Uma das características fundamentais do nosso tempo é o desemprego estrutural. O desemprego está aumentando não porque a economia vai mal ou porque as pessoas estão se tornando mais preguiçosas e não querem trabalhar. Pelo contrário: a economia vai bem (isto é, os ricos e as grandes empresas estão ganhando muito dinheiro), ao mesmo tempo em que as empresas demitem e uma multidão de pobres luta por um emprego.
A razão dessa aparente contradição está na ideologia neoliberal que, atualmente, move o mundo econômico. O crescimento econômico não está em função da solução de problemas sociais, mas do próprio crescimento do lucro das empresas. Hoje, as empresas estão aumentando os lucros à medida em que diminuem o número de empregados. Isso torna a situação atual muito mais dramática para os trabalhadores desempregados.
No Brasil, o desemprego estrutural é fruto de três fatores: a revolução tecnológica, que diminui a necessidade de mão-de-obra; o processo de globalização econômica sob a ideologia neoliberal, que coloca a acumulação de riqueza nas mãos de poucos como o motor da dinâmica econômicos; os ajustes na economia brasileira em vista do combate à inflação e da adequação da economia do País à globalização neoliberal.
Além da necessidade de entendermos esta nova realidade, nunca é demais afirmar que a defesa do direito ao trabalho de todas as pessoas continua sendo um dos pontos fundamentais da fé dos que celebram a memória de Jesus através da ceia do Senhor. Não se pode separa o seguimento a Jesus, que faz do dar de comer e beber aos pobres o critério de salvação, das preocupações com questões relativas à economia e ao trabalho em particular. Afinal, não é possível viver sem comer, beber, vestir e morar.
Por isso, o papa João Paulo II disse, na encíclica O Trabalho Humano, que a Igreja Católica considera a solidariedade com a causa dos trabalhadores “como sua missão, seu serviço e como uma comprovação da sua fidelidade a Cristo, para assim ser verdadeiramente a Igreja dos pobresâ€.
Quando um país como o Brasil, que tem tantos problemas sociais, ajusta a sua economia e suas políticas sociais em função do novo processo de acumulação de riqueza, a situação dos pobres só pode piorar. O que tem ocorrido nos últimos anos não é só maior concentração de renda com “ricos cada vez mais ricos, a custa de pobres cada vez mais pobresâ€. O que está acontecendo é um processo de apartação de dois Brasis a partir do critério social, também conhecido como fenômeno da exclusão social. Basta vermos o fenômeno dos condomínios fechados de luxo, dos clubes/privês ou dos shopping centers, além da parte importante da população que vai se tornando os “sobrantes†na economia.
Uma sociedade que aparta e exclui multidões vai frontalmente contra o espírito da ceia do Senhor. Os que justificam a atual ordem econômica ou aqueles que, no fundo, não se sentem incomodados pela atual situação econômica e social dos pobres excluídos e festejam o “banquete do consumo de supérfluos†são pessoas movidas pelo “espírito de acumulação egoístaâ€. Se essas pessoas se dizem cristãs, elas participam da ceia do Senhor movidas não pelo espírito do banquete, mas pelo espírito de acumulação como aquele que “se apressa para comer a sua própria criaâ€, enquanto o pobre passa fome (1 Cor 11,21). Quem come a ceia do Senhor, ao mesmo tempo em que apóia ou está de acordo com o sistema econômico da exclusão social, “come e bebe a própria condenaçãoâ€, como diz São Paulo (1 Cor 11,29).
Grupo de Cidadania - Paróquia Nossa Sra. das Graças. (Odair Machado - RG. 4.969.663)