Regional

Bispo condena crimes de padres

Ricardo Santana
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Dois momentos bastante distintos viveu o bispo diocesano de São Carlos dom Joviano Lima Júnior, na semana que passou. De um lado a alegria de receber o reconhecimento da cidade por seu trabalho na comunidade com reverência da entrega do título de “Cidadão Honorário de São Carlos”, e a alegria de completar 60 anos de idade. De outra forma, os escândalos envolvendo sacerdotes e que levou, mais uma vez, o papa João Paulo II a pedir desculpas a vítimas de padres que praticam pedofilia e, em contrapartida, avisando que na Igreja Católica “não há espaço para pedofilia”.

Dom Joviano contrastou entre a extrema alegria, mas também muita tristeza. Sentimentos de quem sabe da grande responsabilidade de ser a referência mais próxima para milhares de fiéis que fazem parte de 86 paróquias que compõem a diocese.

Em entrevista exclusiva, dom Joviano repudiou os padres pedófilos. Mas também pediu à comunidade que faça uma corrente em favor dos padres.

Na seqüência, a entrevista em que o bispo de São Carlos faz importantes reflexões a respeito da realidade vivida no momento pela Igreja Católica e discute outros assuntos fundamentais.

Jornal da Cidade – O papa João Paulo II se reuniu, terça-feira, dia 23, com os cardeais norte-americanos para discutir as intensas acusações de pedofilia envolvendo padres daquele país. O pontífice execrou a atitude de quem comete tal crime. O que o senhor pensa de mais esse escândalo em que a Igreja Católica está sobre a mira dos olhares reprovadores e acusativos?

Dom Joviano – Sim, é uma situação bastante grave. E dolorosa, né. Nós todos estamos mergulhados na dor e no sofrimento, ao tomar conhecimento dessas situações. É claro que a Igreja deposita muito confiança na pessoa que assume o ministério presbiteral. Porque, o padre é pastor. Ele é guia de sua comunidade. Sua responsabilidade é enorme. Por isso, a Igreja exige no mínimo sete anos de preparação para alguém que vai receber a ordem de presbítero: ser padre. A Igreja procura preparar bem, do melhor modo possível os candidatos ao presbiterato. Inclusive com acompanhamento psicológico. Desde os encontros vocacionais, quando há o discernimento da vocação. O jovem passa por entrevistas com psicólogos. Mas acontecem casos de desvio de conduta, como esses que a imprensa tem anunciado. E que prejudica as pessoas. No caso, pessoas inocentes. Jesus, no Evangelho, nos adverte com muita força: “Ai de quem escandalizar os inocentes. Seria melhor que amarrasse ao próprio pescoço uma pedra de moinho e se atirasse ao mar.” O papa reuniu os cardeais dos Estados Unidos para tratar dessa questão espinhosa. Que aflige a América do Norte. O problema não é o maior ou menor número de pessoas que freqüentam a comunidade. Mas as pessoas que são prejudicadas. Evidentemente, não é a maioria dos padres. Todos nós conhecemos tantos padres dedicados às suas comunidades. Que vivem com seriedade seu compromisso. E, por isso, nós denunciamos, também, e repudiamos toda e qualquer ação que venha prejudicar as pessoas. Sobretudo as crianças. E convidamos todas as nossas comunidades a rezar pelos nossos presbíteros (padres). E também a sustentá-los com a amizade.

SCN – Em momentos de dificuldade a quem o senhor recorre espiritualmente? Dom Joviano – À palavra de Deus! Nós temos a possibilidade... Talvez outras pessoas não disponham de tanto tempo quanto nós temos. Mas pela organização do nosso dia, nós reservamos alguns momentos à oração. Sobretudo à escuta da palavra de Deus. Porque na palavra de Deus é que nós encontramos força. A Sagrada Escritura nos apresenta pessoas em aflição. Pessoas em situações difíceis. E nós, através da oração dos Salmos, encontramos ali força, inspiração para continuarmos nosso serviço de doação e de presença nas diversas situações. Porque o dia do bispo é um dia bastante atribulado, cheio de responsabilidades, solicitações. Então nós precisamos sempre nos alimentar na fonte, que é a palavra de Deus. Também na celebração do Sacramento, sobretudo a Eucaristia, que é a ceia do Senhor. Onde Ele nos alimenta, nos fortalece, para nós sermos assim agentes da esperança. Para que nós estejamos a serviço da vida e da esperança. Essa é a vocação do bispo.

