Meu tio Anésio se vangloria de estar assistindo à sua décima Copa do Mundo, ao vivo. O entusiasmo pelo futebol não o impede de também aprender sobre a história, os costumes e os valores que fazem parte da cultura do país-sede das competições, prática que ele acha tão importante quanto ser testemunha ocular das vitórias do Brasil. As derrotas, meu tio prefere esquecer mas os exemplos civilizatórios procura guardá-los para sempre. Ouvi-o repetidas vezes contar do policial inglês que anda desarmado e nenhum bagunceiro se atreve a desobedecer à sua voz de prisão. Respondo sempre que a cultura dos outros nem sempre serve para nós, tupiniquins. Tal prática seria impensável no Brasil onde a marginália compra até foguete em negócio entabulado pelo celular a partir da prisão.
Na sexta-feira nem dormi para ver o jogo do Brasil contra a Inglaterra. Aproveitei para abrir os e-mails e lá estavam as mensagens entusiasmadas do tio Anésio contando suas experiências do Japão. Em Kobe, o taxista deu-lhe um desconto de 20% sobre a tarifa aferida, forma de compensá-lo por ter se enganado quanto ao itinerário mais curto até o hotel. Estranhou que no caminho para o estádio os policiais estivessem preocupados em proteger as árvores contra excessos da torcida estrangeira. Os nativos são incapazes de atentar contra a natureza e muito menos de perturbar a ordem pública. Com os visitantes é preciso tomar cuidado. Aos 75 anos, cabelos e bigodes brancos, toda vez que meu tio entra no ônibus até as mulheres mais jovens se levantam para ceder-lhe o lugar. Ficou ofendido quando o motorista levantou-se para ampará-lo ao descer no ponto. “Tô velho mas não estou caindo aos pedaços.†O trem-bala partiu exatamente às 11h43 de Osaka, exatamente como estava escrito na passagem. Para embarcar postou-se na plataforma sob a placa com o número 43. Exatamente ali parou o vagão com a poltrona 43 e a porta se abriu bem diante do meu estupefato tio dando-lhe quarenta segundos para entrar. Outro dia, depois de almoçar num restaurante, pagar a conta e voltar à rua, assustou-se com o garçom correndo atrás dele com umas moedas na mão para devolver a gorjeta deixada sobe a mesa. Lá, propina não é admitida nem quando dada em sinal de agradecimento pelos bons serviços. Isso é obrigação do profissional. Os políticos apanhados com a boca na botija - a praga da corrupção está em todo o lugar - confessam logo o crime, pedem desculpas de público e se submetem às penas da lei sem lamentar o justo opróbrio. Até o criminoso tem seus laivos de dignidade.
O futebol japonês começou a ser competitivo depois que os brasileiros ensinaram aos seus atletas que não era pecado dar carrinho na bola e segurar o adversário pela camisa para evitar perigo maior. Zico se surpreendia com a ingenuidade dos atletas nipônicos incapazes de cometer a “descortesia†de dar um tranco de ombro no zagueiro para ganhar a bola alçada na área. Baroninho recebe muitas crianças do Japão que vêm aprender futebol na sua famosa escolinha de Bauru. Cansou de explicar que marcar gol impedido é ilegal mas, se o juiz validar não é preciso correr atrás dele para confessar que estava na banheira. – Reclame só quando o gol for do adversário... - Baroninho tratava de deixar bem claro. (Zarcillo Barbosa é jornalista e colaborador do JC)