Não importa o tamanho da organização ou o ramo de atividade em que se trabalha, é quase impossível escapar de um mal presente em maior ou menor escala em todos os seres humano: a inveja. Um elogio recebido, um aumento, até mesmo o bom relacionamento com outras pessoas, pode despertar a inveja do próximo. Quando isso acontece é possível até esperar por uma reação que, na maioria dos casos, vem em forma de críticas veladas e pequenas sabotagens.
Fugir desse tipo de sentimento quando ele vem dos outros requer uma análise profunda das próprias atitudes, explica a psicóloga organizacional Célia Maria Lopes da Silva. Isso porque, nem sempre, o invejoso é uma pessoa má, como se imagina. Ele pode ser apenas alguém mal informado que não está sabendo como direcionar seus sentimentos e frustrações.
Inferioridade
A inveja que, de um modo geral, se manifesta sob a sob a forma de frustração, tristeza, mal-estar e acanhamento, é um sentimento intimamente ligado à sensação de inferioridade. â€œÉ um desequilíbrio íntimo, fruto da comparação que fizemos entre nós e o outro em algum aspecto específico. O invejoso é alguém que se considera menor do que o outro de alguma maneiraâ€, diz a psicóloga Juliana S. T. Silveira.
Por se considerar inferior, ele ataca quase que por um instinto de sobrevivência, muitas vezes ate quase que incoscientemente. “Trabalhei com uma menina que me invejava desde o meu primeiro dia de trabalhoâ€, conta a comerciária Marcilene Nogueira.
A razão do sentimento da ex-colega ela desconhece até hoje. “Acho que ela ficou com medo quando percebeu que a nossa supervisora gostava de mim. Deve ter ficado com medo de perder o empregoâ€, arrisca. Enquanto trabalhou com “cobraâ€, ao seu lado, Nogueira viu muitas vezes seu trabalho ser sabotado. “Ela sumia com as minhas coisas, meus papéis, falava malâ€, lembra.
O fim da “briga†só veio quando a ex-colega conseguiu outro emprego. “Ela saiu da firma toda feliz, como se tivesse ganho na loteria e fez questão de deixar isso claroâ€, conta. Com o músico Luciano Corrêa a história foi pior. “Tive um colega que falava mal de mim na minha frente, sem que eu nunca tivesse feito nada para eleâ€, afirma.
Corrêa não desconfiava a razão da atitude com companheiro de trabalho até que o próprio chefe lhe disse que o outro “morria de inveja dele por ter menos estudoâ€. “Acho que ele tinha medo de que os outros achassem que ele era burroâ€.
Avaliando o problema
Saber que alguém que trabalha ao seu lado tem inveja do seu desempenho nem sempre é fácil. A não ser que essa revelação aconteça como no caso do músico, é possível apenas supor quer alguém está incomodado por que tem inveja.
Para Célia Lopes da Silva, a primeira coisa a fazer quando se tem a sensação de que um colega é invejoso, é avaliar o que está acontecendo de verdade. É claro que chamar a pessoa para uma conversa nem sempre é possível ou recomendável. “A pessoa tem que tentar saber o que está provocando esse sentimento no outroâ€, ensina a psicóloga organizacional.
A análise se justifica, segundo a especialista, porque muitas vezes a pessoa invejada não percebe que o seu modo de agir pode estar - mesmo que ela não saiba disso - ofendendo ou menosprezando a outra pessoa. Isso faz com que a suposta pessoa invejosa se sinta diminuída. “Quando você avalia o seu próprio modo de agir está possibilitando que o outro te veja de uma maneira diferenteâ€, diz Silva.
Se isso acontece, a psicóloga recomenda que se deixe claro para o colega de trabalho que não existe nenhum problema com ela. â€œÉ preciso mostrar à pessoa que você não tem nada contra ela e que ela pode ser tão competente quanto você, portanto não há razão para ter invejaâ€, ensina.
Acabando com a inveja
Não adianta muito tentar fugir da inveja de um companheiro quando toda a empresa na qual se trabalha têm um ambiente que incentiva esse sentimento.
A professora da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC), Patrícia Amélia Lopes, autora de “Inveja nas Organizaçõesâ€, publicado pela Editora Makron Books, explica que, para gerenciar a inveja, as empresas devem evitar certos costumes e favorecer outros.
São negativas na visão da autora situações que acabam em favoritismo ou tratamento injusto dos empregados, por exemplo.
O que deve ser evitado:
• Individualismo
• Estruturas fechadas
• Modelos autoritários
• Privilégios e ostentações
• Politicagem
• Falta de clareza nas decisões
• Mentiras e boatos
O que tem que ser estimulado:
• Cooperação e equipes
• Gestão participativa
• Flexibilidade e autonomia
• Negociação de conflitos
• Programas salariais claros e justos
• Avaliação de potenciais e méritos