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Torcedor perde o sono, mas não o jogo

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

Se nem para assistir aos jogos do Brasil na Copa de Mundo de Futebol em plena madrugada todo brasileiro acorda, imagine as demais partidas. Quem encararia levantar às 3h para acompanhar a disputa entre Tunísia e Japão ou Croácia e México? Os japoneses do bairro da Liberdade, em São Paulo, e alguns apaixonados por futebol e olha que tem muito fanático que não resistiu ao fuso horário. Em contrapartida, os “zumbis” da Copa estão sempre a postos em frente à TV.

Oscar Fleury Neto é um deles. Ele acredita que seu fuso horário um pouco diferente colabora para que consiga assitir a todos os jogos. Oscar é preparador físico da equipe de voleibol do Bauru Atlético Clube (BAC), e técnico de nataçaõ na Luso e tem uma atleta, a nadadora master Sophie Monginet, que o faz estar à beira da piscina às 5h quase todos os dias da semana. Para isso precisa despertar às 4h30.

Mesmo antes de Sophie, sua rotina em época de Copa do Mundo, Olimpíada e Mundiais de Vôlei e corridas de Fórmula 1 é alterada pelo relógio do esporte. Mas para não ser vencido pelo relógio biológico, Fleury tem uma técnica. Dois ou três meses antes do evento vai disciplinando o organismo. “Vou tentando levantar mais cedo, nem que depois eu volte a dormir. Antes da Copa começar fiquei 15 dias acordando às 3h30 para conseguir assitir aos jogos”, conta ele, afirmando que já nas Olimpíadas de Seul, em 1988, usou o recurso e deu certo. “Fiquei mais de dois meses acordando às 4h.”

Fiel a todas as jogadas, Oscar confessa que só cochilou em frente à TV no jogo entre as equipes da África do Sul e Eslovênia. “Não deu para aguentar, dormi mesmo com a televisão ligada”, confidencia, um tanto decepcionado.

Para driblar a drástica mudança de hábito e fugir da “lombeira” após o almoço, o café e a piscina são companheiros em tempo de campeonato para virar o dia direto. “Na hora do jogo, não bebo nem como nada, mas durante o dia devo tomar no mínimo uns dois copos grandes de café.” Mas quando a maratona de jogos termina, Oscar diz que deixa o café para escanteio.

Sua dieta alimentar também se altera. À noite faz refeições mais leves para ter um sono “menor e melhor, senão, você fica o dia todo meio-morto”, observa.

Como desperta? Programa a TV para ligar sozinha às 3h15 e acaba acordando com o barulho.

Neste ritual, Oscar tem gravado todos os gols da Copa, mas acha que não foi uma Copa de grandes desempenhos. Até agora os melhores jogos, na sua opinião, foram Coréia x Itália e Senegal x Suécia. Brasil? “A gente vibra porque ganha e qualquer coisa que se ganha na vida é bom. Mas trazer o penta, só se a sorte e teimosia do Zagalo forem repetidas com o Felipão”, considera.

O trio

Um trio de amigos que preferiu não ser identificado acredita que sejam eles os únicos a assistir todos os jogos e em grupo, no Jardim Cruzeiro do Sul. Aficcionados por futebol, não perdem uma única jogada e até escolhem para que time vão torcer. Só saem da sala nos intervalos para fazer pipoca ou pegar uma bebida. A cada jogo elegem as “figurinhas”, personagens que são criticados a cada jogada. Comentários e análises são feitas e nem sempre são consenso. Ao mesmo tempo, também ouvem todos os comentários dos entendidos do assunto que narram os jogos. Desde o final da primeira fase, o grupo chegou num determinante comum: “se o Brasil passar pela Inglaterra, ninguém segura o penta.”

Mas do outro lado da cidade, no Núcleo José Regino, o auxiliar financeiro Júlio César Manzato, que sai para trabalhar antes das 6h, também tem uma atitude ímpar: assistiu a todos jogos das 3h30. “A minha sorte é que agora a própria Copa deu uma parada, meu organismo não estava mais aguentando.”

Manzato às vezes acordava sozinho e noutras até perdia o sono. Apesar de gostar muito de futebol não se considera fanático, mas a Copa é especial e confessa que muitas vezes pestanejava num jogo meio lento.

Para ele o horário não era problema, mas sim acabar acordando a esposa, que muitas vezes ficava brava por ele não aproveitar o tempo de descanso como deveria.

Copa do leitinho

A Copa do outro lado do mundo ficou tão às avessas que até a cerveja abriu espaço para o leitinho com chocolate, até nos copos mais fiéis ao suco de cevada.

Os resultados surpreenderam e até quem é fanático assumido e reconhecido como tal, teve que optar por escolher os jogos que assistiria. França, Argentina, Senegal e Suécia foram algumas das equipes que fizeram parte do grupo selecionado pelo professor de língua portuguesa Sinuhe Daniel Preto, apaixonado por futebol e palmeirense doente.

“Eu acordei, por exemplo, no jogo França e Dinamarca. Eu punha 4h15 o relógio para ver o final do primeiro tempo. Se a França estivesse ganhando, eu dormiria. Mas eu vi que a Dinamarca estava com 1 a 0 e a França precisava de três gols. Fiquei assistindo. No jogo Suécia e Argentina, vi quem estava melhor. A Suécia fez um gol, eu continuei. Eu não me atraí por Japão e Turquia, coisas assim”, conta.

Ele atribui parte desse desinteresse pelos horários dos jogos às suas aulas. Em determinados dias da semana, ele entra no seu campo, a sala de aula, antes das 8h.

E para não derrubar a rotina da casa, em noite de jogo escolhido, dorme no quarto do filho, levanta, vai para a cozinha preparar um copo de leite, mas admite que é difícil assistir jogo assim e manter-se acordado. “O jogo do Brasil e da Costa Rica eu quase não assisti, foi tempo demais. E por já estar classificado, você não se empolga muito”, avalia.

Sinuhe não sabe se é a idade, 40 anos, ou a experiência de ter sido comentarista esportivo, que o fizeram olhar a Copa com outros olhos. Ele aponta que não vê o Ronaldinho Gaúcho e Zidane como as pessoas vêem. “O pessoal enche muito a bola dos caras rápido e os jogadores são vendidos por fortunas. Hoje, o Beckham é um Midas, mas para mim ele é um Arce, do Palmeiras. Cruza muito bem, pode até desequilibrar, mas não é um craque. Hoje não existe mais jogo de Alemanha e Holanda, que sai faísca. Cadê a Argentina? O brasileiro tem que parar de encher a bola antes do tempo, porque o futebol nunca vai ter razão”, comenta Sinuhe.

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