O coronel da reserva da Polícia Militar, Ubiratan Guimarães, pode passar o resto de sua vida respondendo pela morte de 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo. Desde dois de outubro de 1992, data do massacre, Guimarães percorre o País defendendo a operação como a única forma de retomada do presídio pela Tropa de Choque naquele dia. Condenado a 632 anos de reclusão por ter comandado a operação (sentença em grau de recurso), o coronel acabou tendo no tema o principal mote de sua campanha a deputado estadual pelo PPB de Paulo Maluf.
Assim como Maluf, Ubiratan Guimarães critica a política de segurança do Estado, repete o bordão de retorno da Rota às ruas mas não deixa claro a exata relação entre a ação policial, a violência e a morte. Ele descreve um cenário de emboscada, escuridão, fogo e confronto de presos rebelados com 85 homens da tropa que invadiu o Pavilhão 9 na história da Estação Carandiru, que foi livro de Dráusio Varella e baseou um filme de Hector Babenco que estréia neste mês no cinema. Leia os principais pontos da entrevista:
Jornal da Cidade - Porque o senhor quer uma vaga na Assembléia Legislativa?
Ubiratan Guimarães - Eu irei disputar uma vaga na chapa a convenção do PPB de Paulo Maluf. Fui suplente e assumi uma cadeira na Assembléia em 1997 por um ano e meio. Eu tenho buscado informações na área de segurança pública, onde atuo. O que a gente tem visto o crescimento da violência e da criminalidade é uma coisa espantosa. E isso não cresceu do dia para a noite. Foi crescendo nos últimos anos por falta de enfrentamento maior e por uma política errada de segurança pública. Porque as polícias militar e civil sabem trabalhar. Mas fica muito difícil com uma política de segurança afrouxada, em defesa de presos e bandidos. Hoje tem 11 pessoas sequestradas em São Paulo. No ano passado fugiram 2.480 presos das cadeias de São Paulo. E foge porque está faltando autoridade, porque ninguém se impõe.
JC - Mas fugas sempre ocorreram. Qual o erro então?
Ubiratan - Sempre ocorreram mas não nesta proporção. Fuga existe em qualquer parte do mundo. Mas no ano passado, nos EUA, para uma população carcerária de dois milhões de presos fugiram oito. Em São Paulo, para 100 mil presos fugiram 2.480. O sistema está completamente falido. É a superlotação, é a facilidade com que se entra com armas, objetos, telefones e droga nos presídios. Na última revista em busca dos homens do PPC prenderam uma quantidade absurda de objetos. Isso ocorre porque existe corrupção. Para entrar com arma ou alguma outra coisa proibida em presídio alguém tem que colaborar do lado de dentro. Essas quadrilhas se articularam ao longo dos últimos oito anos em razão da falência do sistema carcerário. O Estado não age, não tem autoridade suficiente, eles crescem.
JC - O senhor está apontando uma falha sobretudo na mão-de-obra?
Ubiratan - Não é só de mão-de-obra é de estrutura também. O governo está dizendo que vai implodir o Carandiru porque diz que lá é um símbolo de violência. Só que lá tem 3.400 vagas no sistema prisional. Em Bauru estão reclamando a tanto tempo que há uma cadeia superlotada. E isso é no Estado todo e o governador quer abrir mão de 3.400 vagas com o discurso que aquilo é o símbolo da violência. O símbolo da violência é um seqüestrado apanhando, sem dentes, que passou na mão de sequestradores na semana passada. O Carandiru é um presídio como outro qualquer. Se está ruim é por incompetência do governo. Precisa de gente de pulso para acabar com mordomias dentro dos presídios. No final de semana, no dia de visita íntima, eles colocam barracas no pátio para o casal e ali se vende de tudo, cocaína, bebida, celular, mulher, travesti e é uma complacência dentro da prisão.
JC - Mas qual a saída para esse sistema?
