Maior e mais prestigiada instituição pública do Brasil especializada no atendimento médico gratuito a fissurados, o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP) completa hoje 35 anos.
Desde a sua fundação, em 1967, já foram cadastradas mais de 53 mil pessoas. Dessas, quase 35 mil apresentaram algum tipo de anomalia craniofacial, 17 mil foram portadoras de deficiência auditiva e 1.392 tinham outras deficiências e patologias. Todos receberam (ou ainda recebem) tratamento especializado.
Por dia, cerca de 150 pacientes com consulta marcada – a maioria, crianças - chegam ao Centrinho/USP dos quatro cantos do Brasil e de países da América do Sul. Só em 2001, foram 2.274 atendimentos ambulatoriais por mês.
Para rotina de internação, foram encaminhados 6.775 pacientes – média de 589 cirurgias por mês e 29 por dia. Para dar conta de tanta procura, são 89 leitos, além de seis de UTIs (Unidade de Terapia Intensiva) e de 77 para os acompanhantes.
Estudos do hospital – considerado de excelência no tratamento de fissurados pelo Ministério da Saúde - demostram que, no Brasil, nascem por ano 5.800 portadores de fissuras labiopalatais, dos quais 1.680 acabam vindo para o Centrinho/USP.
Só no Estado de São Paulo nascem 1.800 fissurados, dos quais 600 se matriculam nesse hospital universitário (também considerado de referência internacional pela OMS – Organização Mundial de Saúde).
Uma em 650
O Centrinho – que só recebeu esse nome na década de 70 - começou gigante nas intenções, mas ainda modesto no atendimento. Em seu primeiro ano de funcionamento, ainda no final dos anos 60, foram aceitos apenas 20 pacientes de Bauru para tratamento.
A FOB (Faculdade de Odontologia de Bauru) – que completou 40 anos no dia 17 de maio de 2002 – já existia naquela época e, como hoje, pertencia à USP (Universidade de São Paulo). Foi, portanto, a célula-mãe do Centrinho (ambos, aliás, sempre funcionaram no mesmo campus e são divididos apenas por catracas de cartão de ponto).
Naquele tempo - final dos anos 60 -, um grupo de pesquisadores da FOB verificou, por meio de pesquisa, que a cada 650 crianças nascidas em Bauru, uma apresentava algum tipo de malformação congênita labiopalatal. A constatação motivou a criação de um centro de estudo sobre o problema.
Em 1968, o número de atendidos saltou para 86. Em 1971, 164. Em 1972, foram 303 matriculados. Em 1973, o então reitor da USP, Miguel Reale, esteve em Bauru para inaugurar as novas instalações da instituição e, em 1976, o Centrinho/USP foi transformado em unidade hospitalar independente.
Já no início da década de 80, o Centrinho/USP se destacava como primeiro hospital universitário do Estado a ser conveniado com o antigo Inamps.
Depois de duas décadas desde a sua fundação, conseguiu – em 1985 - ampliar o seu leque de atuação ao firmar convênio com a Funcraf – Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Crânio-Faciais – recém-implantada na época para apoiar técnica e financeiramente o hospital. O atendimento ao usuário melhorou e continuou 100% gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Desde a sua criação, já passaram pelo Centrinho/USP 3.291 profissionais das mais variadas áreas. Desde 1997, o hospital mantém equipes diversas em várias regiões do Brasil, viabilizando a descentralização de seu atendimento.
Esse trabalho vem ao encontro do objetivo das subsedes da Funcraf (Santo André, Itararé e Campo Grande/ MS) e associações montadas por pais de pacientes com o apoio Centrinho/USP (Maringá/PR, Vitória/ES, entre outros).
Libras: mãos que ‘falam’
O Centrinho/USP também investe no trabalho multidisciplinar de seus 435 funcionários. Já a Funcraf tem hoje 391 funcionários dos quais 308 trabalham diretamente no Centrinho e unidades externas da USP (Universidade de São Paulo). Dos funcionários da Funcraf, 64 atuam na divisão de assistência hospitalar.
A fundação também mantém, com seus recursos, três setores intimamente ligados ao hospital:
1. NIRH (Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação), que oferece curso de Libras (Língua Brasileira de Sinais) e atende a jovens e adolescentes – 61 matriculados só em 2001 –, auxiliando na recolocação deles ao mercado de trabalho (em 2001, 16 reeducandos foram contratados por empresas de Bauru)
2. CEDAU (Centro Educacional do Deficiente Auditivo), que atende a meninos e meninas entre 2 e 14 anos. Em 2001, o Cedau atendeu a 39 crianças com serviços de pedagogia, fonoaudiologia, serviço social e psicologia voltados à reabilitação auditiva.
3. URH (Unidade de Retaguarda Hospital): presta auxílio (estadia, refeições, etc.) a pacientes e acompanhantes que chegam a Bauru de todas as partes do País e do Exterior. Em 2001, na unidade pré-cirúrgica da retaguarda, foram admitidas/hospedadas 7.118 pessoas, entre pacientes e acompanhantes, totalizando 26.987 diárias (total de 162 leitos disponíveis). Já na unidade pós-cirúrgica foram hospedadas 2.941 pessoas, totalizando movimento de 6.817 diárias no ano. A retaguarda também forneceu mais de 100 mil refeições em 2001, entre mamadeiras, sopas, café da manhã, café da tarde, lanche da noite e marmitas.
Além dessas subdivisões mantidas pela Funcraf, o próprio Centrinho responde pelo CPA (Centro de Pesquisas Audiológicas) – que realiza tratamento especializado aos portadores de deficiência auditiva, com destaque para os programas de implantes cocleares – e o Cedalvi (Centro de Atendimento aos Distúrbios da Audição, Linguagem e Visão), que faz diagnósticos a partir de triagens e avaliações específicas.
Personagem e personalidade
Centrinho/USP e Funcraf são administrados – desde suas fundações - por um devoto fervoroso de São Francisco de Assis: o cirurgião-dentista com doutorado em radiologia, José Alberto de Souza Freitas (foto).
Na sala da superintendência, quadros e imagens do santo estão por toda parte.
Aos 59 anos, Freitas é afetuosamente chamado de “Tio Gastão†por funcionários e pacientes.
Gastão é um apelido de infância – ele tinha fama de sortudo, como o personagem bem-aventurado de Walt Disney. Sorte que, pelos resultados obtidos até agora, nunca faltou ao Centrinho/USP nos seus 35 anos de vida.
“Fazemos tudo com fé, amor, empenho e profissionalismo. Acho que é por isso que a tal sorte sempre nos acompanhaâ€, comenta.