Os bauruenses que nunca olharam com ressalva o núcleo Fortunato Rocha Lima - e seus moradores por conseqüência - que atirem a primeira pedra. O bairro construído em mutirão para abrigar ex-favelados, mesmo seis anos após sua inauguração, continua amargando preconceitos de toda a ordem.
Apesar da violência que o marcou no início ter sido veementemente combatida, quem mora no local dificilmente encontra trabalho em outras regiões da cidade. Lá, o desemprego atinge 60% dos moradores.
A realidade desanimadora e a imagem ruim, no entanto, estão sendo, aos poucos, modificadas por um programa que vislumbra grandes transformações a longo prazo. Nascido praticamente junto com o bairro, o Projeto Girassol, mantido pelo Grupo Amor e Caridade, trabalha incansavelmente em prol da melhoria de vida das próximas gerações.
“Temos, sim, muitos problemas de famílias desestruturadas, mas estamos tentando corrigir isso. Como mudar a personalidade adulta é difícil, nossa missão aqui é transformar as crianças para que sejam adultos melhores no futuro. Mesmo testemunhando mudanças marcantes de relacionamento no presente, os resultados do Projeto Girassol são de longo prazoâ€, explica José Sílvio Turini, diretor do programa.
Antes mesmo desse futuro chegar, o projeto já conseguiu mudar o rumo na vida de várias pessoas. A hoje professora Cleide Aparecida Soares da Silva, 31 anos, é uma delas. Há um ano e meio, ela estava desempregada e não via grandes chances para alcançar o tão sonhado sucesso pessoal.
“Fiquei dois anos procurando emprego antes de saber que o Projeto Girassol estava aceitando inscrição para o cargo de secretária. Mesmo sem preencher os requisitos desejáveis - eu não tinha o colegial completo e era casada com filhos pequenos -, insisti. Não é que Deus me ajudou e eu fui contratada?â€, comemora.
Meses depois, Cleide teve sua dedicação compensada com uma promoção: passaria a ser professora, cargo que ocupa desde março do ano passado.
“Estou fazendo as últimas provas do último ano do colegial e vou fazer magistério. Agora que tenho oportunidade, faço tudo para melhorar. Aqui no Girassol recebo incentivo em tudo e, para dizer a verdade, sou muito grata ao Fortunato. Não fossem as dificuldades que tenho de enfrentar por morar aqui, talvez as coisas não tivessem acontecido para mim. Vivo outra vida hojeâ€, exagera.
No dia-a-dia, Cleide passa para os alunos suas próprias experiências. “As crianças têm consciência da fama ruim do bairro, mas, ao invés de lamentar e reforçar isso, eu mostro para eles o que é preciso fazer para mudar o quadro. Digo que eles serão os responsáveis por essa missão e que, por isso, é preciso se espelhar hoje em bons exemplos.â€
O projeto também “pegou†o marido de Cleide, que fez curso de cabeleireiro e hoje ganha um dinheirinho extra cortando cabelos nos domingos e nas folgas do serviço. “Além de livrar o dinheiro do lazer, passamos a economizar. Hoje é ele quem corta e pinta meu cabeloâ€, conta.
Conhecendo o programa
No Girassol, 150 crianças com idades entre 7 e 14 anos passam um período do dia realizando as mais diversas atividades educativas, culturais e artísticas. Todas têm, obrigatoriamente, que estar matriculadas na rede oficial de ensino.
Turini compara os recém-ingressos com a pedra preciosa em estado bruto. Arredias e com comportamento perturbado no começo, elas não demoram a mudar as atitudes. “Percebemos mudanças marcantes na hora das refeições e no relacionamento com os colegas. Muitos, é claro, retornam dos fins-de-semana com uma carga de problemas, mas todos vão aprendendo a ter segurança de que podem ter uma vida melhorâ€, comenta José Sílvio Turini, diretor do Girassol.
O projeto adota o método Waldorf nas salas de aula, o que significa o atendimento ao assistido em sua globalidade. Outra característica que contribui com o aumento da sensibilidade das crianças é o incentivo às atividades artísticas.
Paralelamente ao atendimento infanto-juvenil, são oferecidas oportunidades de capacitação profissional e geração de renda aos familiares dos assistidos, aos alunos egressos e população do bairro em geral.
