Certa vez, disse a sanguessuga à larva de uma libélula: “Você já percebeu em mim alguma vez o desejo de sentir o que você chama de liberdade?†“Ah!â€, respondeu a larva, “Eu só tenho vontade de ir para o alto. Eu já tentei, várias vezes, olhar pela superfície da água e ver o que tem do outro lado. O que vi foi uma luz maravilhosa mas, de repente, sombras vieram ao meu encontro. Provavelmente meus olhos não estão prontos para ver o que existe depois da superfície. Porém, desistir eu não desisto, ainda quero saber o que existe depois da superfície da água.â€
A sanguessuga que se envergava de tanto rir, afirmava: “Você tem mesmo fantasia. Você acredita que do outro lado da superfície existe alguma coisa? Deixa de ilusão, menina! Você tem que acreditar em uma pessoa de experiência como eu: eu já nadei por toda esta poça d’água.
Esta poça é o mundo - e o mundo é esta poça. E fora disso não existe mais nada! Deixe de besteiras e viva sua vida de larva. Quem nasceu para ser larva, sempre será uma larva!â€
“Mas eu vi uma luz e sombras!?â€, insistia a amiga, “Eu sinto que posso explorar outros mundos...†“Alucinação! A realidade é o que eu sinto e posso tocar e ela não é outra coisa senão a nossa poça d’águaâ€, respondeu a sanguessuga. Não durou muito tempo para a larva da libélula superar os limites da superfície da água.
Nela cresceram grandes asas e com estas a libélula pôde ganhar os céus e avistar a luz do sol. A partir de então, sempre que a libélula voava sobre sua antiga poça d’água lembrava de seu passado e admirava como aquele mundo era pequeno.
O ser humano não nasceu para ser larva, isso é um dado fácil de ser comprovado, apesar de não tão evidente para muitos. Ao surgirmos em nosso universo, nos encontramos em condições naturais, culturais e históricas que nos foram colocadas ou impostas.
Estas condições de vida, que muitas vezes dentro de uma mesma sociedade são diferentes e contrastantes, parecem determinar toda a vida do ser humano. Assim, temos a impressão de que existe um “destinoâ€.
Porém, apesar de nosso cosmos social, podemos constatar que somos mais que reproduções das condições históricas. Estas, segundo Karl Jaspers, não se confundem com o próprio “ser†da pessoa humana. De acordo com o filósofo, o que a pessoa humana pode ser, não está condicionado a um “estarâ€, a uma simples realidade empírica, mas ela depende do agir, do fazer, da tarefa que o ser humano pode realizar em liberdade.
Existência significa, na verdade, a própria realização de meu ser, através das escolhas que vou fazendo durante minha vida, escolhas estas que vão moldando o meu ser e o meu aparecer no mundo.
Moldar meu ser, ou seja, existir, possui uma relação muito íntima com o verbo “Quererâ€. Hannah Arendt esclarece que, enquanto a memória é uma capacidade mental orientada para o passado, o querer está intimamente ligado ao futuro.
Em última instância, não existe nenhum outro “ser†do que o “quererâ€. O querer é a capacidade interior que decide quem eu vou ser e de qual forma eu irei atuar e aparecer no mundo.
O querer, que tem mais a ver com projetos do que com objetos, é um movimento de autocriação da própria pessoa que transforma não somente suas ações e estilos de vida, mas também seu caráter, enfim, seu “ser†na totalidade. Para o querer não há limites. Qualquer limitação de idade, situação física, econômica, cultural ou histórica podem atrapalhar o nosso querer, mas nunca se constituirão em obstáculos intransponíveis.
“Dificuldades reais podem ser resolvidas; apenas as imaginárias são insuportáveis†(Theodore N. Vail). Nuno Cobra está repleto de razões ao afirmar que a distinção entre aquele que consegue e aquele que não sai do lugar está no “fazerâ€.
Todo o segredo da vida está contido nessas cinco letrinhas mágicas: f-a-z-e-r. E o fazer nada mais é do que uma expressão visível do querer.
O único inimigo do querer é, na verdade, a mediocridade. O medíocre é aquele que se mantém no comum, ordinário, vulgar ou mediano.
Mediocrizar-se significa acomodar-se na situação que está, deixando que o medo aprisione seu querer. Além da estagnação da vida, a mediocridade produz também o pessimismo e a inveja. A pessoa atingida pela mediocridade não acredita no poder da mudança, na transformação, no surgimento do novo. Por sentir-se incapaz de modificar sua vida e tornar a ser como talvez gostaria, o medíocre não se alegra com o sucesso dos outros, pelo contrário, sente doída inveja dos que estão livremente concretizando o seu “querer†e realizando-se como pessoa.
No fundo, a inveja é marca registrada dos incompetentes e estes são, no fim das contas, os únicos prejudicados com ela. Quem é invejado nunca deve esquecer o conselho de Sam Snead: “Esqueça seus adversários; jogue sempre contra a médiaâ€. Para o medíocre, porém, existem dois caminhos: continuar em sua mediocridade invejando o prazer dos outros ou recuperar a força do “querer†remexendo a água parada, ou seja, a sua vida. Afinal, água parada, com o tempo, cheira mal.
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