Cultura

Homo politicus

(*) Padre Beto
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No final dos anos 60 deveria ser construído em Munique, na Alemanha, o Centro Olímpico para ser a sede das Olimpíadas de 1972. A administração da cidade escolheu, então, uma área despovoada nos arredores de Munique.

Quando os engenheiros começaram a estudar o local detalhadamente, descobriram um morador inesperado: um ermitão que há muitos anos vivia na área.

O monge russo havia feito a opção de viver sozinho, em completo silêncio e em oração. Para a prefeitura a solução do caso seria simples: o ermitão deveria procurar outro lugar.

A notícia da presença do ermitão e de seu despejo, porém, espalhou-se por toda a cidade. Iniciou-se então uma discussão através dos jornais e diversas organizações sobre o monge e o Centro Olímpico.

A população acabou ficando do lado do ermitão e mobilizou-se para pressionar a administração da cidade a não retirá-lo do tão cobiçado lugar. A pressão foi tamanha que a prefeitura de Munique não teve outra alternativa: o Centro Olímpico foi construído no lugar planejado, mas uma área verde foi deixada intacta, a área na qual o ermitão vivia. Esta história, até hoje lembrada, possui dois aspectos que merecem atenção.

O primeiro, é o fato de um ermitão, uma pessoa que fez opção pelo silêncio, ter sido a causa de um barulho tão grande. Um homem sozinho e solitário acabou mobilizando uma cidade do tamanho de Campinas.

O segundo, é o fato de que o isolamento e a solidão parecem ser realmente impossíveis. Todos nós, seres humanos saudáveis, possuímos dentro de nossa alma primitiva um movimento que nos conduz para “fora”, um impulso natural de “personificação”.

Não é por menos que nós nos denominamos “pessoas”, termo que exprime este estado de ser aberto, de manter-se em expansão. A palavra pessoa tem sua origem na expressão “per-sonare”, o que significa “soar através de”.

Esta expressão era dada às máscaras que os atores de teatro, na Grécia antiga, usavam para que suas vozes fossem projetadas, já que na época não havia microfones.

Além disso as máscaras davam as feições dos personagens que os atores deveriam representar, que normalmente eram grandes personalidades. Tomás de Aquino tirou daí a idéia de utilizar a palavra “pessoa” para esclarecer melhor a nossa natureza humana.

Como os atores gregos utilizavam as “personas” para representar grandes personalidades, Tomás de Aquino achou por bem chamar de pessoa o ser que possuía o que ele denominava de dignidade especial (magna dignitas): a potência da razão, do pensamento.

A partir daí o ser humano passou a ter o status de pessoa, ou seja, aquele que é capaz de fazer soar de forma consciente sua voz através do universo.

Como pessoas nós possuímos duas dimensões básicas: nós existimos e nos relacionamos. Boecio já definia o ser humano como “naturae rationalis individua substancia”, ou seja, nós somos substância que existe em si e pensa.

Ninguém pode me substituir. Ninguém pode pensar por mim ou ser o que sou. Todos nós somos únicos, insubstituíveis. O que faz, por exemplo, da clonagem uma grande ilusão, pois caso algum dia alguém venha a fazer a clonagem de um ser humano, o resultado será simplesmente a de “gêmeos de laboratório” e não a de pessoas iguais. Por outro lado, nós surgimos como únicos a partir da união de duas pessoas e existimos como pessoa através do relacionamento com nossos semelhantes, ou seja, ser pessoa é viver em relação. “Tudo que vive não vive sozinho nem para si mesmo” (William Blake). Aqui é necessário pensar dialeticamente.

Somos pessoas pois somos capazes de nos relacionar e é na relação comunicativa com outros e com o mundo que nos tornamos cada vez mais pessoa. A personalidade desenvolve-se somente na interpersonalidade, na comunicação. Justamente esta cumplicidade que possuímos uns com os outros é que nos define como seres políticos. Viver como pessoa significa tornar-se cada vez mais político, ou seja, viver de forma consciente as relações em sociedade.

Ser político não significa necessariamente ser candidato nas próximas eleições mas, por exemplo, saber a ligação existente entre os impostos que pago, o chopinho que tomo com os amigos em um barzinho e a situação dos menores que “cuidam” do meu carro lá fora enquanto deveriam estar com suas famílias em casa. Ser político é sempre nas relações do dia-a-dia procurar pensar também na situação do outro, tornando-se assim cada vez mais humano.

Ser político é ser pessoa: um ser aberto para o outro. Certa vez, escreveu Bernard Shaw sobre aqueles que negam sua natureza de pessoa: “O pior pecado contra nossos semelhantes não é o de odiá-los, mas o de lhes ser indiferentes”.

(*) Especial para o JC Cultura - Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

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