O Instituto Butantan não costuma oferecer cursos específicos para vereadores, mas se a população em geral quiser saber mais sobre animais peçonhentos, a instituição centenária de São Paulo, idealizada pelo médico sanitarista Vital Brazil, está com inscrições abertas para aulas gratuitas durante todo o ano.
O diretor da Divisão Cultural do Butantan, Henrique Moisés Canter, salientou que o principal objetivo dos cursos básicos voltados à comunidade é ensinar a se defender dos ataques de animais como cobra, escorpião e aranha. Durante as aulas, não há como reforçar o “estoque de peçonhaâ€, como havia sugerido o prefeito Nilson Costa (PPS) ao comentar sobre os ataques que recebeu dos vereadores Toninho Garmes (PSDB) e José Clemente Rezende (PSB) na primeira sessão legislativa deste ano, mas as pessoas têm acesso a como prevenir-se desse tipo de acidente.
O comentário do prefeito de Bauru sobre a atitude dos vereadores despertou a curiosidade do Jornal da Cidade, que decidiu conhecer um pouco mais sobre o centenário Instituto Butantan. Em visita ao local, a reportagem pôde constatar, entre outras coisas, que apenas 20% das cobras que existem no mundo são peçonhentas. Outra curiosidade notada foi que um lugar que concentra cerca de oito mil animais considerados perigosos, como cobras, escorpiões e aranhas, é um dos maiores atrativos turísticos da cidade de São Paulo, recebendo visitas de cerca de 400 mil pessoas por ano. “As pessoas ficam encantadas quando conhecem um pouco mais desse lado misterioso da naturezaâ€, disse Giuseppe Puorto, diretor do Museu Biológico do Instituto, onde podem ser observadas uma centena de cobras vivas, escorpiões, aranhas e sapos.
Grande parte dessa atração deve-se ao setor cultural do Butantan. São quatro museus, serpentário, biblioteca, além de uma imensa área verde, instalada em meio ao cinza paulistano.
Museu Biológico
No Museu Biológico, que está completando 90 anos, concentra-se uma das maiores atrações: uma coleção de serpentes vivas que causa fascínio no público pela beleza exótica. Uma delas é a periquitambóia. Também conhecida como cobra-papagaio, ela pode atingir o comprimento de dois metros. O nome está diretamente relacionado à sua cor, um verde vivo que lembra a tonalidade dos pássaros.
O biólogo Giuseppe Puorto, diretor do Museu Biológico, explicou que os animais que estão em exposição chegam ao Butantan de diversas formas. “Alguns deles, são entregues pela população no setor de recolhimento de animais peçonhentos. Outros, são doados pelo Ibama, que os apreende junto a traficantes de animais e há ainda aqueles que nascem em cativeiro, nos laboratórios do Institutoâ€, disse.
Em fevereiro do ano passado, quando o Instituto Butantan completou 100 anos, o museu foi reinaugurado com uma nova roupagem. Com o patrocínio da iniciativa privada, o espaço foi totalmente remodelado, ganhando cinco terminais multimídia - nos quais os visitantes podem obter informações detalhadas sobre os animais em exposição -, além de um design moderno, com cores apropriadas para a melhor visualização dos animais e legendas em três idiomas – português, inglês e espanhol. A reforma custou aproximadamente R$ 800 mil, segundo Puorto.
Ataque de formigas
Embora despertem temor em muita gente, os animais peçonhentos acabaram sendo vítimas de um ataque que disseminou boa parte do acervo do Museu Biológico. Puorto contou que, em agosto do ano passado, um batalhão de formigas vindas da rua atacou o aquário no qual estavam expostas cerca de 500 exemplares de aranhas e acabou com todos elas. Hoje, para evitar que isso se repita, em todos os boxes contendo aracnídeos, foram colocados punhados de cravo-da-índia. “Esse é um artifício para espantar as formigasâ€, disse o diretor do Museu.
No espaço existe ainda um auditório e uma sala de projeção, onde são ministrados cursos básicos para a população em geral e de extensão universitária.
O diretor da Divisão Cultural, Henrique Moisés Canter, salientou que as pessoas não têm idéia do trabalho desenvolvido pelo Instituto. “Existe uma carência de informação sobre o Butantan. Todo o mundo sabe que ele existe, mas muita pouca gente conhece a sua real função dentro da saúde pública do Paísâ€, disse.
Por isso, foram abertos os cursos básicos. No entanto, como a estrutura para atender a demanda ainda é pequena, Canter prefere divulgar discretamente o atendimento didático. “Somente no ano passado, duas mil e duzentas pessoas freqüentaram os cursos oferecidos por nósâ€, disse.
