Tribuna do Leitor

DONA JUJU

Henrique Perazzi de Aquino
| Tempo de leitura: 3 min

Dona Juju foi professora de Literatura. Aposentou-se após 35 anos dedicados ao magistério. Pois foi aposentar o giz e resolveu conhecer sua cidade. Aquilo tudo que conhecia na teoria, só teria valor se constatado in loco. Não a cidade dos pontos turísticos, dos letrados e dos monumentos. Essa ela já conhecia muito bem, pois apesar dos pesares, ainda mantinha certa conservação. Foi conhecer o outro lado da cidade, aquele que só conhecia de nome, de ouvir falar. Paramentou-se toda e na qualidade de mestrada em letras, literalmente afundou-se em sua cidade. Conheceu um mundo que não imaginava, bem diferente daquele que estava acostumada. Foi um susto, pois constatou que não conhecia sua cidade.

Seus olhos iluminaram-se, não mais com as luzes do centro da cidade, mas das vielas e das lamparinas, que não acreditava ainda existirem na sua centenária cidade. Não bastou fazer um tour de ônibus, pois para conhecer sua cidade, de verdade, precisou gastar sola de sapato. Adentrou lugares imundos, buracos que imaginava existirem só na distante África. Atolou o pé em muito barro, inexistente nas ruas que costumava pisar. Viu gente desdentada, muita criança com o nariz escorrendo, pés descalços e uma miséria de dar dó, bem diferente do seu mundinho letrado. Passou apuros quando tentou adentrar desacompanhada uma favela (isso mesmo, elas também existem por aqui), sem pedir permissão para um dos “donos” do lugar. Conviveu com gente sem estudo nenhum, mas com um conhecimento de vida muito maior que o seu. Foi difícil reconhecer isso, mas teve que dar o braço a torcer, pois diante de toda aquela novidade, de que valiam todos aqueles diplomas que ela tanto fazia questão de citar. Resignada, esqueceu do seu passado e mergulhou fundo nesse novo mundo, reconhecendo que sempre havia lecionado sobre o que nunca viu. “Sacou que o dia-a-dia é mais do que toda teoria e que quem conhece História pelos livros não descobre o Brasil” (Celso Viáfora). De descoberta em descoberta, nasceu de novo.

E não se arrependeu. Ganhou conhecimentos nunca antes adquiridos nos mais diferentes livros e cursos. Tudo para ela estava sendo novidade. Justo ela, que tinha certeza de nada mais ter que aprender. A primeira lição que levou foi que de nada vale muito conhecimento teórico, sem verificar aquilo tudo na prática. Pois ali, não ensinou nada; ouviu demais, viu que sua cidade tinha problemas mil e passou a reconhecer que esse lado era esquecido pelas autoridades municipais. Era o que eles chamavam de lado menos nobre, muito diferente daquilo tudo que dava valor. E aí ela caiu em si, percebendo que quando enaltecia o que considerava como louvável e nobre, esquecia-se dessa outra cidade, dentro da sua querida e amada cidade. E o que é pior, estava sendo usada para que nada fosse feito em prol dessa outra cidade. De agora em diante, com conhecimento de causa, daria valor para isso tudo que constatou existir. Sentiu uma vergonha enorme por só reconhecer e conhecer esse outro lado somente agora, quando está aposentada, mas muita coisa ainda pretende fazer. Pra começar vai denunciar a existência de duas cidades distintas, uma ainda cuidada, a outra esquecida, vilipendiada e encoberta. Ela, agora propaga a todos que passou a enxergar de novo. Dona Juju descobriu-se, finalmente, para felicidade geral. (Henrique Perazzi de Aquino - RG: 9.710.205-2)

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