Análises da Agência Nacional do Petróleo (ANP) feitas em postos espalhados pelo País chegaram a conclusões alarmantes a respeito da qualidade dos combustíveis comercializados atualmente no Brasil. Apesar de ter registrado uma tendência de melhora ao longo de 2001, o órgão verificou que, nos últimos meses, houve um crescimento de cerca de 40% das fraudes na gasolina, conhecidas popularmente como “batismoâ€.
A ANP também constatou um índice expressivo de não-conformidades no álcool e vários problemas no óleo diesel, como seu aspecto, cor e teor de enxofre. Segundo a Agência, cerca de 40% das adulterações encontradas na gasolina referem-se à adição de álcool fora dos limites especificados - o máximo atualmente é de 24% -, mas em valores que não afetam sobremaneira a qualidade do combustível.
Já o álcool apresenta um índice ainda maior de adulteração. O órgão verificou que em mais de 50% das ocorrências os teores alcoólicos encontravam-se fora da especificação devido, provavelmente, à mistura de água ao combustível.
As pesquisas apontaram ainda que, tomando como base a gasolina, os mercados que mais preocupam atualmente a ANP, tanto pelo seu porte quanto pelos índices de não-conformidade encontrados, são os de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Bahia, Pernambuco e Alagoas. Somente nos dois últimos meses no Estado, o índice de adulteração na gasolina cresceu quase 4%, saltando de 11,6% para 15,5%. Ainda em São Paulo, no mesmo período, as fraudes no álcool subiram de 20,9% para 24,3%.
O estudo da ANP integra o Programa de Monitoramento da Qualidade de Combustíveis do órgão, que foi iniciado no segundo semestre de 1999 em alguns Estados e, posteriormente, estendido a outros.
Prejuízos
Diante de tal cenário, o prejuízo é duplo para o motorista, principalmente no bolso. Além de ter de abastecer o veículo com mais freqüência, em razão do aumento do consumo que a gasolina ou o álcool de má qualidade provocam, o condutor acaba arcando com o conserto das avarias mecânicas que podem ser provocadas nos automóveis.
Djalma Francisco, um dos proprietários da JD Mecânica, ressalta que os danos provocados no veículo por um combustível batizado podem ser inúmeros. “Os sintomas mais visíveis é o que carro engasga e não desenvolve potência, além da marcha lenta ficar irregular. O automóvel também passa a apresentar dificuldades para pegar quando está frio e vários componentes do motor vão se desgastando com o tempoâ€, afirma ele.
O mecânico explica que, nos carros injetados, os bicos injetores e a bomba de combustível são os que mais sofrem. “Devido ao uso dos combustíveis adulterados por um determinado período, a bomba acaba queimandoâ€, diz Djalma. “No caso dos automóveis com carburadores, estes nem conseguem andar direito, pois ficam falhando constantementeâ€, completa.
Já Antonio Luiz Trefilho, professor do curso de mecânica automotiva do Senai/Bauru, enfatiza que os componentes são afetados de maneiras distintas pelos combustíveis “batizadosâ€. “Irá depender do que foi adicionado à gasolina, ao álcool ou ao diesel. Entretanto, o desempenho e o consumo sempre serão prejudicados, pois o carro irá gastar mais e desenvolver menos potência e o motorista, por mais leigo que seja, irá identificar o problemaâ€, frisa ele. Trefilho acrescenta que os “sintomas†de um combustível contaminado por substâncias inadequadas no automóvel são imediatos. “Ao ligar o carro, uma gasolina contaminada já começa a reagir no motor e influenciar em seu comportamento dinâmicoâ€, salienta o professor.
Ele aconselha, assim que for identificado um combustível adulterado, a retirá-lo imediatamente com uma mangueira ou misturá-lo com um de boa qualidade. “Caso o motorista tenha colocado pouca quantidade, cerca de 1/4 do tanque, ele deve adicionar mais 2/4 de um combustível aditivado para compensar aquele que estiver batizadoâ€, conclui Trefilho.
Postos de confiança
A maioria dos motoristas bauruenses entrevistados pelo JC afirma que nunca tiveram problemas em seus carros com combustíveis adulterados. Entretanto, é unânime a opinião de que a melhor forma de se precaver é abastecer sempre em um mesmo posto, geralmente aquele onde já se tenha segurança da qualidade da gasolina, álcool ou diesel.
O bauruense Rubens de França Nantes, taxista há mais de 20 anos, afirma que nunca enfrentou problemas com o combustível colocado no seu automóvel. Entretanto, o infortúnio de alguns motoristas locais com o combustível batizado acabou lhe rendendo lucros. “Já fui buscar vários clientes que ficaram na mão com seus veículos em razão de combustíveis de má qualidadeâ€, ressalta ele. Para tentar fugir do problema, Rubens é precavido. “Só abasteço em postos da minha extrema confiançaâ€, enfatiza ele.
A mesma sorte de não ter sido “vítima†de um combustível de má qualidade não teve o gerente bauruense Reginaldo Machado Farias. Ele revela que o caso ocorreu após parar para encher o tanque em um determinado posto. “O carro não pegava e só consegui fazê-lo rodar depois de muita insistência. Depois disso, ele acabou andando normalmente, mas serviu para demonstrar que o mais indicado a fazer é padronizar o abastecimento em apenas um posto, pois assim você terá como reclamar depoisâ€, frisa Reginaldo.
A mesma linha de raciocíno também segue o gerente José Carlos Silva, que diz nunca ter tido dor de cabeça com algum combustível adulterado. Entretanto, ele afirma ser precavido e desconfia, principalmente, dos preços muito baixos praticados no mercado. “O barato pode sair caro depois, pois o valor baixo da gasolina, do álcool ou do diesel pode esconder uma armadilha cruelâ€, argumenta ele.
O médico Samir Saab é outro que também diz ficar preocupado com o preço. “Nunca tive problemas com a gasolina do meu carro, mas desconfio dos preços muito abaixo da realidade do setor, pois milagre ninguém fazâ€, pondera ele. Apesar de não ter sofrido na pele os efeitos devastadores da contaminação dos combustíveis, Saab afirma que em uma oficina mecânica de um amigo seu o problema é comum. “Lá sempre vejo carros danificados por um combustível adulteradoâ€, diz o médico.