Entre o conteúdo do programa didático estão aulas sobre reconhecimento das serpentes, primeiros socorros e prevenção, programas de imunização.
Museu de microbiologia
No último dia 21, foi inaugurado oficialmente o Museu de Microbiologia, o primeiro do gênero no mundo. De acordo com Giuseppe Puorto, a idéia é promover a Ciência, principalmente entre os estudantes do ensino médio e superior. “O público em geral também pode visitar o museu, mas ele é mais adequado para os estudantesâ€, disse.
Isso porque, além de abordar assuntos que são discutidos em sala de aula pelos professores, o setor mais importante do museu é um laboratório de iniciação científica. Lá, os alunos poderão observar no microscópio o crescimento das células, a vida dos micróbios, os mais variados formatos dos seres minúsculos que compõem o universo da biologia.
Puorto explicou que as visitas serão feitas mediante agendamento, já que o passeio corresponderá a uma verdadeira aula sobre microbiologia.
Na sala de exposição, que é aberta à visitação, existem modelos tridimensionais em acrílico de organismos como o Trypanossoma Cruzi, o bicho barbeiro, a pulga, o glóbulo branco em pleno processo de defesa do organismo (absorvendo bactérias), a peça bucal do Aedes aegypti (mosquito transmissor da dengue), entre muitas outras coisas.
Puorto destacou que o museu só será aberto ao público no dia 10 de abril, pois ainda estão sendo feitos alguns ajustes para o seu funcionamento.
As escolas públicas receberão de brinde um kit de experimentos, que poderá ser usado no seu laboratório para complementar as aulas de biologia. Quem tiver interesse, também poderá adquirir esse kit no local, ao preço de R$ 60,00.
101 anos de História
O Instituto Butantan completou, no último dia 23 de fevereiro, 101 anos de existência. O centro de pesquisa biomédica foi fundado pelo médico sanitarista Vital Brazil, ocupando a antiga Fazenda Butantan, que na época – começo do século XX, ficava na periferia da cidade de São Paulo. “Como seriam estudados mecanismos para combater pestes e venenos, o governo optou pelo isolamento das pesquisasâ€, disse Henrique Moisés Canter, diretor da Divisão Cultural do Instituto.
Em 1895, o médico Vital Brazil, clinicando na cidade de Botucatu, percebeu que muitas pessoas estavam morrendo devido à picada de serpentes. Isso o estimulou a estudar o ofidismo.
Na ocasião, havia uma epidemia de peste bubônica na cidade de Santos. O então diretor do Serviço Sanitário do Estado, Emílio Ribas, decidiu instalar um laboratório para a produção de soro antipestoso no Butantan, convidando Vital Brazil para ser o diretor do local.
Sem infra-estrutura apropriada, esse centro de pesquisa foi montado onde funcionava a cocheira da fazenda. “Graças ao idealismo de Vital Brazil, que além da produção de soros e vacinas, também se preocupava em desenvolver pesquisas, o instituto tornou-se reconhecido internacionalmenteâ€, disse Canter.
Hoje o Butantan possui 48 seções, entre laboratórios, administração, biblioteca, produção de soros e vacinas, gráfica, oficinas, restaurante, quatro museus (Biológico, Histórico, de Rua e de Microbiologia), além de um hospital especializado em acidentes com animais peçonhentos, o Vital Brazil.
Até os dias de hoje, o Instituto Butantan possui uma seção especializada no recebimento de animais peçonhentos. Lá, a população pode entregar animais capturados nas ruas, em matos ou terrenos baldios. Além de serem retirados do contato com o homem, eles servem como instrumento de estudo para os especialistas da instituição.
Peçonhas
A curiosidade do JC em descobrir e revelar um pouco mais sobre o Instituto Butantan nasceu a partir de uma troca de farpas entre o prefeito Nilson Costa (PPS) e os vereadores Toninho Garmes (PSDB) e José Clemente Rezende (PSB), no início do mês passado.
Na primeira sessão legislativa do ano, ocorrida dia 4 de fevereiro, os parlamentares teceram inúmeras críticas à administração municipal.
Em resposta, o prefeito qualificou os seus adversários como “cobras venenosasâ€.
Mostrando um bom humor peculiar, Nilson Costa disse que tinha a impressão que os vereadores haviam aproveitado as férias para “fazer um estágio no Butantan e reforçar o estoque de peçonhaâ€.
Conforme a reportagem do JC verificou, o treinamento dado pelo instituto ensina apenas a se defender do veneno e não a usá-lo contra adversários.