Osvaldo Soares Arevalo, o “Poeta Spanholâ€, tem 51 anos, dois filhos, três netos, construiu uma casa, plantou várias árvores e escreveu um livro. Até aí nada demais, o detalhe é que este livro, que será lançado hoje, às 10h, na Penitenciária 2, em Bauru, foi escrito por um homem que está preso há 22 anos.
“Paredes que Choramâ€, livro de estréia do autor, é um apanhado de reflexões, poesias e pequenos relatos. Mais que instigar a curiosidade dos leitores para a vida na prisão, o trabalho mostra o potencial da literatura como instrumento de socialização.
Ontem, na P2, a reportagem do JC Cultura encontrou Arevalo. Descendente de espanhóis, a primeira impressão do poeta é de uma rigidez quase militar. Em alguns minutos, no entanto, percebe-se que, no fundo, trata-se de uma pessoa que não se furta ao direito de sonhar. E de ser livre.
JC Cultura - Como que você começou a pensar em escrever um livro? Arevalo - Eu comecei a escrever em 1987. O que me chamou muita atenção foi que um dia eu estava no andar da psiquiatria da Casa de Detenção e um doente, um louco, pediu o meu isqueiro emprestado. E eu disse para ele “usa rápido como se roubaâ€. Depois que ele usou, ele me disse “como se pensa é mais rápidoâ€.
A partir daquele momento, eu busquei prestar mais atenção no dia-a-dia, nos momentâneos.
JC - Muitos escritores se refugiam do mundo para trabalhar. De certa maneira, aqui vocês vivem desta forma... Arevalo - Isso é uma necessidade. Inclusive fazer uma viagem para buscar o invisível, é lógico não fugindo do materialismo.
Buscar, no caso, as visões que ficaram no passado das coisas boas.
Na época que eu cheguei na Penitenciária, os detentos ficavam sozinhos. Mas hoje existe um respeito por quem, por exemplo, está estudando na cela.
JC - Por ter um certo nível intelectual, você sente dificuldade em conversar com as pessoas aqui? Arevalo - Eu vou explicar. Eu não sinto essa dificuldade porque eu sei como se aproximar de um companheiro que não sabe o abecedário. Então, eu vou procurar conversar na mesma linguagem. Mas sempre buscando que ele observe que a forma que eu me expresso é coerente.
Eles acham interessante essa minha parte de sempre querer ensinar as coisas boas da vida. Embora estando na Penitenciária, há uma necessidade disso.
O homem que está no cárcere há muito tempo, se ele não se apegar a isso, se torna um animal.
JC - Na sua opinião, que lição este livro pode levar para as pessoas que estão lá fora? Arevalo - Tem uma parte que eu alerto os jovens para que ele não parta para a delinqüência. O cárcere não é o que eles pensam, é muito sofrido, embora, ele muito nos ensine. Pena que poucos aprendam.
JC - E qual é o maior aprendizado? Arevalo - O respeito ao próximo.
JC - No “Estação Carandiruâ€, o Dráuzio Varella relata uma crueldade impressionante entre os presos... Arevalo - Sim. Eu vi coisas dentro do cárcere que se eu te contasse aqui, você jamais iria acreditar. Mas isso não me abalou tanto, porque eu não dou tanto valor para a matéria e sim ao invisível. Eu vivencio o invisível há 22 anos e é isso que me purifica, que me dá força.
Serviço
“Paredes que Choramâ€. Lançamento hoje, às 10h, na P2. O livro pode ser encontrado por R$ 18,00 na livraria Jalovi, Centro e Altos da Cidade. Informações: (14) 224-3600.
Segredo
E, de repente, Novamente O resumo de tudo é uma chave Talvez? Um acessório de uma parte porta Que não se abre... E me vejo com o meu “interior†desabitado. No ar, um cheiro de pólvora No solo, um crucifixo indica Um habitat desigual. E o mundo gira... Portões emperram, Nossa! Parece estar havendo uma guerra! Tão distante escuto o som da chave ribombar. São escudos São coturnos, São os “turvosâ€... Aonde vou parar? Tormentos, gritos, Silvos... apitos... Torpedeando marcham. A nudez desatada em mudez Todos têm a sua vez. E a dívida do passado Cobrada pela chave, talvez? Medo! Revelas o que sei de “mim†Que sentido tem a volta? Gira? Gira, assim! Crepúsculo de um dia de domingo Em que tantas são as tardes... Observando “sentinelas†De gravatas cidadãos Nas muralhas da prisão. Serralheiro; Revelas tal segredo? Abre alas fechaduras Com os meus dedos. Dissolve esse “eternamente†São...to...mais Porque tenho medo Demais.
Pelo buracos das fechaduras, Viveiros!
Fonte: Livro “Paredes que Choramâ€