Política

Reale defende universidade responsável

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 4 min

Em 1973, a visita de Miguel Reale à Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) causou alvoroço em Bauru. Na época, o então reitor da USP inaugurou o Centro Interdepartamental e deixou como marca uma frase: “Aqui é que pulsa o coração da nova universidade”.

Do desdobramento daquela ação brotou o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC), o Centrinho, que hoje é referência internacional para políticas públicas na área de saúde.

“Eu fui um empolgado pela obra do Centrinho, de maneira que, como reitor da universidade, procurei dar todo apoio que me era possível na época”, lembra Reale.

Ontem, o discreto professor e notório jurista recebeu uma série de homenagens na universidade. Sua presença marcou a abertura solene da 2.ª Jornada de Adoção e Prevenção do Abandono.

Reitor da USP por duas vezes, autor de 40 livros, detentor de dezenas de títulos nacionais e internacionais e ocupante da cadeira 14 da Academia Brasileira de Letras, Reale, 91 anos, é fundador do Instituto Brasileiro de Filosofia. Seu filho Miguel Reale Júnior é o atual ministro da Justiça.

No comando da USP, Reale realizou reformas, de modo que a universidade deixasse de ser voltada apenas para o ensino e se aproximasse mais da comunidade. Leia a entrevista concedida à reportagem pelo ex-reitor pouco antes de sua visita ao Centrinho.

Jornal da Cidade - Quando reitor, o senhor procurou dar um caráter mais humanista à universidade. Como isso foi feito? Miguel Reale - O que predominava antes da minha segunda reitoria (iniciada em 1969) era mais a função docente, ficando em segundo plano as demais atividades. Eu levantei a bandeira da chamada tríplice estrela. Que corresponde a três tarefas conjugadas e complementares. Ensino, pesquisa e prestação de serviço à comunidade.

A idéia foi recebida com uma certa reserva, mas eu entendia que em um país pobre a universidade pública deveria ter uma responsabilidade maior.

Eu já tinha pensado nisso quando eu fui reitor pela primeira vez (20 anos antes da segunda gestão). Nos países desenvolvidos, as melhores pesquisas são geralmente feitas pelas grandes empresas, pelos grandes grupos, em função dos interesses mais, digamos assim, econômicos e práticos.

Mas nós não podíamos deixar de cuidar da pesquisa com os recursos estatais, ainda que reduzidos. No meio disso, surgiu o Centrinho, que reunia duas modalidades, era ao mesmo tempo um centro de pesquisa e com prestação de serviço à comunidade.

JC - O senhor acredita em uma vocação universitária do Interior de São Paulo? Reale - Uma das minhas vaidades, porque os velhos têm direito a ser vaidosos como as mulheres, é ter aberto o campo para o Interior. Praticamente havia apenas este ou aquele instituto isolado, como em Piracicaba.

Mas eu achei que havia necessidade de uma projeção da idéia universitária pelo Interior, através de uma concepção nova, de uma universidade federativa, com uma multiplicidade de campi.

Razão pela qual eu entendi de fundar, por exemplo, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

JC - Como defensor de uma universidade mais solidária, o senhor teme pelo futuro da universidade pública? Reale - Eu tenho uma certa preocupação porque eu vejo tanta competição inútil, quando havia um espírito mais solidário e criativo no meu tempo. Sem o que não teria sido possível realizar a reforma universitária.

O que se fez, visto à distância, parece impossível. Nós fizemos desaparecer as cátedras, 1.800 cátedras desapareceram transformadas em departamentos. Cada catedrático tinha o direito de prerrogativas e todos concordaram em abrir mão das prerrogativas e compartilhar dos seus direitos em um departamento institucional.

JC - O que o senhor destaca do desempenho do seu filho como ministro da Justiça? Reale - Eu acho que a idéia central que ele lançou em matéria de luta contra a violência é inteiramente procedente. Ele sustenta, com razão, que em grande parte a violência viceja nas favelas porque o Estado está ausente.

O Estado como juiz, como polícia, como delegado, como promotor. De maneira que o grande esforço que ele está fazendo agora é no sentido de um entendimento entre a união, os estados e os municípios para fornecer serviços estatais à gente que, por força de necessidade, vive em favelas.

Diante do vazio deixado pelo Estado quem ocupa a posição é o bandido.

JC - O senhor acha que a violência é o problema mais grave da atualidade? Reale - São dois assuntos que me preocupam: na vida externa, o desemprego, e na vida comum, da universidade inclusive e das escolas, a violência. Porque a violência entrando na escola e na universidade é o fim do mundo. O fim da picada.

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