Ubiratan - Precisa baixar normas e ser rigoroso com aqueles que são coniventes, com aqueles que participam da corrupção. Precisa punir essa gente. O funcionário público que ocupa função na administração da segurança pública tem que ser punido com rigor porque senão o sistema vai deteriorando. É uma minoria, mas precisa punir. Esses dias falaram do policial que fazia segurança para o Andinho, o seqüestrado. Ele é pior que o Andinho porque foi treinado e é pago pelo Estado para dar cobertura a um criminoso. Precisa punir esse cara que tem um revólver, uma farda, uma carteira e traiu a sociedade.
JC - O senhor fala em falta de pulso do governo. Mas resolver a questão é muito mais que isso?
Ubiratan - Há um programa onde o policial que faz uso da arma dentro da lei no exercício da função, fazendo um disparo, ele era castigado, respondia por isso. Até que enfim mudaram o secretário e acabaram com isso. O policial enfrenta bandido e tem insegurança em atirar dentro da lei porque vai responder. Cria uma mentalidade que protege o bandido. O policial tem que ter retaguarda para reagir dentro da lei e em defesa do cidadão. O policial tem que se defender. Se o bandido atirou em um policial para matar ele tem que atirar também. Ele precisa garantir a segurança também com arma.
JC - A polícia está acompanhando a ousadia dos bandidos, está se reciclando?
Ubiratan - Sem dúvida. Felizmente as distorções de corrupção são em um número mínimo. Mas as corregedorias precisam funcionar. As polícias militar e civil também estão agindo com menor corporativismo e com maior integração no trabalho. Não falo em unificação. Não há varinha mágica nisso. Não dá para unificar de um dia para o outro. Agora as polícias estão ampliando a integração. Se cada polícia fizer o que está na Constituição não há conflito.
JC - Se fala em eficiência mas as polícias não trocam dados on line, não contam com um sistema interligado com a radiografia do crime, da região?
Ubiratan - Tem que mudar. A polícia tem que ter integração operacional também, com um sistema informatizado que permita o acesso simultâneo de casos, de monitoramento da área de abrangência. Tem que trabalhar junto com as guardas municipais nos centros médios, ampliando o efetivo de PMs nas ruas.
JC - O Paulo Maluf, do seu partido, fala de ter pulso firme. Não é muito simplista a proposta?
Ubiratan - Tem que investir muito em polícia e não adianta investir só em carro hidramático de luxo. Tem que investir no principal, o homem. E isso eles não fizeram nos últimos anos. Nosso policial ganha pouco, mora mal e não tem condições ideais de trabalho.
JC - Mas as notícias sobre as condições de trabalho da polícia na época do Maluf são de tempos ruins?
Ubiratan - Eu era subcomandante da Rota na época e não vi esses problemas. Veja o nível de criminalidade da época e hoje e não é por aumento da população, da pobreza só. É que se tinha mais apoio para a estrutura e a ação da polícia. Tem que colocar a Rota na rua para ser enérgica. O Genoíno pegou esse bordão do Maluf. Por a Rota na rua é estar próximo da população. Joga esse povo do PCC tudo junto em uma cela e faz revista todo dia às seis da manhã. Agora se deixar eles livres eles vão se organizar e comandar o crime de dentro da prisão.
JC - O senhor fala que não houve massacre no Carandiru, mas foi condenado a 632 anos de reclusão. O que houve então naquele motim?
Ubiratan - A condenação está em grau de recurso. Massacre eu abomino essa palavra e condeno a Anistia Internacional que disse ontem que a única coisa direita que o Brasil fez foi me condenar. Não foi massacre, foi operação de retomada de um presídio em motim, rebelado e em chamas. Só no Pavilhão 9 tinha 1.200 presos, no Complexo do Carandiru inteiro 11 mil presos. Ali sempre foi uma panela de pressão. Explodiu na minha mão, mas aquilo foi uma operação autorizada e em consenso pelas autoridades.
JC - Mas morreram 111 pessoas. Não havia como retomar o presídio sem tantas mortes?
