Ele encara as qualidades de ser crítico e muito exigente consigo mesmo como defeitos. Pode ser que o cidadão Lucius de Mello, que nasceu em Bariri, viveu anos no Paraná e adotou Bauru como sua cidade, acredite nisso. Mas o repórter de 38 anos de idade e 16 de carreira deve ter a certeza de que sua criticidade e perseverança o levaram a ser o primeiro jornalista do Brasil credenciado pela Nasa para reportar o treinamento do astronauta bauruense Marcos Pontes, em Houston, nos Estados Unidos.
Formado jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, Lucius trabalhou 14 anos como repórter especial da Rede Globo, em Bauru e há menos de um mês integra a equipe de Hermano Henning no SBT Notícias, em São Paulo.
A realidade, muitas vezes cruel, já lhe rendeu disputar por duas ocasiões o Oscar do jornalismo: o prêmio “Líbero Badaróâ€. Ainda não faturou nenhum. Seu concorrente direto, o jornalista Roberto Cabrini, teve a dupla sorte de “estar no lugar certo, na hora certaâ€. Teve um furo em suas mãos por dois anos consecutivos. Cabrini foi quem localizou dois foragidos da justiça brasileira no Exterior: o tesoureiro do ex-presidente Collor, Paulo César Farias, o PCC; e a fraudadora do INSS, Jorgina Freitas.
Mas como um pisciano típico, Lucius é sonhador por natureza. “Sonho viver sempre, o quanto mais, melhorâ€, confessa o apaixonado pela informação e pelo universo literário.
Escrever um romance em Paris está no topo dos seus sonhos de leitor voraz. Mas Lucius já se diz feliz como escritor. Em 96 lançou o livro de contos “Um violino para os gatosâ€, inaugurando o Teatro Municipal. O jornalista fez sua noite de autógrafos à luz de velas no tão sonhado espaço cultural ainda em obras.
No início do ano, finalizou um trabalho de pesquisa que demorou quase dez anos: baseado em fatos reais, romanceou a vida da dona de bordel mais famosa do Brasil: Eny Cesarino, uma das pessoas que fizeram a história de Bauru.
O livro de quase mil páginas está nas mãos de uma das maiores editoras do País, que fará o lançamento em agosto, quando a morte de Eny completará 15 anos, no dia 24 - mesma data em que morreu o presidente Getúlio Vargas. O título provisório do livro é “Eny: a grande dama de bordelâ€. O prefácio será assinado por Fernando Morais, autor de “Chatô: o Rei do Brasilâ€. Possivelmente, o dramaturgo bauruense Mauro Rasi seja o responsável pelas orelhas ou pela contra-capa do romance.
Um pouco por telefone, um pouco por e-mail, o jornalista e escritor Lucius de Mello conversou com o Jornal da Cidade e falou de seus novos projetos.
Jornal da Cidade - A Eny é um mito. Muitos famosos conheceram Bauru por causa de seu lendário bordel. E mesmo com toda essa fama, a sua história se perdeu no tempo. Por que resgatá-la num livro? Além do ineditismo do projeto, existe algo diferente, pessoal? Lucius de Mello - Eny já estava morta quando cheguei a Bauru. Infelizmente não pude conhecê-la pessoalmente. Foram os próprios moradores da cidade que me estimularam a escrever sobre ela. Ouvindo uma história aqui, outra ali, as pessoas pareciam que pediam, mesmo sem pedir, que alguém escrevesse a história de Eny. Mas o que me fez investir dez anos da minha vida neste projeto foi porque eu sempre achei que Eny era uma das grandes reportagens que Bauru tinha para oferecer a um repórter, assim como o nosso ilustre Marcos Pontes, o astronauta.
JC - O livro é uma obra de ficção baseada em fatos reais. Qual foi o momento mais difícil da pesquisa. Qual a descoberta mais marcante? Em algum momento você se sentiu tentado a revelar algo na íntegra? Lucius – Sim, em vários momentos. Alguns fatos eu revelei na íntegra com autorização das pessoas envolvidas. Outros, troquei os nomes, só escrevi as iniciais. Não quero omitir informações, mas também não quero expor a intimidade das pessoas. Encontrei um caminho para contar as histórias elegantemente. Antes de tudo, em respeito a memória de Eny, busquei a discrição, que ela tanto valorizava e que foi a chave para o sucesso dos negócios dela. O livro é uma biografia romanceada.
JC - O livro vai ser lançado pela Objetiva, mas teve convite de outras editoras. Qual o fator determinante dessa decisão? Lucius - A Objetiva tem realizado um excelente trabalho no mercado editorial brasileiro. É a editora de grandes autores como Luis Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, Paulo Coelho, Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Stephen King e Gao Xingjian, que foi o prêmio Nobel de literatura de 2000.
