Regional

Projeto social reduz criminalidade

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

Presidente Alves - Muros sem pichações, ruas limpas e sem pedintes, crianças bem alimentadas e profissionalizadas. Escola de alfabetização de adultos e de idiomas - inglês e espanhol - e de informática, gratuitas. Índice de violência praticamente zero. O paraíso, que pode parecer utópico no Brasil, está na região, há 50 quilômetros de Bauru. Em Presidente Alves, os trabalhadores rurais ganham capa de chuva, mochila e mangote (uma espécie de manga de camisa que é colocada sobre a roupa para proteger de acidentes com ferramentas). A roupa é confeccionada em tecido impermeável, reaproveitado da recauchutagem de pneus. A idéia tem como objetivo reaproveitar sucata, proteger os cortadores de cana de acidentes e de chuva e profissionalização de adolescentes.

O Projeto Criança é um trabalho social que vem sendo desenvolvido há quatro anos no município. A semente plantada no ano de 1998 já está dando seus frutos. É difícil acreditar que a cidade com seus cinco mil habitantes consiga a proeza de ter um índice quase zero de violência, num momento em que a maioria das cidades “briga” com os números de assassinatos, seqüestros, furtos e roubos.

O segredo de tanta harmonia é o trabalho social desenvolvido pelo professor primário aposentado Waldemar Pereira de Camargo, coordenador do Projeto Criança, Casa da Cultura e presidente da Sociedade de Assistência e Ocupação do Menor. Trabalhando como voluntário, ele e sua equipe conseguiram desenvolver uma série de atividades com baixo custo e reaproveitamento de material para não deixar as crianças e jovens na rua.

A estação ferroviária, que durante dez anos ficou abandonada pela Rede Ferroviária Federal, é hoje uma grande oficina de marcenaria, costura, artesanato e lazer. Todos os dias, 180 crianças passam meio período de seu dia trabalhando e se divertindo com orientadores. Sem o requinte das grandes entidades sociais que se preocupam com a sofisticação dos ambientes, o Projeto Criança trabalha com a realidade de seus assistidos.

O objetivo, segundo o coordenador, é fazer com que o assistido encare a sua realidade e consiga desenvolver seus talentos com criatividade. “Nós trabalhamos com a realidade do nosso público. Não podemos sofisticar o ambiente, porque eles não têm essa sofisticação em suas casas.”

O Projeto Criança, além de ensinar uma profissão às crianças de 7 a 14 anos, oferece lanche e renda para aquele que trabalha, explica o coordenador. “A prefeitura aluga o prédio. Nós temos três monitores que são funcionários municipais. Oferecemos dois lanches, um no período da manhã e outro no período da tarde. Os objetos confeccionados pelos alunos são deles. Ele podem levar para casa, doar ou vender.”

Isso só pode ser feito porque a maioria dos materiais utilizados na confecção dos trabalhos é sucata, produtos que seriam jogados fora pelas empresas que fazem a doação. “A madeira eu ganho da Tilibra e do Lar Dom Bosco. O tecido de recauchutagem de pneus vem da D.Paschoal e da recauchutagem Pinheiro.”

Até o maquinário usado nas oficinas de trabalho foram recuperados. “Eram máquinas da prefeitura que estavam sem uso por defeito. Recuperamos e todas estão em funcionamento”, explica o coordenador.

Os trabalhos em madeira, de acordo com ele, são feitos a partir da paleta de madeira que segura o papel para o transporte. “As bobinas de papel são transportadas com o apoio da peleta. Todo esse material era queimado. Nós buscamos os restos de madeira e com ele confeccionamos uma série de produtos. Na marcenaria, consertamos os móveis da casa do aluno.”

Todos os ensinamentos do projeto são colocados em prática na vida cotidiana do aluno, frisa o voluntário. “Se uma cama da casa dele quebra a perna, nós vamos buscar e consertamos. Entendemos que dessa maneira, ele ajuda sua família e conserva os móveis da casa porque aprende a importância da conservação.”

Fonte de renda

Recuperar um menor envolvido com drogas é muito mais caro e trabalhoso do que fazer a prevenção e não deixar que ele se envolva com a marginalidade. Esta é a filosofia que norteia o trabalho do Projeto Criança, onde as crianças não são recuperadas e sim orientadas.

Todas as crianças estudam e, no período restante, freqüentam uma das oficinas. Através de seu próprio trabalho, pode conseguir uma fonte de renda, muitas vezes maior do que o arrimo da família, conta o coordenador. “Há um menor que trabalha com madeira que ganha cerca de R$ 200,00 por mês. Seu pai trabalha na roça e não ganha isso. Ele tem ajudado no orçamento familiar.”

As crianças menores, especialmente as meninas, começam cedo a ter contato com alguma profissão, mesmo sem conseguir ganhar dinheiro. “Todas as participantes do projeto ganham um conjunto de roupa no final do mês. A prefeitura dá o tecido e a costureira corta a roupa. As crianças maiores já conseguem fazem o alinhavo, barra etc. As menores acompanham, observando passo-a-passo a confecção das peças. No final do mês, cada uma leva uma roupa nova para casa.”

