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Noroestino comanda reforma agrária

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 9 min

Um bauruense por opção familiar comanda, hoje, o Ministério do Desenvolvimento Agrário, um dos focos de tensão do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Após ser indicado pelo presidente para substituir o ministro Raul Jungmann, o advogado José Abrão, 57 anos, torcedor do Esporte Clube Noroeste, é quem detém a caneta que desapropria terras improdutivas e determina os assentamentos.

Nascido em Cabrália Paulista, filho do libanês Fahed e da mineira Alice, Abrão deixou a cidade com apenas um ano de idade. Depois de perder uma irmã por falta de cuidados médicos na pequena Cabrália, seu pai decidiu se estabelecer de vez em Bauru, em 1946.

Abrão fez de tudo na cidade. Foi entregador de leite, balconista do bar de propriedade de seu pai, comerciário, auxiliar de escritório e radialista, profissão onde descobriu sua vocação para a comunicação.

O hoje ministro trabalhou nas Rádios Auri Verde e Terra Branca e na antiga TV Bauru. E foi na sucursal bauruense do jornal Última Hora que ele conheceu a fúria do povo, em 1964, que aplaudiu a Revolução Militar e massacrou aqueles que eram contrários. A sucursal do jornal foi empastelada, depredada.

A seguir, a entrevista de Abrão, o ministro que foi sócio do apresentador Silvio Santos e ajudou a montar seu império de comunicação:

Jornal da Cidade - Qual é a relação do senhor com Bauru?

José Abrão - Nasci em Cabrália Paulista. Mas minha família mudou-se para Bauru em 1946, quanto eu tinha um ano de idade. Sou o sexto filho de um total de nove e o único que não mora em Bauru. Todos os meus irmãos residem aí. Meus pais decidiram sair de Cabrália depois que uma de minhas irmãs ficou doente e morreu a caminho de Bauru. Meu pai montou um bar e minha mãe uma loja de armarinhos na rua Antonio Alves. Estudei onde é hoje o Colégio São José. Morei na Vila Cardia e numa outra casa perto do Batalhão da Polícia Militar. Comecei a trabalhar logo cedo com meu pai, num bar de sua propriedade, que ficava na rua Cussy Jr.

JC - Quais são as suas lembranças da Bauru daquela época?

Abrão - Quando trabalhei com meu pai no bar eu entregava leite na Cadeia Pública, que fica onde é hoje a Delegacia de Polícia do Centro, a Câmara Municipal e a agência dos Correios. Depois, trabalhei numa loja de um amigo de meu pai. Logo em seguida, fui trabalhar no escritório Novo Mundo, do Chico Garcia e do Hélio, na esquina da Batista de Carvalho, em frente a Casas Pernambucanas. Na seqüência, trabalhei na Rádio Auri Verde. Era o ano de 1958. Fui carregador de maleta de reportagem, equipamento que equivale, hoje, ao tamanho de um microcomputador.

JC - Foi na Auri Verde que o senhor descobriu a vocação para a área de comunicação?

Abrão - Depois de carregar maleta, fui ser operador de som no estúdio. Mas, de vez em quando, o locutor faltava e eu comecei a falar no microfone. Nos últimos dois anos da Auri Verde, fui locutor de esporte, passei a redigir e coordenar a área de jornalismo. Decidi, então, participar da seleção que o jornal Última Hora fez para abrir sua sucursal em Bauru. Fui selecionado e trabalhei no jornal de 1962 a 1964. Naquele ano, estourou o movimento militar, o jornal foi depredado e fui trabalhar na Rádio Terra Branca e jornal Folha do Povo. Em 1967, prestei concurso no Banco do Brasil e, enquanto aguardava o resultado, fui trabalhar na TV Bauru.

JC - O senhor deixou Bauru em que ano?

