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Nascido para a aventura

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

O jovem professor Antonio Ivan Castilho sempre teve nas veias um espírito aventureiro. Nascido na Bahia, mas bauruense de coração há cerca de dez anos, ele transformou a paixão que nutre por bicicletas e motos e o gosto pela natureza nos principais meios de aproveitar a vida.

As relações estreitas de Castilho com a vontade de superar desafios - e seus próprios limites - começaram quando, ao guidão de uma XL 350, foi até Buenos Aires, na Argentina. Foram 32 dias, período em que percorreu cerca de cinco mil quilômetros fazendo trilhas ao lado de sua namorada da época e conhecendo lugares que lhe marcaram. Entre eles, a Colônia de Sacramento, onde teve a oportunidade de informar-se de detalhes histórico-culturais do país em museus e fortes.

Daí para Castilho resolver se aventurar nos passeios de bicicleta não demorou. Ele começou “devagar”, reunindo amigos para pequenas viagens por cidades da região, como Jaú. Mas, segundo ele, como tal “rotina” já não o satisfazia mais, pensou em aumentar as distâncias dos percursos. Até que um dia, quando morava em Ribeirão Preto, onde trabalhava e estudava, o professor teve a idéia de fazer a viagem de bicicleta até a fazenda de um amigo, em Tocantins.

“Atuava em um emprego que exigia muitas viagens e, por essa razão, acabava perdendo muitas aulas na faculdade. Como não era isso que queria para minha vida resolvi, em março deste ano, retornar a Bauru para me reorganizar. E foi aí que, para esfriar a cabeça, resolvi encarar o desafio de ir de bicicleta até o Centro-Oeste do País”, conta Castilho. Detalhe: ele foi sem avisar o amigo tocantinense. “Ele já foi meu parceiro de muitas aventuras e por isso nem me preocupei em chegar de surpresa”, acrescenta o professor.

Castilho conta que precisou de 15 dias para planejar a viagem, tempo suficiente para traçar o roteiro, organizar as bagagens e revisar a bicicleta, uma Trek 850 equipada com lanternas dianteiras e traseiras, retrovisores, um mini abajur e um velocímetro. Na véspera da partida, contou com o auxílio de um amigo para acomodar os alforjes - emprestados - na bike e os cerca de 30 quilos de carga. Nesta, além das roupas, o professor reservou lugar especial às peças de reposição, principalmente câmaras de ar. “Fui prevenido”, diz ele.

No total, Castilho percorreu mais de 1.500 quilômetros, cruzando São Paulo, Minas Gerais, Goiás até a fronteira com Tocantins. Na chegada, surpresa dupla. Primeiro para o professor, que naquele dia não encontrou o amigo em casa. Depois para a madrasta de seu colega, que além de assustar-se com a presença de Castilho na casa, pensou que este tivesse ido de moto. “A bicicleta estava encostada, mas com a luz acesa. Ela me disse para abrir o portão e colocar minha motocicleta para dentro”, relembra Castilho, rindo.

A rotina

Durante a viagem, a rotina de Castilho era, invariavelmente, pedalar cerca de 100 quilômetros por dia. Depois de levantar cedo, sempre entre 6h e 7h da manhã, alimentava-se nos hotéis em que se hospedava, quando isso era possível. “Acampei somente dois dias. Quando ficava em hotéis bons, que tinham pelo menos café da manhã e chuveiro, comia o máximo que agüentava e fazia vários lanches para comê-los depois”, recorda o professor.

Após as refeições matinais, era hora de recolocar toda a bagagem na bicicleta, que segundo Castilho era um grande “estorvo”, e cair na estrada novamente. “Amarrá-la na bike era muito mais complicado do que carregá-la”, afirma ele. Já no final do dia, anotava em um “diário de bordo”, organizado em uma agenda, todos os locais e detalhes por onde havia passado no trajeto.

A volta

O retorno de Castilho para Bauru foi diferente da ida. Cansado, optou por voltar de ônibus durante quase a totalidade do trajeto. Entretanto, o “grand finale” foi executado da mesma maneira como no início de sua aventura, ou seja, de bicicleta.

Depois de sofrer com a falta de passagens em Goiânia e Ribeirão Preto, Castilho conseguiu chegar a Araraquara, onde dormiu em um hotel próximo à rodoviária. Quando amanheceu, tomou um suco e dirigiu-se novamente ao terminal de ônibus para comprar uma passagem até Bauru. “Lá descobri que só havia bilhetes para viajar à tarde. Diante disso, montei novamente a bicicleta e pedalei em pouco mais de cinco horas os 130 quilômetros até Bauru”, lembra ele.

Ao chegar na cidade, um fato lhe chamou a atenção. “Entrei pela Getúlio Vargas e encontrei o cunhado e a irmã do meu amigo lá de Tocantins. Não resisti e pedi que eles adivinhassem de onde estava chegando”, ri Castilho.

Solidariedade

O professor enfatiza que os fatos que mais lhe marcaram durante a viagem foram a simplicidade e a solidariedade do povo brasileiro. Segundo Castilho, ao chegar em vários lugarejos, muitos deles distantes das metrópoles, era recebido como se fosse um “filho” das pessoas. “O povo, simples e pobre, tem um espírito extremamente receptivo, pois me tratavam como um parente de longe que havia acabado de chegar de bicicleta”, frisa ele.

Aliado ao calor humano das pessoas, Castilho também não teve do que reclamar de muitas dificuldades durante a viagem, pois estas foram poucas. “Não tive nenhum problema mecânico, nem um pneu furado. O que mais me incomodou foi o sol, pois tive queimaduras sérias mesmo passando protetor solar, e a acidez na boca. Como passei por vários laranjais e plantações de abacaxi durante o caminho, estava sempre me alimentando com essas frutas. Só que minha boca descascou e virou uma afta gigante”, complementa.

Perfil

• Nome Antonio Ivan Castilho

• Profissão Professor

• Quem você não colocaria na garupa da sua bicicleta?

“Nenhum norte-americano, pois se eu levasse algum deles todo mérito da viagem que fiz certamente ficaria com ele.”

• E quem você levaria?

“Qualquer deficiente físico que necessitasse.”

• O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?

“O trânsito daqui é horrível. Em primeiro lugar são os buracos e, além disso, os motoristas daqui não têm consciência da legislação. Muitos usam o trânsito como hobby ou status. Às vezes, estamos com pressa e necessitamos correr um pouco mais. E é justamente nessa situação que nos deparamos com aqueles que insistem em andar pela esquerda. E se você dá luz alta para eles, você corre o perigo de arrumar uma briga.”

• Que nota você daria aos motoristas bauruenses?

“Três, para eles não repetirem direto e terem a chance de ficar para recuperação.”

• Próxima viagem

“Tenho planos para ir de Buenos Aires a Santiago de bicicleta. Quero subir a Cordilheira dos Andes e voltar pelo deserto de Atacama. Já pensava em fazê-la antes dessa para Tocantins, mas tenho de esperar pelo menos mais um ano para reunir recursos.”

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