Pesca & Lazer

História de pescador: Caça e pesca com catira


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Nas férias do meu pai que era ferroviário da NOB, aqui em Bauru, quando a estação ainda era de madeira, fomos passear na fazenda onde o meu avô Honório de Carvalho era o administrador. Viajamos de trem até Pirajuí e de lá até Pradínia, que se chamava Uru de Baixo (ou de Cima), em uma jardineira que continha apenas 12 bancos. Na viagem, ficamos todos molhados, inclusive o motorista, porque a jardineira era inteirinha aberta e no caminho choveu muito.

No domingo o meu avô nos convidou para uma pescaria no rio Tietê, entre as cidades de Borborema e Itaju, e sem nenhuma ponte de ligação para as cidades. A viagem da fazenda até o rio foi feita a cavalo: eu, meu avô, meu pai, minha avó e minha mãe. Chegando no local, margem esquerda do rio, o meu avô retirou toda a tralha e os arreios dos cinco cavalos colocando tudo num galpão ali existente.

O meu avô disse a nós todos, que teríamos de atravessar de canoa para o outro lado, porque era lá que havia correnteza forte para fisgar dourados e poços profundos para pescar pintados e jaús. Para ele só peixes grandes deixava-o entusiasmado e rindo à toa. Os meus pais e minha avó recusaram o convite por falta de segurança da pequena canoa e também porque era desprovida de motor. De onde estávamos, dava para ver a outra margem do rio, inclusive o casarão de madeira, que por sinal estava repleto de pessoas. O meu avô atravessou o rio sozinho para ir pescar do outro lado, deixando-nos no local que chegamos.

A minha avó, que era caçadora, pegou a sua cartucheira e foi para a palhada e já começou a dar uns tiros. O meu pai determinou que a minha tarefa era a de alimentar e dar água aos cavalos. A minha mãe começou a ajeitar o almoço e meu pai foi pescar uns lambaris para a fritada.

Num determinado momento apareceu numa canoa o Sr. José Facchim e seu filho José Carlos Facchim dizendo que viu o Honório lá no casarão bebendo umas pingas com capilé. Juntamente com os catireiros, dançava e pulava catira dizendo a todos os presentes que numa barranca de rio ele bate as mãos e bate os pés de alegria! A minha avó apareceu com uns nhambus no embornal que havia caçado na palhada para servir de mistura junto com os peixes no almoço.

Como o Honório não aparecia para almoçar, o meu pai disse que o canoeiro havia dito que ele estava dançando catira lá no casarão. A minha avó mandou servir o almoço dizendo que o Honório quando entra numa catira se esquece até da família. Após o almoço, minha avó voltou para a caçada, meu pai deitou-se numa rede, minha mãe foi cuidar da limpeza da cozinha e eu fui catar milho na palhada para dar aos cavalos.

Nesse momento apareceu o meu amigo José Carlos Facchim e me ajudou a levar os cinco cavalos para beber água no rio Jacaré Pepira, afluente do rio Tietê e de água cristalina e límpida. O meu amigo me alertou que naquele rio existiam muitas piranhas e traíras e que o pai dele José Facchim, mesmo a cavalo, ao dar água ao animal enchia embornais de peixes. Logo em seguida ficamos espantados de ver os cavalos enfiar a boca no rio, erguer a cabeça rapidamente e, virando bruscamente para os lados, atiravam na areia traíras e piranhas que estavam grudadas nos beiços deles. Em pouco tempo já catamos umas 30 traíras, 50 piranhas e inclusive uma piracanjuba pesando 7 Kg!

O meu avô retornou à tarde, dizendo que não havia pescado nenhum peixe devido ao forte vento e também que a lua era desfavorável à pesca naquele dia. A minha avó apareceu trazendo arrastado um porco cateto e uma capivara que ela havia abatido. Eu apresentei os meus peixes sem contudo dar uma explicação da maneira como foram capturados por mim e pelo amigo, mesmo porque eles não iriam acreditar. A piracanjuba foi pescada pelo amigo José Carlos Facchim, tendo ele amarrado no freio de boca de um dos cavalos uma linha comprida e no anzol ele colocou uma barata viva que começou a andar na superfície da água até que o peixe abocanhasse a isca. Tão logo a barata afundou, rapidamente o amigo deu uma forte puxada nas rédeas conseguindo fisgar a piracanjuba. O cavalo mesmo machucado na boca ficou rindo à toa!

Na ocasião da pesca, se pudéssemos contar com o pintado chamado de “Netuno” e citado na história de pescador do JC edição de 28/3/02 por Fernando Lucilha Júnior, com certeza todos nós da família seríamos rebocados pelo peixão, tantas vezes fossem necessárias e até participarmos da gostosa dança de catira juntamente com o meu avô.

Dorival Nogueira é pescador e contador de histórias

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