Já quase não se notam morcegos sobrevoando casas e arvoredos nas cidades em geral, o que também se constata em ambientes das zonas rurais perdidas por aí. É muito raro eles se mostrarem agora, não porque sejam medrosos ou retraídos, mas, unicamente, pela mágoa de estarem em extinção depois de existirem ostensivamente sobre a Terra por mais de 55 milhões de anos. E assim o estão agora porque somente após decorrido tanto tempo entenderam os homens que a espécie constitui uma encarnação do mal e a vêm caçando implacavelmente, ainda que desobedecendo campanha que um pouco conhecido organismo, intitulado Conservação Internacional de Morcegos, ora nascendo em muitos países com o objetivo específico de defender esses chamados “seres da noiteâ€, está desenvolvendo tendo em vista mudar a imagem milenar desses pássaros na aparência meio-aves e meio-ratos. Busca a entidade reverter a mentalidade humana no caso, provando por “a†mais “b†que, não obstante horrorosos, tais voadores são fundamentais para o equilíbrio da biologia universal, pois que, das mil espécies existentes no Planeta, unicamente três se alimentam exclusivamente de sangue humano ou animal, sendo, portanto, vampiros autênticos. Os demais, como que desengonçados beija-flores, sobrevivem cutucando o interior das rosas à busca de nectar, beliscando açucarados bagos de frutas ou, ainda, exterminando insetos. Cada tipo tem uma predileção, pois os frugívoros ajudam a espalhar sementes, os nectarívoros a polinizar plantas e os insetívoros a combater pragas, mediante o que colaboram para a regeneração e diversificação das florestas tropicais, conforme atesta o biólogo Ivan Sazima, da Unicamp, acrescentando ao rol mais uma espécie, a de morcegos carnívoros, especializados em comer escorpiões, dos quais subtraem inicialmente a cauda para só em seguida engolir o corpo da vítima... Sabiam disso tudo os leitores sobre a personalidade e as atividades dos tais? A maior parte não sabia. Percebe-se, então, a tremenda injustiça que se faz a esses mamíferos alados, investindo contra sua presença no mundo não só em pensamentos como em palavras e obras, através de diversificados instrumentos debelativos. Falham os cientistas não divulgando suficientemente a importância dessa espécie para o equilíbrio ecológico, pois ela faz jus a ser mais conhecida, valorizada e conseqüentemente preservada ao máximo, não como o mal que se lhe prega, mas como algo que faz bem à humanidade. Os morcegos não são bonitos, convenha-se, mas beleza não vai à mesa, como se diz das coisas feias! Então, que logicamente não sejam eles acolhidos às mesas e às gaiolas, mas que não continuem a ser extintos necessariamente, já que utilidade possuem, não há como negar. E a possuem mais que os vândalos que “voam†sobre transeuntes e edifícios nas cidades sem que sejam suficientemente barrados por quem de direito. É a nossa opinião.
(*) O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.