A prisão do filho de Kim Dae-jung, presidente da Coréia do Sul, a menos de duas semanas da abertura da Copa do Mundo, é um exemplo de justiça e de amadurecimento de uma democracia que deve ser objeto de uma profunda reflexão cá para os nossos lados.
O filho do presidente coreano, Kim Hong-gul, 37 anos, deputado, reconheceu durante um extenso interrogatório que recebeu dinheiro de dois doadores, embora tenha negado ter utilizado sua influência para consegui-lo.
A detenção de Kim ocorreu pelo recebimento de U$ 800 mil em subornos para favorecer uma empresa numa concessão de uma agência de apostas esportivas. O valor eqüivale a cerca de R$ 2 milhões de reais e causou também a detenção de dois empresários pelo ato de corromper um parlamentar.
No Brasil não raramente esses fatos acontecem, mas com significativas diferenças de procedimentos da Justiça que propicia invariavelmente a liberdade dos acusados por atos de corrupção e improbidade administrativas.
O ex-senador da República Luiz Estevão está livre e percorre o país acusando juizes de futebol, quando deveria estar na frente dos tribunais explicando sua participação e de sua empreiteira nos desvios de verbas e superfaturamento da obra de construção do TRT-SP, cujo único acusado detido é o conhecido juiz Lalau.
Nossos corruptos e seus corruptores têm imunidade parlamentar e dezenas de subterfúgios legais para escaparem ilesos de acusações semelhantes a que levaram um filho de presidente e deputado para a cadeia na Coréia.
É um exemplo de justiça, seriedade e cumprimento rigoroso de leis que são feitas para todos em igualdade de condições. É um exemplo que ainda não cabe em nosso país, onde os escândalos se acumulam nos noticiários e terminam esquecidos nas gavetas do Ministério Público.
Nesse sentido, o governo federal é recordista mundial de arquivamento de suspeitas de corrupção em suas fileiras. São tantos os casos que foram denunciados nos últimos oito anos, mas nenhum cujo processo chegou ao seu trâmite final com a conseqüente prisão do servidor de alto escalão e seus corruptores. Começou com o Projeto Sivam, passou pelo Proer, pela privatização das empresas de telecomunicações, pela suspeita de compra de parlamentares para votarem a favor da emenda da reeleição de FHC, pelo caso Eduardo Jorge, pelo caso das falsificações de medicamentos, e por tantos outros que não caberiam nessas páginas.
No primeiro mundo as leis são rigorosas e para todos, pobres e ricos, negros e brancos, fortes e fracos, sem distinção alguma. E se condenados, os culpados são condenados a penas rigorosas que serão cumpridas até o fim sem qualquer atenuante de bom comportamento, ou qualquer brecha criada para facilitar a vida de criminosos, como ocorre em nosso país de terceiro mundo.
O exemplo da justiça coreana deveria calar fundo em nossos governantes, na justiça brasileira e na nossa sociedade civil. É preciso acabar com esse negócio de jeitinho brasileiro nas nossas leis, pois não se faz uma grande nação com permissividade e tolerância ao roubo e a corrupção. (Rafael Moia Filho)