Cultura

Que bom! Ninguém é feliz plenamente

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Para um monge amigo meu, a beira de um rio é o lugar perfeito para suas orações, pois ali ele tem constantemente diante de seus olhos a água corrente. As águas de um rio são, para ele, comparáveis a um homem bom.

Por onde elas passam há grande generosidade. Em todos os lugares onde as águas fluem surge vida. Esta mesma analogia sempre me chamou a atenção nas obras do cineasta Ingmar Bergman.

Em seu belíssimo filme “Sétimo Selo” (1956), Bergman conta a história de um cavaleiro do século 14 que disputa uma partida de xadrez com a morte enquanto viaja por um país devastado pela peste.

Em “Fanny e Alexander” (1982) acompanhamos o drama cotidiano de uma grande família na perspectiva de duas crianças. Nas duas produções, a água está presente como um expressivo símbolo de transformação, de mudança do cotidiano, de surgimento de vida nova.

Seja através de uma estranha partida de xadrez à beira-mar ou das águas correntes de um pequeno riacho, Bergman procura expressar que na vida não existe estagnação. Ela flui constantemente em uma dialética entre obstáculos e superações, frustrações e esperanças, insatisfações e alegrias.

“Meus personagens riem, choram, lamentam-se, sentem medo, falam, respondem, perguntam - perguntam sem parar”, afirmou, certa vez, Bergman.

Para Sócrates, felicidade é sinônimo de sabedoria. Esta, porém, não se constitui em um simples acumulo de conhecimento, mas sim na compreensão e na vivência da dinâmica da própria vida, ou seja, no questionamento da ordem atual das coisas com o objetivo de alcançar algo melhor. O caminho da felicidade começa com a vivência da dúvida como método, como estilo de vida.

Para Sócrates, o ser humano não nasceu para a acomodação, mas sim para o constante questionamento sobre si e sua vida: estou realmente satisfeito com o mundo no qual vivo?

Meu estilo de vida corresponde aos meus sonhos? Foi para isso que surgi na existência? O questionamento deve provocar uma avaliação de meu mundo e a saudável constatação deste. Neste encontro profundo com a ordem atual das coisas, deve acontecer a constatação de minha infelicidade.

Em outras palavras, o questionamento deve nos levar a uma crise. Apesar da dor, do sofrimento e angústia que ela nos traz, a crise deve ser compreendida aqui como um fenômeno benéfico.

Ela nos faz crescer, amadurecer, nos torna mais realistas e também mais humanos. Quem nunca viveu uma crise também nunca perdeu a infantilidade.

A crise, porém, não existe pela crise. Se não a vivemos como transitória ficamos incapazes de alcançar seus verdadeiros objetivos e caímos em uma espécie de masoquismo. Como a alienação, a “crise endêmica” tornou-se, infelizmente, uma patologia muito comum.

Existem pessoas que sentem prazer em incorporar o papel de vitima, de doente e de sofredor. A “crise endêmica”, porém, é muito mais uma expressão de carência afetiva, do que a conseqüência da confrontação com a realidade e uma importante chance de transformação.

Aliás, quem vive em uma “crise endêmica” não deseja o fim de seus atuais problemas. É na verdadeira crise, na constatação crítica de nossa infelicidade, que alcançamos a disposição necessária para a busca do novo: O que deve ser bom para mim? O que devo fazer para ser mais feliz? Qual o caminho de minha verdadeira realização pessoal?

A crise deve nos fazer buscar a harmonia não mais encontrada na ordem atual das coisas. Somente através da infelicidade podemos nos movimentar em buscar da felicidade. Neste sentido, a felicidade está dependente da infelicidade, da insatisfação e do descontentamento.

A falta de comodidade diante da vida nos coloca em movimento para uma reestruturação de nosso mundo. Esta dialética entre infelicidade e felicidade, satisfação e descontentamento, é semelhante às águas correntes de um rio, ou seja, um constante fluir que gera vida.

Para entender esta dinâmica de nossa existência é necessário compreender a idéia de “felicidade plena” como utopia. A felicidade em plenitude é, em nosso universo, algo impossível de ser vivenciado.

Porém, a felicidade plena é fundamental para a nossa existência como ideal a ser almejado. Ao buscá-la podemos nos libertar de nossos atuais sofrimentos, podemos viver com mais intensidade momentos felizes e estar sempre construindo uma vida nova.

Somente tendo a felicidade como horizonte e o descontentamento como realidade, podemos encontrar o sentido da natureza humana: o prazer de gerar vida. “O homem é, acima de tudo, aquele que cria” (Antoine de Saint-Exupéry).

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

(*) Especial para o JC Cultura

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