Abrão - Quando chegou o resultado do Banco do Brasil eu escolhi São Paulo para trabalhar. Isso foi possível devido a minha classificação no concurso. Ao escolher São Paulo também consegui transferência para trabalhar na TV Globo de lá, onde tive a oportunidade de conviver com grandes nomes como Walter Clark, Luiz Guimarães, o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho), entre outros. Trabalhei com o Silvio Santos, que até então era apenas um apresentador concessionário de horário. Ele era empregado da Globo e comprava um horário de domingo. Juntamos, então, eu, o Silvio, Luciano Callegari e Mário Albino. Desenvolvemos um projeto e transformamos o programa em rede. Depois, montamos a rede com o Silvio. Fui, inclusive, sócio dele na primeira etapa de montagem do SBT. Trabalhei com o Silvio durante 14 anos.

JC - Depois dessa experiência em televisão, por quê o senhor deixou o segmento?

Abrão - Depois que deixei a Globo, tive uma passagem pela TV Bandeirantes. Nesse período, iniciei um processo de transição para me mudar para o Interior. Em 1984, me mudei para Itapetininga, onde achei que iria começar a escrever meus livros, ficar no sítio e lecionar na faculdade de lá. E consegui fazer isso durante algum tempo. Mas a vida é uma ebulição permanente. Em Itapetininga, comprei uma emissora de rádio. Comecei a ajudar as pessoas, a ajudar a Apae e a atuar em muitas coisas. Em 1987, fui convidado a participar de eleição e fugi como o diabo foge da cruz. Depois de cumprir projeto na TV Rio, onde fiquei dois anos, retornei para Itapetininga de novo. E quando cheguei já havia uma movimentação para me lançar candidato a deputado federal, em 1989. Disputei, fui eleito suplente pelo PSDB, mas assumi o mandato logo em seguida. Fui vice-líder de bancada e no último ano fui líder.

JC - O senhor foi deputado por um único mandato, que se expirou em 1993, mas mesmo assim continuou muito próximo do Palácio do Planalto.

Abrão - Em 1994, fui para o Palácio para trabalhar como assessor do presidente Fernando Henrique. Depois, trabalhei na área de comunicação do governo e ajudei na campanha da reeleição. Após o término da campanha, tentei, de novo, voltar para Itapetininga. Mas recebi o convite para ser secretário de Assuntos Federativos. Após exercer essa função, fui para a Secretaria-Executiva do Ministério do Desenvolvimento Agrário.

JC - O senhor assumiu, recentemente, o comando desse ministério, um barril de pólvora que tem o MST na esteira da cobrança da reforma agrária. É uma difícil missão?

Abrão - É uma missão importantíssima. É uma pasta que as pessoas dizem ser complicada, mas ao mesmo tempo ela é extremamente potencial. A história da reforma agrária pode ser contada rapidamente em 38 anos. Nos primeiros 30 anos, a reforma agrária no Brasil foi muito conturbada, onde o objetivo era exclusivamente buscar números, assentar famílias - 3 mil, 10 mil, 15 mil. Eram números fantásticos, tanto que, em 30 anos, os governos assentaram 218 mil famílias. O presidente Fernando Henrique havia estabelecido no seu plano de trabalho que iria fazer a reforma agrária da sustentabilidade, com paz, recuperando os assentamentos anteriores e fazendo novos, onde os agricultores pudessem ter apoio técnico e assistência, meios de produção adequados, finaciamentos, etc.

JC - O senhor acha que o MST contribuiu para a aceleração desse processo?

Abrão - No começo do governo do presidente Fernando Henrique, os movimentos sociais aceleraram as campanhas, as movimentações, e o governo acelerou de tal forma a reforma agrária que começou a assentar muitas famílias, 60 mil, 80 mil e, mais recentemente, 100 mil famílias por ano. O que fazemos agora é buscar essas famílias que estavam assentadas e zerar o déficit com relação a moradia. Não queremos que as famílias saiam de debaixo de uma ponte e vão para uma lona. Essa não é a solução. Isso seria um descarte de pessoas. Não é esse o propósito e nem é isso que está se fazendo. Mantemos o mesmo ritmo - cerca de 100 mil assentados por ano - mas com algumas mudanças.