JC - E o seu livro de contos “Um Violino para os Gatosâ€? O primogênito é sempre especial. Você pensa em reeditá-lo? Lucius - Quero reeditá-lo sim. Mas primeiro vou esperar o lançamento do livro sobre a Eny.
JC - Até agora suas obras literárias são de um Lucius escritor? Você pensa em lançar um livro reportagem como Lucius jornalista? Ou já encaminha outros projetos de muitas páginas. Lucius - Não gosto de separar as coisas apesar de serem diferentes. Fui repórter o tempo todo durante as pesquisas sobre a Eny. A literatura sempre dá um charme a mais no texto jornalístico. O jornalista que não lê os grandes nomes da literatura clássica ou contemporânea nunca vai ser um bom jornalista, porque nunca vai ter um texto inteligente e brilhante.
JC - Existem rumores de que você assumiria a Academia Bauruense de Letras. É verdade? Você aceitaria? Lucius – Sim, é verdade. Mas aceitaria com o maior orgulho. Em fevereiro, a professora Isolina Bresolin Vianna me telefonou dizendo que iria lançar o meu nome como candidato a uma cadeira na academia. Fiquei muito feliz pela lembrança e em ter a Isolina como madrinha. Aceitei ser candidato. Estou aguardando o resultado da votação. Se for eleito, ficarei muito orgulhoso. Pena que agora, morando em São Paulo, poderei participar pouco das atividades acadêmicas. Mas me esforçarei para estar atuante nos eventos literários da cidade, que eu adotei como minha cidade do coração.
JC - Qual o peso de ter duas finais de Líbero Badaró no currículo? Lucius - Foi muito importante para a minha carreira. As duas finais foram emocionantes. A primeira vez que fui para a final foi com a reportagem “A viagem dos bóias-friasâ€, uma denúncia sobre a chegada do crack nas lavouras de cana. Com base em informações do então diretor do Centro de Toxicologia da Unesp de Botucatu, Igor Vassilief, nós mostramos que bóias-frias e seus filhos estavam perdendo a vida para o crack. Usavam a droga durante o serviço nas lavouras. Encontramos traficantes atuando nos canaviais. Na segunda vez, foi com a reportagem sobre o uso indiscriminado de agrotóxicos nas lavouras de tomates do Vale do Ribeira, região mais pobre do estado de São Paulo. Nossa reportagem mostrou trabalhadores rurais sem qualquer equipamento de segurança mexendo nos venenos. Mostramos as vítimas do agrotóxico: lavradores doentes, crianças deficientes... Os médicos do hospital de Apiaí, na época, foram nossa fonte de informação. Eles nos passaram o número de pessoas que morreram vítimas dos venenos agrícolas usados nas plantações de tomates do Vale. Esses dois trabalhos jornalísticos foram exibidos como série de reportagens no Jornal Nacional, respectivamente em 97 e 98. Espero que consiga chegar lá mais vezes.
JC - Um dia você me disse que sonhava em fazer uma matéria sobre espaço. Pouco tempo depois Bauru ganhava um astronauta e você a honra de ser o primeiro repórter estrangeiro a conquistar a Nasa. Como você se sente? Lucius - Foi a reportagem mais importante da minha vida até agora. Agradeço a TV Modelo por isso. E aos meus amigos Carlos Torrente, que tanto me ajudou em Houston na produção e execução da reportagem e a Márcia Duran, que muito me ajudou na edição do material produzido na Nasa. Venci barreiras geográficas, diplomáticas, venci os meus próprios limites. Ousei atuar num território, até então desconhecido e que não pertencia a minha área de cobertura. Tinha tudo para ter recebido um não da Rede Globo. Afinal, lá pertinho estava a repórter Ana Paula Padrão. Não haveria a necessidade de ter despesas enviando outro repórter até os Estados Unidos. Mas como fui eu quem conseguiu a autorização da Nasa, acabei ganhando a parada. E que parada!!! Eu sabia que não era impossível, fui lá e fiz. Acho que esta matéria vem comprovar a máxima da globalização: no mundo da era da Internet, não importa mais onde você está e sim o que você faz. Eu consegui entrar na Nasa, em Houston, negociando com a diretora de comunicação da agência espacial americana do computador instalado no meu antigo quarto no jardim Estoril, em Bauru.
JC - Quando você estudava em Curitiba fazia teatro. Você pensa em voltar aos palcos ou fazer algo semelhante? Ou isso foi apenas um elemento que hoje lhe dá segurança para a tevê? Lucius - Teatro agora só se for como autor. Escrever para teatro é uma aventura que eu ainda quero fazer.
JC - Existe uma matéria que você sonha fazer? Lucius - Se é para sonhar vamos lá. Gostaria muito de fazer uma reportagem na lua, ou na estação espacial, gostaria de mostrar à humanidade a imagem do planeta terra mais privilegiada, a imagem vista por Deus.
JC - Você acredita que a notícia está acima de qualquer coisa? Lucius - Acima de qualquer coisa , só o amor. Em todos os sentidos.