede Feminina de Combate ao Câncer, hoje Associação Bauruense, acredita muito que as pessoas precisam estar bem e na ativa para manter afastados os problemas que rondam a idade avançada, como a falta de memória, a depressão e a perda da agilidade.

Apesar da idade, a aposentada diz sentir-se como uma jovem de 20 anos, apaixonada pelo marido Nilton. “Vivemos como dois namorados, como vivemos a vida inteira.” Hoje, ela é oradora de sua turma na universidade da terceira idade.

Dalva também tem uma condição de vida privilegiada, que lhe deu a chance de conhecer quatro, dos cinco continentes e fazer das viagens uma terapia. Mas ela conta que, no início de sua vida e de seu casamento, chegou a passar por muitas necessidades, com três filhos pequenos para criar. Ela relembra que madrugou muito para dar aulas em fazendas e cidades vizinhas e diz que o marido lutou para chegar à magistratura e dar à família uma melhoria de vida. Mesmo assim trabalhou até quando pôde e mesmo hoje desenvolve trabalhos assistenciais e filantrópicos.

“Sou uma mulher feliz e acredito que Deus sabe tudo o que faz. Ele me ensinou a dar valor em tudo o que conquistei com sacrifício, o que é ainda mais valioso. Só peço a ele que me dê saúde para continuar sendo dinâmica e só parar o dia em que morrer. Mas antes disso, eu poderia ganhar um bisneto, para me sentir ainda mais jovem e feliz”.

Busca pela eterna juventude começa aos 35

Clinicamente falando, o processo de envelhecimento do ser humano é o mais dinâmico. Afinal, começamos a envelhecer desde o útero materno. O reuma-tologista e geriatra Júlio Horta Filho ressalva que dos 35 aos 40 anos, tanto homens quanto mulheres começam a sentir alterações fisiológicas com o passar do tempo.

Na mulher, este processo é mais sentido depois da última menstruação, a menopausa, que dá início ao climatério, período de alterações hormonais que causam o primeiro impacto do envelhecimento feminino.

No climatério, existe uma queda dos hormônios femininos, acompanhada de uma série de sintomas e alterações de pele, que fica mais fina e mais seca, de cabelo; mudanças emocionais, depressão, vazios; dores articulares e osteoartrose, que, segundo Horta, são as reclamações mais freqüentes a partir da quarta e quinta décadas de vida.

O médico aponta que o perfil dos pacientes tem mudado muito nos últimos 15 anos. Anteriormente, o geriatra cuidava das doenças da velhice, mas hoje é comum pacientes com menos de 40 anos buscarem um consultório para alcançar mais qualidade de vida.

“Principalmente, a mulher, que é mais cuidadosa. O homem só vem em última instância. E o que é mais interessante é que poucos pacientes chegam aqui me dizendo para dar um jeito porque não querem envelhecer, mas sim viver melhor”, relata.

A partir disso, o geriatra faz um histórico mais que completo do paciente, traçando o perfil de doenças, as carências nutricionais, suas relações ambientais, suas alterações hormonais e com este relatório minucioso se parte para um tratamento de reposição das perdas com o envelhecimento.

Além dos recursos da medicina complementar, o médico aponta que a maior parte do tratamento é feita com equilíbrio nutricional adequado a cada paciente, atividade física que mantenha músculos saudáveis, para que estes mantenham as cartilagens e os ossos, controle do stress e também das doenças, como diabetes e hipertenção.

Suicídio

Entretanto, de acordo com Horta o primeiro passo a ser tomado durante a vida por qualquer indivíduo na tentativa de prolongar sua expectativa de vida e “envelhecer legal”, é primordialmente cuidar da nutrição, acabar com o sedentarismo e ter uma atividade física constante, principalmente musculação, e abolir os hábitos suicidas. No topo da lista estão o cigarro e o álcool. Outro fator é a preservação da memória. Muito se fala dos cuidados com o corpo, mas o médico diz que é preciso “ter cabeça boa”, pois é ela é o comando de tudo.

A pessoa com idade avançada precisa ser independente e esta é a sua maior busca.

Esse conjunto de atuações vai fazer com que se viva melhor e continue fazendo valer o crescente número de pessoas mais velhas, mais saudáveis e, conseqüentemente, mais felizes. O que é uma tendência mais que natural. “Vai deixar de envelhecer? Não, mais vai envelhecer melhor”, conclui.

Comentários

Comentários