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Sobram 14 mil telefones em Bauru

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Há alguns anos, ter uma linha telefônica exigia um enorme investimento e, acima de tudo, uma boa dose de paciência. Dependendo da localidade, o interessado chegava a desembolsar até R$ 5 mil para ter acesso a um telefone particular, além de esperar meses pela instalação. Hoje sobram mais de 14 mil linhas só em Bauru.

Isso aconteceu por causa da privatização do setor em São Paulo, iniciada em 1998. Atualmente, além de esperar menos para ter um número na residência ou no comércio, sobram linhas telefônicas e os preços para adquiri-las despencaram. Hoje já é possível ter uma por pouco mais de R$ 70,00. O consumidor não é o dono da linha, mas um usuário dela.

Em Bauru, segundo a Telefonica, cerca de 11% das linhas estão ociosas nas centrais espalhadas na cidade. Na planta municipal de telefones, há 130.905 terminais instalados, dos quais apenas 116.557 - cerca de 89% - estão em serviço. Tamanha oferta faz com que a empresa, uma das que operam no setor em São Paulo, chegue a oferecer novos números aos seus próprios clientes.

Entretanto, apesar do acesso ao telefone ter sido mais democratizado, faz parte da mesma realidade uma inadimplência jamais vista na atividade. A assessoria de imprensa da Telefonica, aponta, em um número extra-oficial, que a inadimplência atinge cerca de 3% do seu faturamento no Estado - índice que vem se mantendo constante nos últimos anos.

Muitas pessoas, deslumbradas com a oportunidade de estarem “conectadas com o mundo”, acabam solicitando uma linha telefônica sem se dar conta de que vão ter de pagar caro por ela. Além da taxa de assinatura, que custa quase R$ 30,00, o custo dos pulsos não é barato, o que faz, mesmo quando o uso não é intenso, disparar o valor das contas.

É o caso do universitário bauruense Alessandro Martins, 26 anos. Morando há cerca de um ano em uma república com mais dois amigos, Pedro e Fernando, ele conta que todos sempre tiveram problemas para pagar as contas em razão do fluxo de ligações executadas mensalmente. O fato já fez com que o telefone fosse cortado várias vezes. “A circulação de pessoas na casa, além dos moradores, é intensa e, por isso, a utilização do telefone acaba ultrapassando e indo muito além das nossas reais necessidades. Isso gera uma perda de controle dos pulsos e dos interurbanos, cujos valores não baratearam tanto quanto se diz por aí”, afirma ele.

Segundo Alessandro, os gastos com telefone na república superam os valores individuais pagos na divisão igualitária do aluguel. Ele ressalta que, em média, mensalmente a conta atinge mais de R$ 150,00. “Além disso, na hora de quitá-la não há como discriminar quem usou e, por quanto tempo, os pulsos”, diz.

O universitário destaca também que o celular deve merecer atenção redobrada dos proprietários de linhas fixas. “Seja nas chamadas locais ou interurbanas, a telefonia celular está caríssima”, considera ele.

O estudante reclama, ainda, do fato das operadoras embutirem nas contas a prestação de serviços sem prévia autorização dos usuários. “Alguns são colocados e nem sabemos que estamos pagando. Para eu tirar o serviço de caixa postal, que nunca usei, tive de fazer três telefonemas. No primeiro, explicando o problema, desligaram na minha cara. No segundo, a ligação caiu e somente na terceira, mediante muita insistência, eles cancelaram.”

Custos exorbitantes

A autônoma bauruense C., que preferiu não se identificar, também sofre para quitar as contas telefônicas e, por várias vezes, já teve o telefone cortado. Mas ela argumenta que depende dele para trabalhar e, por não ter renda fixa, não há como saber se terá dinheiro mensalmente para pagar as despesas telefônicas. “Como ele (telefone) é uma necessidade profissional, tive de quitar durante essa semana as últimas três que estavam atrasadas, totalizando cerca de R$ 1.100,00”, ressalta ela.

C. considera que colabora para o crescimento da inadimplência o fato de muitos subestimarem os custos que um telefone pode representar no orçamento doméstico. “O telefone, para ele ser instalado em uma residência, é um serviço rápido e barato, só que depois os custos com os pulsos e as ligações interurbanas e para celular são exorbitantes”, considera a autônoma.

Número de linhas cresceu

Bauru é um município que pode ser considerado bem servido no setor de telefonia, superando as médias do Estado em relação às linhas fixas. Segundo a Telefonica, de 1998 até agora, a planta do sistema da cidade cresceu 76%, saltando de 66.201 telefones para 116.557.

O crescimento maior, ocorrido após a desestatização do serviço, deu-se nas classes C e D, faixa em que a renda mensal varia entre um e cinco salários mínimos. Isso colaborou para que a densidade telefônica bauruense (número de telefones para cada 100 habitantes) alcançasse o índice de 36,4 linhas, mais do que a do próprio Estado, que chega a proporção de 31,7 linhas.

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