Bairros

Pistas separam moradores de serviços

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 6 min

A vida dos bauruense que moram às margens das rodovias tem uma rotina muitas vezes desagradável. Mesmo quem está satisfeito com o endereço admite que é difícil conviver com os acidentes e ruídos provocados pelos veículos pesados. Outra dificuldade é sentir tranqüilidade quando se tem um filho que estuda do outro lado da pista e precisa, obrigatoriamente, atravessá-la todos os dias.

A dona de casa Nair de Almeida Teixeira mora no Parque Colina Verde e tem como paisagem a Bauru/Iacanga (SP-321), rodovia que, em proporção, recebe a maior influência do tráfego urbano - no trecho que corta a cidade, o fluxo de veículos cresce 155%.

Há 19 anos no endereço, Nair sente-se compensada pela segurança que tanto movimento proporciona. “Nunca tive problemas com ladrões, me sinto realmente segura”, garantiu, para depois listar os inconvenientes. “Por outro lado, o barulho é tão grande que sou obrigada a manter o volume da televisão muito alto, mas nada que me impeça de ouvir o fim da piada”, brincou.

Há quatro anos, a dona de casa foi surpreendida por um caminhão desgovernado que quase invadiu sua sala. “Ele derrubou o muro e por pouco não entrou em casa. O barulho foi ensurdecedor e achamos que o carro havia explodido. Saímos correndo para o fundo e só depois demos conta do realmente tinha acontecido”, relembrou.

O que mais a incomoda, no entanto, é presenciar os constantes acidentes. â€œÉ horrível. Aqui não passa uma semana sem acidente. Eu mesma já socorri vítima. Às vezes, penso em me mudar, mas não tenho condições financeiras para isso. Só saio daqui se for para morar perto de São Paulo, onde estão meus filhos”, disse.

O aposentado José Antônio Cristianini, também morador do bairro, é mais convicto quanto ao desejo de deixar o local. “Só estou esperando receber meu FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para me mudar. Para mim, viver aqui tornou-se insuportável”, reclamou.

Cristianini reside no Colina Verde desde que o bairro foi fundado, em 1983. “Eu escolhi morar defronte a pista porque adoro ver o movimento, mas não imaginava que iriam construir esse trevo (a poucos metros de sua residência). Tudo quanto é carro desvia caminho por aqui. O barulho é intolerável, sem falar no fedor de combustível queimado e na sujeira que me obriga a lavar minha garagem três vezes por semana”, protestou.

Na contramão dos desiludidos, está a dona de casa Maria Celina Lobato Une, que mora no Vista Alegre também de frente para a rodovia. “Não tenho do que reclamar, apesar de me preocupar muito com os acidentes; penso que poderia ser alguém da minha família. Fora isso, não vejo inconvenientes. Como minha casa é grande, os quartos ficam no fundo e não recebem o barulho da estrada. Não acho que aqui tenha mais poluição, ao contrário, a sujeira era maior quando eu morava na (rua) Presidente Kennedy”, comparou.

Maria Celina reconhece que já pensou em mudar-se para outro lugar, mas não por motivos ligados à proximidade com a rodovia. “Eu tinha receio de deixar a casa sozinha e cogitei morar em apartamento. Desisti em nome da liberdade que tenho aqui”, justificou.

Cobranças

As associações de moradores dos bairros margeados por auto-estradas são cobradas constantemente por conta dos problemas decorrentes. Essas entidades dificilmente conseguem atender às reivindicações, pois as providências quase sempre dependem dos dois ingredientes públicos mais raros: dinheiro e vontade política.

Os moradores do Colina Verde, por exemplo, já esperam sentados uma resposta a um pedido feito há exatamente oito anos. Na verdade, parte da solicitação, que reivindicava iluminação, passarela, obstáculos e sonorizadores, foi atendida. “Com muito custo, conseguimos que instalassem postes de luz e os sonorizadores, mas, infelizmente, isso não foi suficiente”, lamentou Maria Ivone Pandolfi, representante dos moradores do bairro.

