O desenvolvimento tecnológico do século 20, com a introdução do rádio e do amplificador, o aparecimento do automóvel e o rápido crescimento da industrialização trouxeram junto o aumento significativo dos chamados ruídos urbanos.
A maioria dos barulhos que se ouve nas ruas são costumeiros e parecem inofensivos, mas podem ser muito prejudiciais se for levado em conta que o nível máximo de decibéis (unidade de medida do som) saudável para os ouvidos é o da uma voz de pessoa em tom normal, ou seja, 60 decibéis.
Se o tom de uma conversa está no limite saudável para a audição, a problemática dos ruídos urbanos é muito mais grave do que se possa imaginar. É muito fácil encontrar decibéis bem acima dos 60 em todos cantos da cidade. Foi o que constatou uma pesquisa feita pelo professor do Departamento de Engenharia da Unesp/Bauru João Cândido Fernandes. Ele saiu às ruas de Bauru munido com um aparelho medidor de nível de som, chamado decibelímetro.
Na Praça Dom Pedro II, durante o dia, numa situação de tráfego médio, o nível de ruído ficou entre 86 e 88 decibéis. Na rua Primeiro de Agosto, esquina com a Gustavo Maciel, a média verificada numa situação de trânsito pouco intenso ficou nos 84 decibéis - passava dos 90 decibéis quando caminhões trafegavam pelo local.
Na avenida Getúlio Vargas, durante a noite, com apenas 50% de lotação de um dos bares existente no local, foram registrados ruídos de 82 decibéis. Ainda na Getúlio, no momento de abertura dos semáforos, os ponteiros do decibelímetro passavam dos 90. Condutores de ônibus e motos, que experimentaram ruídos acima de 90 decibéis no momento da medição estão sujeitos à perda de audição induzida por ruído (Pair).
É importante ressaltar que o Ministério do Trabalho estabelece uma jornada máxima de quatro horas para quem fica constantemente exposto a tantos decibéis.
O professor Fernandes alerta que os efeitos da exposição da população à poluição sonora vão além da perda de audição podendo alterar a fisiologia e o comportamento humano - estresse, perda de concentração, aumento da freqüência cardíaca e problemas nas cordas vocais estão entre os riscos mais comuns.
A citação do autor Pimentel Souza presente no trabalho apresentado por Fernandes durante um congresso é esclarecedora: “Se o ruído é excessivo, o corpo ativa o sistema nervoso, que o prepara contra o ataque de um inimigo invisível, sem pegadas, que invade todo o meio ambiente pelas menores frestas por onde passa o ar ou por toda ligação rígida à fonte ruidosa. O cérebro acelera-se e os músculos consomem-se sem motivo. Sintomas secundários aparecem: aumento de pressão arterial, paralisação do estômago e intestino, má irrigação da pele e até mesmo impotência sexual.â€
Um exemplo disso é quando se entra numa danceteria ou numa casa de show. O professor diz que dentro de uma danceteria, o nível de ruído pode chegar a 117 decibéis. Ao entrar em um local assim, a pupila dilata, há um aumento no batimento cardíaco, injetando adrenalina no sangue. “O organismo fica pronto para uma reação, como se fosse uma situação de perigoâ€, explica.
Conforto
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define o ruído com sendo a forma de poluição que atinge o maior número de pessoas no mundo todo. O ruído afeta o conforto e a audição de uma pessoa.
O conforto é prejudicado quando o ruído atrapalha o bem-estar diário, atingindo níveis de barulho acima dos aceitáveis. O nível de conforto depende do ambiente. Para uma igreja ou biblioteca, por exemplo, se exige níveis entre 38 e 48 decibéis.
O professor Fernandes explica que toda vez que o ruído chega próximo do nível de voz, que fica em torno de 60 decibéis, ele incomoda porque atinge o nível que é desconfortável para qualquer situação. Sempre que o ruído atinge esse volume, há problemas de comunicação e a pessoa tem que elevar a voz para poder ser ouvida.
“Passou de 65 decibéis já está incomodando no banco, no supermercado, na feira livre, em qualquer lugar, porque já não é possível conversar normalmente. Para se ter conforto, os níveis têm que estar abaixo de 65 decibéis e, dependendo do ambiente, precisa ser muito mais baixo que issoâ€, detalha.
Ao se colocar um aparelho medidor em uma pessoa por 24 horas consecutivas, o nível médio de decibéis recomendado pela OMS tem que estar abaixo de 55 decibéis para que o indivíduo esteja num ambiente tranqüilo. Quando a média passa desse valor, a pessoa começa a ter problemas de saúde, como o estresse e aumento do batimento cardíaco.
A preocupação com o excesso de barulho é tão grande que já existe no mercado empresas especializadas em colocar janelas anti-ruído.