Jornal da Cidade – Como o senhor analisa a forte presença do papa João Paulo II numa ação bastante coordenada de missionário pacificador e reconciliador sem medo de retaliações de opositores? Dom Joviano – É preciso sempre dar Graças a Deus pelo bem que é feito. Mas também pedir a Deus e às pessoas atingidas pelo mal que foi feito. É claro que as gerações passadas não tiveram a mesma iluminação que nós temos hoje. Por isso, houve alguns excessos. Mesmo em nome da fé e nem sempre as consciências foram respeitadas, as culturas. Então o papa lembra os princípios mais fundamentais do Evangelho. Que é justamente da liberdade, do amor, da compaixão e, por isso, o papa João Paulo II passa a ser uma grande figura moral nos momentos de conflito. Esse papa já esteve na Terra Santa e lá, também, fez uma celebração com os Judeus. E ele dia 24 de janeiro deste ano fez, em Assis, um grande encontro de oração com líderes das principais religiões do mundo. Justamente para que nunca a religião possa servir de veículo para a guerra. Mas que a religião, seja ela qual for, seja instrumento de paz. Porque Deus realmente quer a paz na Terra. Deus quer a paz para todas as famílias, de todas as culturas.

Jornal da Cidade – Dom Pedro Casaldáliga bispo de São Félix do Araguaia (MT), em entrevista à revista Istoé – edição de 28/03/2002 – disse que o papa deveria se aposentar e outros membros da Igreja Católica que atinjam idade avançada deveriam seguir o mesmo caminho. Diante da fragilidade que o papa, muitas vezes, aparenta como o senhor vê esse debate dentro da Igreja? Dom Joviano – Embora frágil no seu físico e na saúde, o papa reuniu um milhão de jovens na cidade de Roma (Itália). Coisa nunca vista na história de Roma e história mundial. Algum líder conseguir reunir tantos jovens num mesmo lugar. Apesar de sua idade, o papa continua sua missão de anunciar a paz, de anunciar o evangelho do amor, da unidade e da fraternidade. Então ele é como um pai para nós Católicos. Por isso, nós vemos que o pai continua sempre à frente de sua família. Embora nas Dioceses, os bispos, ao atingirem a idade de 75 anos, são convidados a se retirarem. Aquilo que nós chamamos de bispo emérito. Terminado o seu período, agora, ele passa a administração da Diocese para um outro bispo.

Jornal da Cidade – Na mesma entrevista, Casaldáliga, avaliou que a Igreja Católica não tem respondido aos anseios do povo. Qual sua opinião a respeito da atuação da Igreja? Dom Joviano – Sempre ouve um grande esforço para responder às necessidades. Mas é claro que a nossa resposta fica sempre aquém da realidade, daquilo que existe. Por exemplo, se nós olharmos para os menores abandonados, se nós olharmos para o sem-teto, se nós olharmos para aqueles que estão na extrema pobreza e na miséria. Percebemos que há muito o que fazer. Por isso, na última assembléia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Itaici (São Paulo), os bispos reunidos lançaram um documento chamado Mutirão para erradicar a fome e a miséria. Em São Carlos no dia 30 de maio, na festa de Corpus Christi, na Catedral, nós iremos lançar esse documento, esse apelo para que não haja miséria, para que não haja fome. Isso então, digamos assim, é uma situação de pecado da nossa sociedade. Com tanto desperdício, com tanto alimento, nós percebemos e vemos irmãos nossos subnutridos e tantos passando fome. O que nós temos feito, a Igreja no Brasil tem feito é organizar a Pastoral da Criança. Ela procura acompanhar as mães gestantes e as crianças de zero a seis anos, procurando reforçar a alimentação, medir o peso e ver tudo aquilo que possa favorecer a saúde e o desenvolvimento da criança. Nós temos também a Casa Aberta aqui em São Carlos, que é justamente para abrigar, durante o dia, meninos que estão na rua. Ali, são socializados e educados. Depois, desse período passado na Casa Aberta, eles podem entrar no Educandário Salesiano. E no Educandário aprendem uma profissão. Tanto a Casa Aberta, quanto o Educandário, estão sendo tido como modelos para outras instituições e para outras cidades. No acompanhamento do menor carente e, mesmo para o menor infrator. Nós temos ainda para nossos velhos o Cantinho Fraterno. E só na cidade de São Carlos nós mantemos quatro creches paroquiais, dando o melhor atendimento às crianças e as suas mães para que as famílias possam ter um recurso mínimo. Portanto, nós temos um esforço, mas realmente a necessidade é muito maior do que nossas possibilidades. E talvez muito maior, ainda, do que nosso entusiasmo, do que nosso empenho.

