Cultura

Me perdoe alguns agravos

Leila Grassi
| Tempo de leitura: 2 min

Estamos em plena Quaresma, o período de 40 dias que antecedem a Páscoa. Época de reflexão, de repensar os atos cometidos, de renovação, de resoluções, semelhante ao que Cristo fez em seu retiro no deserto.

Nessa época, encontramos um conjunto significativo de elementos da cultura popular baseadas ou não nos textos sagrados que povoam o dia-a-dia das pessoas. É tempo de jejum, de preparação para a Santa Semana onde, a partir de Domingo de Ramos, quando vamos à igreja para benzer as palmas, seguimos um ritual.

As palmas bentas são queimadas por ocasião de tempestades, são plantadas para aumentar a colheita, são usadas para curar qualquer doença, afastam os maus espíritos.

A segunda e terça-feira da Semana Santa é destinada à Via Sacra, onde se percorre, às vezes mentalmente, as 14 estações que representam a Paixão de Jesus. A quarta são as Trevas, quando Jesus foi vendido por 30 moedas de prata por Judas. Os templos ficam às escuras e somente o altar do Sacramento é iluminado.

À medida que findavam os salmos, cada uma das 15 velas do candeeiro iam sendo apagadas até ficar somente uma vela acesa, a do centro. Esse candeeiro é escondido atrás do altar-mor só reaparecendo na quinta-feira ao som ensurdecedor das matracas anunciando o Lava-pés.

E chega a sexta-feira da Paixão, a igreja mantém suas portas cerradas, reina a tristeza, as pessoas não comem carne, não cantam, não ouvem rádio... Jesus está morto! Nessa noite era comum acontecerem pequenos furtos de galinha, algumas malvadezas pois o Senhor não podia ver. Depois da procissão do enterro, beija-se o Senhor Morto e troca-se uma moeda ou nota por outra do caixão para dar sorte.

Sábado as aleluias (pequenas libélulas) avisam que Jesus ressuscitou, só quem tem fé consegue vê-las!!! E vamos malhar o Judas! Bater, queimar, enforcar, estourar com bombinhas e ler o seu testamento que começa assim: “Apóstolo fui até agora, que serei logo enforcado. Vejam bem toda gente, pois já estou dependurado... Eu sou Judas Escarlate, o mais infeliz dos judeus, Não pode ter outra sorte, um traidor perante Deus...”

E chega o Domingo de Páscoa, o dia da ressurreição, há a troca de ovos. De galinha com as cascas pintadas, de chocolate, grandes ou pequenos, simbolizam uma nova vida. As famílias se reúnem para o almoço. Os “coelhos” escondem os ovos e a criançada vai procurar, tem bacalhau ou peixe, tem música e alegria.

“Me perdoe alguns agravos”, que nesse Domingo eu nascerei melhor!

(*) A autora é professora de cultura brasileira e colaboradora do Ju Machado-Escritório de Arte.

Comentários

Comentários