Tolerância Zero

O trabalho social desenvolvido em Presidente Alves alcançou patamares que não estavam programados. Sem pedinte, sem criança de rua e com muita educação, a cidade tem índice de violência perto de zero. Sem delegado, o município trabalha na prevenção. O escrivão Ronaldo Pantera Lopes ressalta que a delegacia da cidade é um verdadeiro divã. “Ouvimos e aconselhamos os casais que estão com problemas conjugais.”

Desde o começo do ano, em Presidente Alves foram registrados 12 boletins de ocorrência. Todas eles de natureza leve. “São discussões e agressões leves. Homicídio já perdemos a data do último.”

O trabalho da assistente social, segundo o coordenador do Projeto Criança, Waldemar Pereira de Camargo, é fator preponderante no índice de criminalidade. “Toda vez que um pedinte entra na cidade, nós pedimos que a assistente social faça uma visita e levante a situação. Ela soluciona o problema, por isso, não temos nenhum na cidade.”

No Carnaval, a cidade contou com quatro mil foliões em praça pública. Com dez seguranças contratados pela prefeitura, policiais militares e civis fizeram o trabalho preventivo. O resultado, nenhuma ocorrência policial.

A comunidade coopera com a segurança, frisa o coordenador do projeto. “No Carnaval, um munícipe me ligou para dizer que havia uma criança pichando a Casa da Cultura. Ele estava pichando com espuma de Carnaval.”

Os muros da cidade continuam da cor que foram pintados. Não há pichações e nem vandalismo. Os moradores conservam as pinturas em ordem e quem entra em Presidente Alves tem a impressão que a cidade é nova.

A vida dos moradores é muito diferente do que as pessoas possam imaginar: não há preocupação com segurança e as empresas de alarmes não conseguem faturar porque o índice de furto e roubo é baixo. As janelas das casas ficam abertas. Os carros com pacotes e objetos em seu interior e as flores e frutas das calçadas não são arrancadas por vândalos. A paisagem lembra o Interior de Portugal, onde cachos de uva estão pendurados nas sacadas.

Vidraça Quebrada

Na década de 90, a cidade de Nova York, nos Estados Unidos, atingiu um índice de violência intolerante. Assassinatos e crimes violentos tornaram a cidade insuportável de se viver. Um projeto social implantado na cidade conseguiu reverter a situação. Em menos de dez anos, Nova York voltou a ter a violência sob controle.

Conhecido como projeto da Vidraça Quebrada, ele visava não deixar uma só casa pichada ou com a vidraça quebrada para não incentivar o vandalismo. Em Presidente Alves, guardada as devidas proporções, foi implantado um projeto semelhante.

Em todas as ruas há latões de lixo, sinalizados e bem localizados. O resultado é que não há papéis ou lixo no chão. Os bueiros não ficam entupidos e a prefeitura não gasta com este tipo de serviço.

Como a cidade é de pequeno porte, não há casas em estado de abandono e as vidraças estão inteiras. Ninguém ousa destruir um trabalho de embelezamento do município. Os próprios munícipes preservam a cidade.

Povo culto e educado

As crianças de 7 a 14 anos trabalham nas oficinas, mas ao completar a idade limite não tinham mais o que fazer fora da escola. Para atender essa demanda, o idealizador do Projeto Criança criou outro projeto. “O prédio de uma igreja evangélica foi transformado em Casa da Cultura.”

Com o apoio da prefeitura, o coordenador Waldemar Pereira Camargo criou vários cursos, todos gratuitos. “Temos 180 alunos de informática. Mais 65 fazendo aulas de espanhol, 100 nas aulas de inglês e a freqüência da biblioteca tem uma média de 300 pessoas/mês.”

O curso de pintura em tecido e tela atende, inclusive a noite. “Fico emocionado quando vejo uma trabalhadora rural pintando um quadro. Esta oportunidade nós estamos dando aos moradores. Aqui tem aulas de teclado, também.”

O pátio da antiga igreja está em reforma. Vai receber uma rádio comunitária e um teatro que já funciona em situação um pouco precária.” Os bancos foram ganhos. Os demais, as crianças do Projeto Criança reaproveitaram os pés das carteiras das escolas estaduais que iam ser jogados fora e com madeira refizeram.”

Na mesma casa é oferecido o curso de auxiliar administrativo. “Nos últimos dois anos, nossos alunos não foram reprovados em concursos médios. Todos que tentaram ingressar na Polícia Militar, conseguiram, assim como nos exames para ingresso nas penitenciárias.”

Transformando sobras

O tecido que reveste a borracha para recauchutar pneus não tinha serventia alguma e era produto destruído. O mesmo tecido está sendo usado para proteger os cortadores de cana dos acidentes com facões e ferramentas.

O Projeto Criança utiliza o tecido para fazer capa de chuva, sacolas, mochilas, jaquetas de frio, sapato feminino e até um kit para pedinte.

Uma dose de criatividade da costureira aliada a vontade de ajudar o próximo, transforma o material em algo útil, frisa o coordenador Waldemar Pereira Camargo. “Eles usam a roupa sobre a deles evitando que o contato direto com carrapichos, carvão e até com as ferramentas. Como é impermeável, a capa serve para proteger da chuva.”

Com o tecido é possível fazer ainda, capa para botijão de gás, liquidificar, tapetes para banheiro etc. Até um colete para pesca já foi feito. Os meninos podem sugerir e a costureira confecciona.

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