Em todas as casas, antigamente, quer fossem ricas ou pobres, havia um quintal. Lugar sombreado, amigo, o reino da garotada que brincava mais nos seus galhos robustos, do que no próprio chão. Era onde as crianças se refugiavam dos adultos, na magia de suas imaginações, onde personagens de Lobato brincavam com Tarzan.
Havia sempre um galinheiro com frangos de verdade, emplumados, ninhos com ovos, galos cantando e um peru submisso, engordando para o Natal.
As árvores entrelaçavam suas copas, mantendo o chão de terra batida sempre vermelho e úmido. Árvores que por falta de espaço, deixaram de existir. Onde haveria agora lugar para o nosso velho abacateiro? À sua sombra havia um banco; um banco onde nunca ninguém sentou, mas sabiam que estava lá, para um momento de reflexão ou uma fuga solitária.
Naquele tempo havia um avô, um avô que fazia enxertos nas laranjeiras e verificava se a torneira gotejava ao pé da jaboticabeira.
O quintal era o alter-ego da casa. Ele recebia o aroma do feijão temperado, do bolo de fubá saído do forno. E quando no outono a jaboticabeira se vestia de noiva, mandava o perfume de milhares de flores para a sala de visitas.
O entardecer era a hora melancólica dos quintais, quando as sombras compridas se esgueiravam pelo chão, escondendo dois brinquedos esquecidos, como sonhos não realizados, um velocípede azul e uma boneca de pano encharcada pela chuva... (Adelaide Reis de Magalhães, escritora, é colaboradora de Ju Machado-Escritório de Arte.)