Jornal da Cidade – Como o senhor avalia o seu bispado frente a uma comunidade religiosa de tantas exigências? Dom Joviano – O trabalho do bispo é de conjunto. Eu coordeno uma ação pastoral que envolve 86 paróquias. Temos muitas e muitas comunidades e centros comunitários. O trabalho do bispo é feito juntamente com o padre e com os agentes de pastoral. Temos muitas pessoas dedicadas à ação evangelizadora. Temos os catequistas, como os Vicentinos na assistência aos pobres. São esses jovens adultos e até crianças na Infância Missionária que fazem a grande ação evangelizadora e pastoral da nossa vasta Diocese de São Carlos, que hoje conta com 1 milhão de habitantes

Jornal da Cidade – Uma das suas características é estar muito próximo das comunidades. Que estratégia o senhor tem adotado para aproximar-se das pessoas e do trabalho de sua diocese? Dom Joviano – São as visitas pastorais, de três ou quatro dias, quando fico na paróquia, visitando todas as comunidades, todos os grupos. Justamente, animando essas comunidades para continuarem assim unidas e evangelizando.

Jornal da Cidade – Em relação à conjuntura atual conturbada de guerras, atentados terroristas, como o senhor tem visto a aproximação das pessoas à fé? Dom Joviano – De modo geral, seja no mundo inteiro e no Brasil, nós temos uma grande volta ao Sagrado. À prática religiosa. Isso também está se dando no interior de nossas comunidades. Sobretudo, com a presença expressiva dos jovens. Nunca tivemos tantos jovens participando ativamente de nossas comunidades. Participam das coordenações. Promovem festas. Encontros. De forma que, hoje, nós sentimos, assim, uma presença mais significativa da juventude, do que nas décadas passadas.

Jornal da Cidade – Como o senhor avalia o processo de canonização, tendo como exemplo a Santa Madre Paulina? Dom Joviano – Como Madre Paulina, nós temos Irmã Dulce, na Bahia. E tantos outros religiosos e religiosas que dedicaram sua vida aos pobres. Madre Paulina desde de jovenzinha se dedicou a uma doente cancerosa. Quando, na época, não se sabia se câncer era uma doença contagiosa ou não. Ela, na flor de sua juventude, dedicou-se àquela pessoa. E mais tarde fundou a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, justamente para estar ao lado dos pobres, dos mais sofridos e dos mais esquecidos. Então nós temos em diversos lugares e em diversas situações pessoas que, em nome de Cristo e sustentadas pela Graça de Deus, dedicaram toda a sua vida, toda a sua existência a causa dos pobres, dos oprimidos, dos esquecidos e dos abandonados. Nós temos, por exemplo, em Itu (São Paulo) o padre Bento, que cuidou dos leprosos. E nós temos tantos outros aí que fundaram instituições e dedicaram toda a sua vida em favor desses nossos irmãos mais necessitados. Então, Madre Paulina é um exemplo. Assim como é Frei Galvão, Padre Anchieta, Padre Eustáquio (Minas Gerais), e tantos outros, que procuraram anunciar Jesus Cristo, fazendo o bem a todos e o mal a ninguém.

Jornal da Cidade – Qual sua opinião a respeito da missa do padre José Antonio, em Dourado, que é considerada verdadeiro encontro de fé e, por isso, repercutem os milagres que dizem acontecer? Dom Joviano – O padre José Antonio que celebra essas eucaristias nas quais muitas pessoas se sentem libertadas de seus males, sejam físicos, sejam psíquicos é um padre muito apreciado na nossa diocese e faz esse trabalho em comunhão com o bispo e com toda a nossa diocese. Nós achamos que esses encontros, de fé e celebrativos, ajudam essas pessoas que estão aflitas. Jesus curava, Jesus libertava. Também o pastor é chamado, a exemplo de Jesus, a aliviar as dores e sofrimentos dos seus semelhantes. Dos seus irmãos e irmãs.

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