Tribuna do Leitor

O DIREITO AO TRABALHO

Odair Machado
| Tempo de leitura: 3 min

Uma das características fundamentais do nosso tempo é o desemprego estrutural. O desemprego está aumentando não porque a economia vai mal ou porque as pessoas estão se tornando mais preguiçosas e não querem trabalhar. Pelo contrário: a economia vai bem (isto é, os ricos e as grandes empresas estão ganhando muito dinheiro), ao mesmo tempo em que as empresas demitem e uma multidão de pobres luta por um emprego.

A razão dessa aparente contradição está na ideologia neoliberal que, atualmente, move o mundo econômico. O crescimento econômico não está em função da solução de problemas sociais, mas do próprio crescimento do lucro das empresas. Hoje, as empresas estão aumentando os lucros à medida em que diminuem o número de empregados. Isso torna a situação atual muito mais dramática para os trabalhadores desempregados.

No Brasil, o desemprego estrutural é fruto de três fatores: a revolução tecnológica, que diminui a necessidade de mão-de-obra; o processo de globalização econômica sob a ideologia neoliberal, que coloca a acumulação de riqueza nas mãos de poucos como o motor da dinâmica econômicos; os ajustes na economia brasileira em vista do combate à inflação e da adequação da economia do País à globalização neoliberal.

Além da necessidade de entendermos esta nova realidade, nunca é demais afirmar que a defesa do direito ao trabalho de todas as pessoas continua sendo um dos pontos fundamentais da fé dos que celebram a memória de Jesus através da ceia do Senhor. Não se pode separa o seguimento a Jesus, que faz do dar de comer e beber aos pobres o critério de salvação, das preocupações com questões relativas à economia e ao trabalho em particular. Afinal, não é possível viver sem comer, beber, vestir e morar.

Por isso, o papa João Paulo II disse, na encíclica O Trabalho Humano, que a Igreja Católica considera a solidariedade com a causa dos trabalhadores “como sua missão, seu serviço e como uma comprovação da sua fidelidade a Cristo, para assim ser verdadeiramente a Igreja dos pobres”.

Quando um país como o Brasil, que tem tantos problemas sociais, ajusta a sua economia e suas políticas sociais em função do novo processo de acumulação de riqueza, a situação dos pobres só pode piorar. O que tem ocorrido nos últimos anos não é só maior concentração de renda com “ricos cada vez mais ricos, a custa de pobres cada vez mais pobres”. O que está acontecendo é um processo de apartação de dois Brasis a partir do critério social, também conhecido como fenômeno da exclusão social. Basta vermos o fenômeno dos condomínios fechados de luxo, dos clubes/privês ou dos shopping centers, além da parte importante da população que vai se tornando os “sobrantes” na economia.

Uma sociedade que aparta e exclui multidões vai frontalmente contra o espírito da ceia do Senhor. Os que justificam a atual ordem econômica ou aqueles que, no fundo, não se sentem incomodados pela atual situação econômica e social dos pobres excluídos e festejam o “banquete do consumo de supérfluos” são pessoas movidas pelo “espírito de acumulação egoísta”. Se essas pessoas se dizem cristãs, elas participam da ceia do Senhor movidas não pelo espírito do banquete, mas pelo espírito de acumulação como aquele que “se apressa para comer a sua própria cria”, enquanto o pobre passa fome (1 Cor 11,21). Quem come a ceia do Senhor, ao mesmo tempo em que apóia ou está de acordo com o sistema econômico da exclusão social, “come e bebe a própria condenação”, como diz São Paulo (1 Cor 11,29).

Grupo de Cidadania - Paróquia Nossa Sra. das Graças. (Odair Machado - RG. 4.969.663)

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