“1870, ano em que nasci, na fazenda. Que bom tempo, só me ocupava a brincar, fazer travessuras. Logo vieram as obrigações, começou a escola, e eu só queria brincar!
Cresci e gostava de namorar, das festas, dos bailes, havia muita harmonia! Dançávamos quadrilha, lanceiro, polkas e valsas, oh! que festas deslumbrantes! Em 1888, veio a abolição, em 1892 casei, morei em casa pau apicada. Nos anos de 1900, a epidemia se desenvolveu, a varíola e febre amarela, muita gente morreu. Comecei a plantar café, motivo que vim neste sertão (Jahú), quando a lavoura tinha 3 anos, a geada levou para o chão.
Em 1906, minha primeira viuvez. Parti para Mato Grosso, aqui não posso morar, quem sabe se bem longe poderei me consolar. Em Mato Grosso estava feio, rebentou a revolução. Lá tomei uma febre, não me queria deixar, nas águas de Caxambú resolvi me tratar. Sarei e fui viajar; à cavalo, e de trem, quantas voltas não fui dar!
Em 1908 comprei uma fazenda, comecei a formar pastos, a plantar café, lá morei 10 anos seguidos; em 1919, viúvo e com 5 filhos pequenos... precisava me casar...
As ciências desenvolvidas, e a luz que eu alcancei: primeiro azeite e manteiga (nos tempos da candeia), depois querosene e o gás. Depois a eletricidade, cinema, telégrafo e telefone e reprodução da voz no gramofone! Houve também as bicicletas, depois as motocicletas e também os automóveis, que vantagem veio trazer!
1921, em Jahú vim morar, estou muito contente, do estado de São Paulo, Jahú é o coração.
Não quero ser ofensivo, eu quero é ser leal, quero ser agradável a todos como o sereno na flor. De que vale tanta grandeza pensando para onde vou, é o que tenho certeza, é o que posso afirmar e que para baixo do chão, só Deus pode me levarâ€.
Como é bom termos esses registros do cotidiano para podermos refletir a nossa vivência. Nas palavras simples de José Florencio Pereira, toda a verdade e crueza da existência e também tanta pureza, força e determinação de nossos desbravadores. A homens como esse é que devemos a ampliação e construção do nosso país.
(Releitura do livro “Sereno na Flor†de José Florêncio Pereira) - Leila Grassi é professora de Cultura Brasileira e colaboradora do Escritório de Arte Ju Machado.