Cultura

O céu e inferno de Gil Vicente

Redação
| Tempo de leitura: 4 min

O Teatro Municipal recebe hoje e amanhã, às 21 horas, o espetáculo “Auto da Barca do Inferno”, adaptado do clássico de Gil Vicente pelo grupo Dragão 7, da Cooperativa Paulista de Teatro. Marcada como uma das primeiras peças teatrais da língua portuguesa, o clássico leva ao palco personagens ainda muito atuais, mesmo criados há quase 500 anos.

Em sua proposta de encenação, o grupo Dragão 7 utiliza um texto fiel ao original com inserções de temas atuais. Desta forma, o “Auto da Barca do Inferno” fica situado em qualquer espaço ou tempo que a imaginação do público conduzir.

Com um clima carnavalesco muito peculiar, transforma o teatro em folia. A trilha sonora é eclética. Sai do rock dos Rolling Stones e Led Zeppelin, passa pela música erudita e conclui com um samba-enredo composto especialmente para o espetáculo.

Enredo

Localizado em um lugar além da morte, existe um cais onde duas barcas se encontram ancoradas e aguardam os que deixam esta vida. Uma tem como destino, através das esferas celestiais. A outra vai para o inferno. Por este cais, desfilam personagens que procuram pela barca que julgam merecer por direito - é óbvio, a do Paraíso.

Uma a uma, figuras imponentes - como o famoso fidalgo Dom Anrique (vivido pelo ator bauruense Emerson Caperbat), o juiz, o procurador de impolutos decoros e condutas e até o bem conhecido sapateiro, fervoroso devoto de Deus - surgem naquele profundo braço do mar de onde as almas só saem para tomar uma das duas naus.

E não havendo quem deixe de desejar seguir pela barca da glória, todos declamam suas virtudes ao anjo. Mas aos olhos dos anjos e dos diabos - que guardam os caminhos - revelam-se os pecados dos suplicantes.

Nesse cais, ninguém escapa do julgamento final: grandes ou pequenos, os pecados, as bravuras, as heresias, as inocências, as corrupções e as hipocrisias. Tudo é revelado no tribunal no qual o diabo é o promotor da humanidade.

Quase todos são condenados. As exceções são o Parvo que, morrendo criança, não se corrompeu por caminhos errados, e os cavaleiros cruzados, que morreram em nome de Cristo, redimindo os pecados. Uma verdadeira crítica à hipocrisia social.

O texto é leitura obrigatória para os estudantes do ensino médio e das listas de vestibular. Os figurinos e os adereços são assinados por Tito Arante e a trilha sonora por Aline Méier. A direção fica a cargo de Creusa Borges, que também atua no espetáculo ao lado de Mafa Nogueira, Caio Polesi, Romana Flora, Eduardo Chagas e Alda Machado, além de Emerson Caperbat.

O Autor

Considerado o pai do teatro português, de Gil Vicente, que viveu na Idade Média, pouco se sabe em concreto. Desconhece-se o local e a data exata do nascimento e morte. Alguns documentos situam-no como, além de dramaturgo, ouvires. No entanto, sabe-se que no dia 8 de junho de 1502, representou um monólogo à rainha Maria. É provável que tenha nascido na província de Guimarães, mas logo se fixado em Lisboa. Sua principal ocupação na capital parece ter sido a de escrever e representar autos nas cortes dos reis Manuel e João III.

Serviço

“Auto da Barca do Inferno”, com o Grupo Dragão 7, hoje e amanhã, 21 horas, no Teatro Municipal. Recomendação: 10 anos. Ingressos: R$ 20, R$ 12 (antecipados), R$ 10 (estudantes) e desconto apresentando bônus JC. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1072. Realização: Secretaria Municipal de Cultura e Abapuru Produção Cultural. Patrocínio: Saint Paul Residence. Co–Patrocínio: Café 21 Center, Colcci e Real Time. Apoio: Padaria Copacabana, Restaurante Lalai, Rádio Unesp, Torteria Doceana, Churrascaria Baby Búfalo, Flag-Petróleo, Alice Estofados Restaurante Gustare, Villa Madalena, Mauro Quintanilha Cabelo e Maquiagem e Keune Cosméticos e Jornal da Cidade.

Saiba mais sobre o Dragão 7

Integrante do núcleo da Cooperativa Paulista de Teatro, o Grupo Dragão 7 apresenta como objetivo a criação de uma linguagem popular direta com a platéia. O histórico do grupo tem início em 1988 com o espetáculo “As Desgraças de uma Criança”, de Martins Pena. A montagem retratava um Brasil ainda criança e abandonado.

Em 1989, trabalham com o espetáculo “O Noviço”, também de Martins Pena. A partir daí, o grupo passa a se aprofundar na linguagem adolescente, com espetáculos específicos para tal público. Em 1991, estréiam o espetáculo “Mais Quero Asno que Me Carregue, que Cavalo que Me Derrube”, de Carlos Soffredini, adaptada da “Farsa de Inês Pereira”, de Gil Vicente. Durante toda a vivência, o grupo percebe a necessidade de pesquisar, informar e formar um público para o teatro.

Um ano mais tarde, o Dragão 7 opta mais uma vez por um texto de Gil Vicente. Os atores mergulham na linguagem original e se especializam com a peça “Auto da Barca do Inferno”. São aproximados 10 anos de viagens com a barca e mais de 500 apresentações, incluindo Espanha e Portugal.

Em 1999, estréia o espetáculo “Brasil, Outros 500”, que veio coroar a maturidade artística do grupo e comemorar os 11 anos de existência. Com um belo espetáculo, o grupo faz um passeio pelos 500 anos do descobrimento do Brasil, a diversidade de seu povo, culturas, tristezas e alegrias. A peça teve boa aceitação no Brasil e exterior.

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