Ubiratan - Não tinha como. Houve tentativa de negociação por parte do diretor do presídio. Ele tentou negociar e os presos colocaram barricadas e tocaram fogo. Aquilo ficou com 800 graus centígrados de temperatura e o fogo se alastrou. A Tropa de Choque tinha que entrar e dar condições para o Corpo de Bombeiros apagar o fogo. Depois tínhamos que tomar o presídio e fomos recebidos a bala. Foram apreendidos 14 armas de fogo e 380 estiletes. Aqueles que atiraram sofreram reação obviamente. Eles também se mataram entre si. Mataram nove. Atribuíram à polícia militar 102 mortes e a gente lamenta. Morreu aquele que enfrentou a polícia e atirou no policial. Aquele que se rendeu não morreu. Eles prepararam emboscada para a polícia.
JC - Mas o senhor diz que foram apreendidas 14 armas de fogo entre 1.200 presos contra 111 mortes. É um número muito elevado?
Ubiratan - E as armas improvisadas, os estiletes, as lanças, as armadilhas, que matam tanto quanto, no escuro, com fumaça, os policiais tomando tiro. Eles se defenderam imediatamente e saíram muitos homens nossos feridos. Estamos sendo responsabilizados, eu e 84 policiais. Todos os homens nossos estão respondendo. Alguns entraram lá e não atiraram em ninguém, outros atiraram. Estava tudo escuro, com muita fumaça. Não houve massacre onde havia 1.200 presos e houve matança entre eles, algo impressionante. Tinha gente pendurada escorrendo o sangue pelo pescoço quando nós entramos.
JC - Mas foram 111 mortes, sendo 102 atribuídas à Tropa de Choque?
Ubiratan - Nós entramos lá tomando tiro e tentando desobstruir uma barricada, tomando porrada. Mas perguntam se não havia um plano de fuga, onde colocaram fogo na frente para fugir por trás. É fácil falar. É mas o senhor podia ter usado bala de borracha. Não tinha na época. Naquele dois de outubro, naquele caos, não tinha o que fazer, não podia esperar queimar tudo. Se morressem os 1.200 presos estariam dizendo até hoje que eu fui incompetente. Eu deveria ficar assistindo tudo pegar fogo? Na CPI falam assim: o senhor foi treinado para enfrentar essa situação. O que o senhor fez, matou 102 pessoas? Eu não aprendi a ficar com medo na polícia.
JC - Quantos presos o senhor matou nessa operação?
Ubiratan - Eu não dei um tiro, não matei. Eu fui atingido, desmaiei, entrei armado com metralhadora e fui socorrido no ombro de um colega. A nossa tropa entrou enfrentando porrada, tiros e começou a atirar. Na barricada eu fui atingido pela explosão de um botijão de gás e fui acordar no hospital. Foi uma operação autorizada para recuperar um presídio amotinado, não foi um massacre. Fico com mágoa por terem me escolhido com o réu da anistia internacional.
JC - O senhor não reconhece que é difícil para o cidadão entender tantas mortes em um motim?
Ubiratan - É muito tranqüilo avaliar quando temos ar condicionado, café. Agora naquele momento crucial, com os nossos homens tomando tiro, no escuro, com fumaça. Mas a gente continua confiando na Justiça. Eu passei 32 anos na rua trabalhando e continuo confiando. O que houve no julgamento foi uma discrepância entre a ação da tropa e a necessidade de dar exemplo através de alguém e eu fui o escolhido. Tenho a consciência absolutamente tranqüila. Nós, eu e meus homens sabemos o que fizemos. Fui profissional combatendo o crime nesta e em outras ações.
JC - Quem tem ar condicionado e cafezinho, acha que tantas mortes poderiam ter sido evitadas, não consegue entender?
Ubiratan - Concordo. Agora a polícia age na consequência. Explodiu aquilo porque o sistema carcerário é falho. Quem tinha que agir era a Tropa de Choque. Não estou defendendo que só as mortes poderiam resolver aquele motim. Nós tínhamos que enfrentar aqueles caras e enfrentamos. Mas a situação lá dentro era de emboscada. Muitos presos foram socorridos pelos policiais e ficam falando que a Rota é feita de matadores. Não havia outra alternativa senão atirar, o que levou às mortes. Tenho a consciência tranqüila.