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A paz dos bravos


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Estima-se que estejam nos territórios palestinos ocupados por forças de defesa de Israel cerca de cinco mil brasileiros, o que torna o conflito distante, muito mais próximo. Os brasileiros na Cisjordânia e Faixa de Gaza padecem das mesmas mazelas que os seus parentes árabes e aguardam uma solução política que, hoje, parece mais distante do que em 1993, quando Ytzahak Rabin e Yasser Arafat apertaram as mãos na Casa Branca e acenaram com uma esperança concreta ao processo de paz.

Mesmo com o anúncio do fim da ofensiva israelense, que satisfez Washington, depois do fracasso da missão do secretário de Estado Colin Powell, não nos permitir divisar uma solução duradoura para o conflito no Oriente Médio. Os brasileiros puderam conhecer mais diretamente o conflito palestino-israelense durante o desenrolar do caso da brasileira Lamia, casada com um professor de geografia palestino, que seqüestrou um soldado israelense. Ela participou da locação do veículo, mas não do atentado, sendo condenada à prisão perpétua.

A pena foi revogada posteriormente pelo acordo de Oslo. Os familiares de Lamia possuem um mercado, vizinho a um assentamento israelense. Lá, palestinos e judeus convivem pacificamente, demonstrando na prática do dia-a-dia que o diálogo e a tolerância são possíveis para os dois povos, embora não sejam para os dirigentes de seus Estados, que vêm demolindo todas as esperanças de um convívio civilizado. A questão do medo está na raiz de medidas extremas de segurança adotadas em várias partes do mundo, guardadas as devidas proporções.

Assim, em São Paulo, há mais medo de violência nos grupos sociais onde a possibilidade do crime é mais remota, porque o sentimento de ameaça é difuso e subjetivo, podendo construir precauções irreais. No caso da Palestina, a população israelense, com medo do terror, apóia medidas extremas, mesmo que elas signifiquem o adiamento da paz e da criação do Estado Palestino, concebido pela mesma resolução da ONU que criou o Estado de Israel, em 1948.

Hoje, a concepção de Direitos Humanos tem seu foco nos processos de universalização e internacionalização desses direitos. É a resposta da humanidade às atrocidades praticadas durante a Segunda Grande Guerra, na qual os judeus foram grandes vítimas. O legado moral do povo judeu é um dos mais ricos da História da Humanidade e não pode ser comprometido pela miopia da intolerância e do autoritarismo. Na preservação de sua cultura, os judeus também conheceram o processo da perseguição, da resistência e do sonho da terra prometida. Por isso, podem compreender, como nenhum outro povo, o drama palestino.

Israel terá, no futuro próximo, de justificar as ações de seu Exército no território palestino. Os palestinos falam em um massacre, os israelenses garantem que isso não aconteceu. Houve ou não uma mortandade? A humanidade anseia por essa resposta, uma vez que para nos mantermos humanos não podemos perder nossa capacidade de indignação. Na mesma medida que nos indignamos com os atos terroristas que fazem vítimas inocentes, também devemos nos indignar quando a casa de alguém é transformada em seu próprio cárcere e seu habitante destituído de sua dignidade.

O sentimento de solidariedade nos faz apelar para uma saída humanitária - e urgente - para o conflito. A preocupação internacional recai sobre a segurança da população civil, desumanizada, violada em seus direitos básicos, que ficou sem acesso à ajuda humanitária e exposta a seqüelas irreversíveis, que podem redundar em mais violência. É necessário cortar esse ciclo de retaliações, que tem feito vítimas dos dois lados e contribuído para aumentar o número de homens bombas que se imolam, por parte dos palestinos, e de respostas de repressão, pelo lado israelense. Ambos os povos têm uma só escolha entre a “paz dos bravos” ou a “guerra” dos intolerantes. (O autor, Carlos Miguel Aidar, é presidente da OAB-SP)

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