Cozinha experimental, cabeleireiro e manicure, estamparia, curso para gestantes, computação, artesanato e aperfeiçoamento domésticos são algumas das atividades disponíveis. O projeto também mantém uma oficina de marcenaria, mas, no momento, não há profissional voluntário da área para ministrar o curso.
Apesar da grande abrangência, cerca de 150 crianças aguardam atendimento na fila de espera. Além dos espíritas do Amor e Caridade, católicos (creche São José) e evangélicos (Casa da Esperança) também coordenam projetos sociais no Fortunato.
Ele não perde uma chance
Os filhos do industriário Cláudio César Nonato, 31 anos, não estão matriculados no Projeto Girassol, mas ele não deixa de aproveitar os cursos abertos à comunidade. “Tirei o certificado de cabeleireiro, hoje faço computação e pretendo me inscrever em outros futuros. Sou interessado, gosto de aprender e não costumo deixar as oportunidades passarem na minha vida. Agarro todasâ€, diz ele, numa auto-avaliação.
Nonato ficou sabendo do programa no ano passado e, inicialmente, buscava uma atividade que envolvesse pintura ou artesanato. “Só tinha vaga para cabeleireiro e eu resolvi entrar. Não é que deu certo? Passei a cortar o cabelo da vizinhança de graça, mas a freguesia aumentou e resolvi cobrar. Hoje tenho cliente fixo, corto em domicílio e não dispenso minhas horas de folgaâ€, enumera.
Além de fazer novos amigos e tornar-se conhecido no bairro, Nonato não gasta mais para cuidar dos cabelos dos filhos e ainda reforça o cardápio do dia-a-dia. “Com o dinheiro que recebo, compro mistura, frutas e leite. É um conforto a maisâ€, comemora.
O industriário/cabeleireiro agora aguarda a reforço do currículo com o certificado que irá receber do curso de computação, o segundo de outros muitos que ele pretende fazer. “São oportunidades únicas para quem é pobre e não tem qualificação. Eu não teria condições de pagar cursos como esses e, por isso, pego firme mesmo. Se todas as pessoas necessitadas agarrassem as chances que aparecem, a situação não estaria tão ruim assim. Quando eu fiz o curso de cabeleireiro, dez pessoas começaram, mas só quatro terminaram. A maioria é acomodada e quer tudo na mãoâ€, disparou.
“Eu seria mendigaâ€
A faxineira Maria Helena da Costa, 33 anos, também deve ao projeto a guinada de sua vida. Ex-moradora da extinta favela São Manoel, “batia ponto†todos os dias no programa de distribuição de sopa que originou o Girassol. Levava o marido e os quatro filhos para garantir, muitas vezes, a única refeição do dia. Com o tempo, passou a ser voluntária, depois ganhou o cargo na limpeza geral, mas confessa que não “botou fé†quando o programa foi reestruturado. “Achava que aquilo não ia vingar, tanto que demorei a colocar meus filhos. Hoje, tenho a dizer que isso aqui é minha segunda família.â€
Maria Helena acredita que sua vida tinha tudo para seguir um rumo bem diferente e triste. “Eu não tinha emprego, meu marido é alcóolatra e passou a beber mais ainda quando faltou trabalho para ele também. Meus filhos teriam ficado na rua e expostos às drogas, que é problema comum aqui no bairro. Talvez hoje eu fosse uma louca ou uma mendigaâ€, reconhece.
O voto de confiança que recebeu dos coordenadores do Girassol frutificou em todos os sentidos. Quando chegou para morar na casa construída no mutirão, Maria Helena só tinha duas malas de roupas e quatro colchões. O salário possibilitou a ampliação do imóvel, a compra de móveis e de uma televisão, mas o lucro foi bem maior no sentido pessoal.
“Aprendi a me arrumar e hoje não me falta oportunidade de cortar cabelo e fazer as unhas (ela é voluntária nos cursos de cabeleireiro e manicure oferecidos pelo projeto). Eu e meu marido também temos assistência psicológica, porque o problema dele com a bebida continua. Às vezes, chego aqui desesperada, quase afundando, mas o pessoal sempre me estende a mãoâ€, emociona-se.