Na década de 70 e até meados dos anos 80, quando o Brasil ainda não havia se redemocratizado, a guerra do Vietnã corria solta e o Muro de Berlim insistia em permanecer em pé, o Skinão era o local eleito por políticos, jornalistas e outros intelectuais para debater os mais candentes temas nacionais e internacionais. Era o nosso Senadinho, muito bem presidido pelo Zé do Skinão. Ali, entre um bauru legítimo e uma cervejinha, os maiores problemas da Nação e do Planeta eram solucionados. Mas, no dia seguinte, estavam todos lá, novamente, sobre as mesas: o País no terceiro mundo, a cortina de ferro intransponível e o Noroeste... na penúria de sempre. Da defesa de tese à conversa jogada fora, os temas eram variadíssimos. Dos freqüentadores nada se exigia, mas a assiduidade era natural e espontânea.
No período em que estive na TV, principalmente, eu era uma dessas figuras, ao lado de tantos jornalistas e outras personagens bauruenses que ali batiam ponto. Entre a turma, só para citar alguns, Azenha, Gilberto Leão Barros, Malavolta, Erlington Goulart, Gerson de Souza, Renato Zaiden, Nasralla, Rufino, Amantini, Antonio Lázaro Valeriani Marques, Henrique Crivelli, Pasquarelli, Sampainho, Agenor Piloto, Brisolinha, Simão, de Itapuí, Décio Patelli, Max Scaglioni, Betty Ferreira, Eliane Barbosa, entre outros.
Nas eleições em que Gasparini veio como um furacão, durante a campanha, cortamos o bolo de aniversário do Nilson Costa ali, naquele forum permanente de debates. E havia o dia em que a casa fechava para que, lá dentro, os mais chegados entre os mais chegados saboreassem uma divina peixada.
Mas a minha admiração pelo Zé não cresceu apenas pela sua defesa intransigente do lanche bauru e a preservação dos ingredientes básicos enunciados pelo criador em seu preparo. Nem todos sabem, mas o ex-garção Zé, talvez, fosse a pessoa que mais conhecia o vocabulário da língua portuguesa nesta terra de Azarias Leite e Casemiro Pinto Neto.
Ele, o mestre, eu, Zarcillo Barbosa (parabéns, seja bem-vindo à ABL) formávamos o trio mais freqüente e viciado no jogo da “esticadinhaâ€. Neste jogo, cada participante fala uma letra que é colocada no papel; o próximo canta a letra seguinte. Para não limitar muito o jogo, a validade na formação da palavra começa a partir da terceira letra. A partir daí, quem falar uma letra que forme uma palavra perde o jogo. Não existe o número fixo de participantes e o jogador pode calcular sobre quem ele quer fazer cair a desgraça e tirar fora do páreo. Assim, quando, por exemplo, a palavra quilometr está por uma letra e se é a sua vez você vai perder o jogo, existem as saídas “quilométrico†(3 letras a mais) ou “quilometragem†(4 letras a mais), podendo você calcular sobre quem está lançando o final. No entanto, um dos contendores mais atentos poderia impugnar antes disso, pois “quilo†(peso) já é uma palavra inteira.
Mas é preciso conhecer bem a língua, porque alguém pode iniciar com a letra D e o segundo cantar a Z e o terceiro nem imaginar que os dois primeiros parceiros estão indo para a palavra “dzeta†(nome da 6a. letra do alfabeto grego). Ou quando surge OO (oologia etc.) MN (mneumônico - da memória) wagneriano, bdélio etc. Quantos e quantos catedráticos intrusos fizemos beijar a lona ou sair daquele balcão descadeirado!
Havia - e deve haver sempre - do lado um velho léxico para conferir tudo, pois o jogo é feito sem chutes, com provas. Certo dia, Zarcil-lo presenteou o Zé com um paralelepípedo do Aurélio novinho em folha. Mais de três quilos de palavras bem pesados! Foi quando nosso jogo ganhou mais categoria.
Mas o tempo passou, o Skinão seguiu sua missão de estabelecimento comercial e a nossa turma se dissipou, ficando unida à distância. Nossas palavras foram levadas pelo vento e deixamos o capitão Zé seguindo o seu destino na esquina da saudade.
Há poucos meses, o vereador José Eduardo Ávila e o prefeito o homenagearam com uma placa que oficializa o Skinão como QG do legítimo bauru. Foi uma boa oportunidade de reencontrar o Zé amigo, inteligente, irreverente com suas piadas. Mas já deu para notar uma certa fragilidade nele. A notícia de sua perda foi um choque grande para muitos bauruenses. José Francisco Jr. era um monumento vivo. Foi saborear o legítimo dos legítimos com o próprio Casemiro, ao lado do Criador dos homens. Quanto às palavras do nosso jogo, hoje estou trocando xantocromia, warrantado, wycliffismo, vuvu, por outras mais simples, como amigo, lembrança, saudade, adeus. (O autor, B. Requena, é Editor de Internacional e membro da Academia Bauruense de Letras)