Eles ficam sentados, metidos em suas preguiçosas bermudas e camisetas, em volta do pequeno jardim que cerca o playground do condomínio. O encontro não tem hora marcada. Mas por força do hábito comparecem regularmente por volta das nove da noite, logo depois do jornal. Cada um trazendo sua análise convicta dos fatos que mudaram “a cidade, o país e o mundoâ€.
Alguns são aposentados. Outros aguardam, entre um prognóstico da economia e uma avaliação do desempenho brasileiro nos amistosos da Seleção, o dia de assumir, nada gloriosamente, o seu lugar nesse time exposto a um grupo de espectadores para quem a diversão do lucro vem antes da ética e da moral.
E o marketing, o que pensa? Embora afirmem de pés juntos que não, profissionais da área os tratam como pessoas economicamente inativas, arquivadas na pasta “Ignorarâ€. Veladamente seus planejamentos determinam que por conta da idade madura e da saída oficial do mercado de trabalho esta gente não come, não bebe, não passeia, não faz nada além de aproveitar uma promoção criada pela farmácia da esquina para aposentados. O que implica em não terem direito a produtos e serviços adequados e uma comunicação feita com a dignidade que esta gente merece.
É uma pena, mas vivemos a sociedade do descartável. A informática jogou em nossas mãos um conceito de tempo que atropela a natureza humana e do qual temos pouca ou nenhuma chance de nos livrar. O tempo não é para ser vivido, apenas usado. Ele teria se tornado um escravo a serviço do homem, que se vangloria da modernidade exibindo-a como absoluta, num evidente sinal do quanto lhe é custoso aceitar a relatividade de todas as coisas.
Ora, esta inversão de valores inibe a prática da sensatez porque provoca efeitos como que de alucinógenos. Leva os mais apressados a uma corrida maluca em busca de algo sempre mais e mais rápido, moderno, privando-os de aproveitar o aqui e agora de maneira sensata, equilibrada e, principalmente, saudável. Uma prova disso? A simples espera diante do computador, do caixa eletrônico etc. durante uma fração de minuto já se tornou insuportavelmente estressante.
Para dizer a verdade, perdemos a dimensão do que significa um período trivial como dez anos, por exemplo. Por conta disso, a partir de certa fase da vida as pessoas não têm direito ao reaproveitamento. Gente que acumula valores como experiência, maturidade, vivência é sutilmente recolhida para depósitos de mortos-vivos. Empresas e instituições respeitáveis adotam a prática da exclusão a olhos vistos, sem ao menos respeitar-lhes a igualdade de direitos que as tornariam semelhantes ao plástico na possibilidade de ser reciclado – talvez assim a barbárie não fosse tão escandalosamente cruel.
“Já está fazendo hora extraâ€, dizem alguns, usando uma frase com a qual antecipam a morte de quem ainda tem muito a contribuir. Com este discurso que arrancaria aplausos de um desequilibrado como Hitler, mostram-se adeptos de uma escala de valores segundo a qual uma garrafa tem prioridade sobre um ser humano.
A continuar assim, daqui a pouco não teremos outra leva de senhores experientes sentados em bancos de varandas, jardins ou praças, com a vivência acumulada apontando caminhos para os jovens. Porque ser jovem já terá se tornado um conceito ultrapassado. E então será o fim. (*) Rubens Marchioni é especialista em Marketing