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A realidade das estatísticas

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Os dados divulgados pelo IBGE relativos ao Censo Demográfico realizado em 2000, revelam que melhoramos no consumo supérfluo e pioramos nas relações injustas entre pessoas e regiões. As linhas telefônicas cresceram 113,4%, apesar de servirem a apenas 40% das residências e o acesso ao automóvel particular avançou 41,6%. Por outro lado, apenas 2,4% dos trabalhadores ganham mais de 20 salários mínimos. No caso da educação, sabe-se que sobrevivem áreas significativas contaminadas por ensino de má qualidade. Entre grupos saídos dos primeiros graus de instrução, mais de 50% se revelam analfabetos funcionais. Sabem ler, mas não entendem o que lêem.

O presidente FHC disse que o resultado apontado pela agência de estatística oficial “é ilógico” pois indica aumento de consumo e diminuição de renda, ou seja, mais se consumiu do que se ganhou e esta seria uma contradição insolúvel, pensa o presidente que também é sociólogo, profissão voltada à análise dos indicadores sociais.

As estatísticas servem para serem desmentidas, disse uma vez Charles De Gaulle. Muitas explicações virão, principalmente agora que o período de campanhas eleitorais começa a esquentar. O candidato do governo, por exemplo, poderá dizer que o ganho do trabalhador brasileiro melhorou, mas ele (povo) prefere mentir na hora de dar informações porque tem medo do fisco.

Justifica-se. Esse glutão brasileiro consome mais de um terço de tudo aquilo que os brasileiros produzem, ou seja, alguma coisa em torno de 35% do Produto Interno Bruto, o tal PIB que equivale à soma de todas as nossas riquezas, aquelas às quais se pode atribuir valor econômico.

É preciso que se faça uma avaliação serena e científica dos números do IBGE. Sobre eles há que se fazer uma leitura com instrumental analítico de rigorosa afinação. Uma leitura armada, mas com espírito desarmado.

Os censos anteriores apontavam a redução de brancos e um aumento de negros e mulatos. Quando tudo fazia crer que já estaríamos hoje vivendo num “Brasil Moreno”, eis que o IBGE revela continuarmos tendo maioria branca da ordem de 53,3%. Só falta dizer que os mulatos estão se declarando brancos somente por status, sem assumir a própria negritude.

Outra coisa: os abismos sociais entre regiões não só permanecem como, em muitos casos, tornaram-se mais profundos. Na Região Sudeste, em 2000 era 15,9% os trabalhadores em atividade com renda de até um salário mínimo. Já os situados na faixa de mais de 20 salários formam contingente de 3,3%. No Nordeste, somavam 46,2% os assalariados com ganhos de até um salário mínimo. E só 1,4% alcançavam remuneração acima de 20 mínimos. Outro indicador perverso: no Sudeste há três vezes mais microcomputadores nos lares (12,9%) do que no Nordeste (4,3%). Os analfabetos da informatização ficam ainda mais distantes do mercado de trabalho, o que aumenta a exclusão no País.

No balanço geral, é indispensável reconhecer que houve melhoras mas isso não exclui o dever dos governantes de refletir sobre o que fazer para resgatar renitentes injustiças na distribuição dos bens da vida. A educação, se elevada, como estratégia para qualificar o fator humano, poderá no tempo de poucas gerações fazer do Brasil um país justo, afluente, solidário. Fiquemos atentos aos discursos dos candidatos à Presidência. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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