Sem escola, supermercado e farmácia, quem reside no Colina Verde tem que transpor a rodovia para adquirir materiais básicos. A travessia é feita próximo ao trevo, construído a poucos metros de uma lombada que limita a visão do tráfego no sentido Pousada da Esperança/Centro.

De acordo com Ivone, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) confirmou o plano de erguer uma passarela no local, mas isso só vai ocorrer quando o Estado duplicar a estrada, obra que não tem data certa para ser liberada. “Eu acredito que o novo aeroporto vai acelerar a duplicação, mas o limite de quem mora aqui já esgotou faz tempo. Qualquer espera é muito para quem corre riscos todos os dias”, considerou.

A espera pela duplicação da SP-321 também gera ansiedade nos moradores da Vila São Paulo, Pousada da Esperança e Jardim Ivone, principais vítimas da falta de transposições viárias. “A passarela só vai sair com a duplicação”, confirmou Cícero dos Anjos, presidente da Associação de Moradores da Vila São Paulo.

Para o representante do bairro, a construção de uma ciclovia já minimizaria o problema, uma vez que a maioria dos moradores daquela região utiliza a bicicleta como transporte. “O problema não seria todo resolvido, porque quem trabalha com carroça continuaria se arriscando. Mesmo assim, muita gente ganharia segurança”, ponderou.

A Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) tem projeto pronto para a desejada ciclovia, mas o plano está vinculado à construção da marginal, obra que só deverá sair quando Município e Estado entrarem num acordo de parceria.

Travessia de risco

Algumas mães que não trabalham fora podem ajudar os filhos a atravessar a pista, mas muitas crianças que estudam na escola Guedes de Azevedo passam sozinhas pela pista. Numa visita ao local, a reportagem do JC nos Bairros testemunhou que, nos horários de maior movimento - por volta do meio-dia e 18 horas -, a espera para a travessia segura pode demorar de cinco a oito minutos. O problema é que nem todo mundo, particularmente crianças e adolescentes, tem paciência para tanto.

Distância sucumbe à rapidez

Transitar por rodovias é uma praxe comum entre as pessoas que têm na locomoção uma atividade inerente ao trabalho ou mesmo à rotina diária.

O motorista Fernando Barbosa de Lima, por exemplo, precisa quase que todos os dias fazer entregas na Vila Nova Esperança, avenida Getúlio Vargas e Parque São Geraldo. Ele conta que vence todas as distâncias com rapidez porque lança mão das auto-estradas. “Se fosse fazer tudo pelo meio da cidade, onde está cheio de semáforos e trânsito, demoraria mais do dobro de tempo. Às vezes, a distância é maior pela rodovia, mas a agilidade compensa”, balanceou.

A Rondon e a Bauru/Marília formam o roteiro ideal para a Nova Esperança, assim como “a Bauru/Arealva cai como uma luva” quando as entregas são no São Geraldo. Para ganhar a Getúlio Vargas, Lima não tem dúvidas: pega a Rondon e entra no trevo na altura do residencial Paineiras. “Eu economizo 10, às vezes 15 minutos, indo pela estrada”, gabou-se.

A dona de casa Maria Celina Lobato Une, moradora do Parque Vista Alegre, também confessa ser usuária freqüente da Marechal Rondon e comandante João Ribeiro de Barros. Apesar de não dirigir, ela acompanha o marido nas compras, feitas em um supermercado da zona sul, e nas visitas aos parentes que moram no Jardim Panorama e ao filho, residente na Vila Nova Esperança.

É pela rodovia também que o casal Une leva a filha diariamente para a faculdade, localizada no Jardim Brasil. “Moramos longe do Centro, mas isso nem faz diferença, porque o trânsito pela estrada é muito melhor e mais rápido”, sentenciou.

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