JC - Quais são essas mudanças?

Abrão - Mais recentemente, só assentamos famílias em terras que efetivamente tenham condição de produzir. Só assentamos famílias que tenham alguma vocação para terra, que tenham possibilidade de produzir, comercializar e receber orientações técnicas. Primeiro, estamos identificando a terra. Se é uma terra que tem capacidade de produzir e é improdutiva, nós a desapropriamos pelo Incra. Se é uma terra que é produtiva mas o proprietário está querendo se desfazer dela, fazemos a compra através do Banco da Terra.

JC - Anteriormente, o MST fornecia uma lista com nomes dos interessados nos assentamentos. Por quê esse sistema foi alterado?

Abrão - Não aceitamos mais. O movimento pode ajudar, pode participar, pode reivindicar, mas agora nós abrimos um cadastro pelo Correios, há um ano, e já temos mais de 800 mil famílias inscritas. Vamos selecionar essas famílias para ver quais têm identidade com a terra. Acreditamos que vamos selecionar entre 300 mil e 350 mil famílias, assentando a média de 100 mil a 120 mil por ano. É imprescindível que nós terminemos este ano com todas as famílias assentadas em moradias.

JC - Ministro, a relação do governo com o MST tem sido muito tensa nos últimos meses. O episódio da ocupação da fazenda de familiares do presidente Fernando Henrique foi o auge desse confronto político.

Abrão - O Movimento dos Sem Terra teve três etapas. A primeira foram as grandes mobilizações, via de regra pacíficas, que tinham grande simpatia popular. E nesse sentido, para o governo, funcionava como um verdadeiro parceiro. Fazia, inclusive, uma espécie de extrapolação do que era sua função enquanto movimento social. Indicava áreas e o governo as desapropriava, fornecia a lista daqueles que deveriam ser assentados. Em seguida, o próprio governo passou a perceber que havia funções que eram do Estado. O governo, então, passou a selecionar as áreas, a selecionar os candidatos, a verificar se eles tinham vocação. Evidentemente, os movimentos passaram a perder muitos seguidores. Com isso, iniciou-se um processo de agressão ao governo e à sociedade. Passaram, então, a invadir propriedades, prédios públicos. E fazia isso para demonstrar a seus potenciais ‘clientes’ que tinham poder. Numa primeira etapa, o governo ainda manteve o princípio do diálogo. Posteriormente, o governo determinou que terra invadida não será utilizada para a reforma agrária. A invasão passou a ser assunto de polícia com cobrança dos prejuízos.

JC - O governo endureceu com o movimento. O que se pode esperar daqui para frente?

Abrão - Os movimentos passaram a agir politicamente. Passaram a invadir, quebrar prédios públicos. Invadiram a propriedade dos filhos do presidente para agredir a sua autoridade. Nesse sentido passaram a ferir a democracia e a sociedade passou a ter uma repulsa pelos movimentos.

JC - O senhor acha que o MST é um braço político do PT?

Abrão - Num determinado momento, o MST se colocou como braço político e o PT aceitou. Num segundo momento, o MST continuou querendo ser um braço político, mas o PT percebeu que a sociedade não estava mais aplaudindo as invasões. Recentemente, uma pesquisa apontou que 74% da população diz que a invasão deve ser recriminada em todos os sentidos. Ela é contra qualquer tipo de invasão. Todas as linhas políticas, da extrema direita até a extrema esquerda, passaram a condenar a invasão. Eu acredito que se o governo mantiver essa posição de dizer: ‘olha, a ordem será preservada, a democracia, vai permitir a livre manifestação, mas com respeito a lei’, acho que o movimento pode, aos poucos, vir a ter juízo e novamente se colocar como movimento social.

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