Não resta a menor dúvida de que o episódio da mãe que afogou seus cinco filhos, seguidamente, um após o outro, na banheira cheia de água fria de sua rica vivenda, em adiantada cidade dos Estados Unidos, mostra flagrantemente até onde pode degenerar-se o gen de selvageria latente nos seres humanos, todos tidos ao mesmo tempo santos e pecadores, haja vista que, ocasionalmente, para salvar a si mesmos, não relutam a subtrair a vida de outros, isto a qualquer preço e sem medir as implicações imediatas ou remotas, exatamente como nesse condenável caso... O relato da mídia detalhando, minuciosamente, a ocorrência que chocou a opinião de quantos dela tomaram conhecimento, suscita a indelével sensação de que ela teria sido nada mais nada menos que uma emulação abusiva do filme “O médico e o monstroâ€, há tempos produzido, lá mesmo na superpotência do Norte, pois se trata de uma monstruosidade inaceitável, como todas as outras que ocorrem mundo afora, inclusive as retratadas no citado filme, sem que nem sempre cheguem à ciência das sociedades no seu todo. E se admira que, tão contraditório quanto o comentado crime, se parece o pronunciamento do advogado de defesa da mulher, alegando que ela sempre se revelara “uma mãe carinhosa e que uma mãe dessa natureza não afogaria seus filhos, a menos seja ela possuidora de insanidade mentalâ€, o que não poderia ser de forma alguma invocado, porque ao julgá-la o júri considerou que a senhora tinha plena consciência de seus atos quando cometeu a contravenção. Comprova-se, assim, a sua plena culpabilidade e, então, questiona-se: onde as razões de uma “mãe carinhosaâ€que, não possuindo a menor debilidade cerebral, conduzira os filhos para a sepultura, perpetrando neles o mais hediondo dos gestos, simplesmente para libertar-se deles?
É caso para se pensar profundamente, ainda que se queira tê-lo como um “crime comumâ€, quase vulgar, destes tempos de selvagerias de todos os tipos, aos quais se inserem até mesmo - que absurdo? - os que vêm sendo desumanamente cometidos, inclusive em “terras santasâ€, com um saldo de mortos e feridos que não cessa de crescer, cobrindo de crepe a já tristonha humanidade que superlota todo o universo. Magnífico seria se as imitações do gênero cessassem. É tempo para isso! É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado).