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Cota para negro no ensino é polêmica

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 6 min

Depois de 114 anos da abolição da escravatura, os negros ainda lutam para serem incluídos na sociedade. A discussão do momento é sobre o projeto de lei em votação no Congresso que obriga universidades e empresas públicas a reservarem 20% no mínimo de suas vagas para a população afrodescendente.

Aprovado pelo Senado na semana passada em caráter terminativo, o projeto segue agora para a Câmara Federal. O assunto é polêmico e não está sendo aceito por uma boa parcela da sociedade, que entende que as cotas podem gerar mais preconceitos para a raça negra.

As divergências acontecem até mesmo entre integrantes da Comissão do Negro e Assuntos Antidiscriminatórios da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subseção Bauru.

O coordenador da entidade, Antonio Carlos Silva Barros, por exemplo, é favorável ao projeto. Já o seu colega, membro efetivo da comissão, advogado Wilson Brasil de Arruda, acredita que as cotas em nada vão contribuir para a inclusão dos negros, principalmente no que diz respeito ao Ensino Superior. “Esse projeto de lei não vem de encontro aos anseios da sociedade”, diz.

Para ele, já que é para criar um projeto de reserva de vagas, ele deveria ser destinado às pessoas pobres e não simplesmente aos negros. “Não é só o negro que tem dificuldades para chegar à universidade. Isso acontece com todos que formam a camada menos abastada da população”, frisa.

Outro ponto ressaltado por Arruda é o fato da população brasileira ser composta por uma forte miscigenação de raças. “Tem muita gente que tem ascendência negra e não tem a tez parda. Isso criaria confusão na aplicação da lei”, prevê.

Silva Barros não acredita nessa hipótese. De acordo com ele, existem mecanismos para provar a descendência afro-brasileira através de documentos e testemunhas. “Em princípio, a pessoa vai se apresentar como beneficiária da lei. Mas, para ser aprovada dentro dessa cota, terá de provar a sua descendência”, ressalta.

Ele acredita que a polêmica em torno do assunto está ocorrendo porque as pessoas estão preocupadas apenas em discutir a reserva de vagas. “O assunto é muito mais complexo que isso. Acredito que a aprovação de cotas para negros vai contribuir para abrir caminhos para a população menos favorecida”, salienta o advogado.

Por seu mérito

O projeto, que foi apresentado pelo senador José Sarney no Congresso, tem por objetivo incentivar a participação dos afrodescendentes no Ensino Superior. Na última quarta-feira, os senadores aprovaram o projeto em caráter terminativo. Com isso, ele foi encaminhado direto para a Câmara Federal.

Se for aprovado e entrar em vigor, ele determinará que as universidades reservem uma cota mínima de 20% de suas vagas para a população negra do País. Esse índice será variável conforme o Estado. O projeto prevê também a reserva de vagas para negros em concursos públicos.

Estudantes de curso pré-vestibular e 3.º colegial ouvidos pela reportagem do Jornal da Cidade foram unânimes em dizer que não concordam com o projeto (leia fala-povo). Para eles, a lei poderá gerar mais preconceito com relação aos afrodescendentes.

O advogado Wilson Brasil de Arruda compartilha dessa opinião. De acordo com ele, as pessoas que entrarem na universidade beneficiando-se dessa lei poderão sofrer discriminação no futuro. “Muita gente vai falar: ‘você só conseguiu se formar porque foi protegido pela lei e não pela sua real capacidade’”, destaca.

Ele acredita que os negros têm de mostrar que são capazes de estudar e ter uma profissão, independentemente de leis ou ações afirmativas.

Já Barros não vê esse caminho como o mais correto. Para ele, a lei vai encurtar o caminho e facilitar o acesso dos negros ao estudo e a uma vida mais digna. “Se for usar apenas a sua força de vontade para conseguir derrubar essa barreira, os negros vão levar mais 200 anos para conseguir uma posição respeitada na sociedade”, enfatiza.

O advogado acredita que a lei não deve ser interpretada apenas por ela mesma. “Deve ser uma chance de abrir discussões sobre a qualidade de vida dos negros no Brasil.”

Fim da solidariedade

O sindicalista Roque Ferreira, membro do Coletivo de Combate ao Racismo da Central Única dos Trabalhadores (CUT) destaca que a reserva de vagas vai acabar gerando disputa entre os próprios negros. “O resultado dessa política será a destruição dos laços de solidariedade de classe”, salienta.

De acordo com ele, isso vai ocorrer porque as cotas só serão preenchidas por uma parcela dos afrodescendentes. “A reserva de vagas vai permitir a ascensão social de uns, apresentados como mais aptos que outros.”

Ferreira questiona como poderia ser colocada em prática essa política em Estados como a Bahia, por exemplo, que tem cerca de 70% da população da raça negra. “Essa lei é nociva e visa tribalizar o País”, destaca.

A diretora da Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Egli Muniz, diz que não é favorável à reserva de vagas. Na opinião dela, trata-se de uma medida paliativa, que não vai acabar com a desigualdade social do Brasil. “Se o negro não consegue ingressar na universidade não é porque existe um mecanismo no vestibular que os impeça. Isso é decorrência de uma história de vida, da falta de oportunidade para a sua formação como cidadão”, salienta.

A professora reforça a idéia de que deve ser realizado um trabalho de base, mais amplo e aprofundado no sentido de combater a pobreza e a discriminação.

Na educação

* do total de universitários, apenas 2,2% são negros, 13,5% são pardos e mais de 80% são brancos;

* o percentual da população negra que completou 15 ou mais anos de estudo é cinco vezes menor que o da população branca;

* em média, um branco tem o dobro da escolaridade de um negro;

* a taxa de analfabetismo é quase três vezes maior entre negros e mulatos;

* o percentual de analfabetos entre os negros é 2,5 vezes maior que o entre os brancos;

* um jovem branco de 25 anos tem, em média, mais de 2,3 anos de estudo que um jovem negro da mesma idade.

Fonte: Pesquisa do Senado Federal

Fala-povo

“Não. Eu acho que isso é uma forma de discriminação. Parece que estão querendo dizer que os negros não têm capacidade de lutar”, Gilberto Magalhães Bento Gonçalves Júnior, estudante de curso pré-vestibular.

“Não concordo. Isso vai gerar mais preconceito no futuro. Vão falar que eles só conseguiram estudar porque tiveram vagas reservadas para eles”, Gustavo de Moraes da Silva, aluno do 3.º colegial.

“Eu não concordo com essa lei. As oportunidades devem ser iguais para todos e reservar vagas não vai resolver o problema”, Karen Alves do Ó, aluna do 3.º colegial.

“Sou contra. O governo tem que investir é no ensino básico, formar pessoas com capacidade de disputar uma vaga de igual para igual”, Ana Laura Mattar Carciofi, aluna de curso pré-vestibular.

“Não concordo. Acho que as coisas devem continuar como estão. Propor cotas para negros é ofender a capacidade de luta da raça”, Paula Viviane Ramos, aluna de curso pré-vestibular.

“Acho justo dar mais oportunidade para os negros, mas sou contra o projeto. Acredito que ele não vai resolver a desigualdade social”, Marinice Messias da Silva, aluna de curso pré-vestibular.

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