A população bauruense está mudando de comportamento diante da violência urbana. Uma tímida “reação†envolvida de um comportamento coletivo está ajudando a polícia a esclarecer, mais rapidamente, crimes que ficariam impune ou que demorariam anos para serem desvendados.
A arma usada pela comunidade no combate à criminalidade é o anonimato. Certa de que seu nome não figurará como delatora, ela usa o telefone para passar informações que, na maioria das vezes, levam a polícia ao autor de um crime.
A atitude, que não era amplamente utilizada, está prevista na Constituição Federal, mas é, antes de tudo, uma participação cidadã.
Na opinião do titular da Delegacia de Investigações Gerais(DIG), J.J. Cardia, a população está tomando consciência de seu papel. “A segurança é direito de todos e dever de cada um. Se uma pessoa presencia um crime, mesmo sem ser percebida, deve procurar a polícia, ainda que anonimamente, por telefone.â€
A parceria da comunidade com a polícia, na opinião dele, resulta em prisões em flagrante ou em esclarecimento de crimes. “A beneficiada é a própria comunidade, que retira de seu convívio uma célula doente.â€
Cardia acredita que está ocorrendo uma mudança de comportamento da população. “Consciente de que ela poderá ser a próxima vítima, a pessoa abandona o individualismo para assumir um papel coletivo. O benefício é de toda a comunidade e não somente dela.â€
O delegado garante que todas as informações que chegam a DIG são mantidas em sigilo. “Para a polícia interessa as informações que essa pessoa tem e que possam levar ao esclarecimento de um crime. As pessoas temem figurar como testemunha e, desta maneira, não correm este risco. O meio de comunicação está sendo amplamente utilizado.â€
Na DIG há uma secretária eletrônica que funciona inclusive aos domingos e feriados. Nela, o informante poderá deixar sua mensagem. “Para contato telefônico com a Polícia Civil, disque 147. Para contato com a DIG - (14) 224-3090.â€
Segurança
Para que o informante não tenha qualquer tipo de problema com os envolvidos em um crime, Cardia adverte: “Se a pessoa está passando de carro, por exemplo, e vê um outro veículo sendo furtado, não deve parar e se envolver. Deve passar e procurar um telefone público ou um celular para se comunicar com a polícia. É uma questão de segurança.â€
Bons olhos
O coronel Hélder Pereira, comandante do Comando de Policiamento do Interior (CPI), vê com bons olhos a mudança de atitude da comunidade. “A polícia sozinha não vai vencer a criminalidade. De mãos dadas, polícia e comunidade, o resultado pode ser muito positivo.â€
Ele explica que o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) atende, em média, 37 mil ligações mês. Desse total, parte são trotes, outra são serviços que não competem à polícia e 5% são denúncias.
As denúncias, segundo ele, variam de tipo. Mas, na grande maioria, levam a polícia a uma pista ou até a um suspeito. “O caso mais comum é de abandono de veículo. A população percebe que o veículo está abandonado e liga para o 190.â€
As 37 mil ligações recebidas pela PM geram uma média de 6 mil despachos. â€œÉ quando a viatura vai para o local. Nem todas as ligações exigem o mesmo procedimento.â€
Parcela de colaboração
Na opinião do comandante do Tático 4, tenente Hudson Covolan, a população está dando a sua parcela de contribuição para um bem comum. “Na medida de sua capacidade, de sua competência o cidadão deve colaborar no que puder para a segurança e bem estar coletivo.â€
Ele lembra que a polícia e a comunidade, por inúmeros fatos, acabaram se afastando. “Segurança é responsabilidade de todos. Por isso, a polícia do Estado de São Paulo trabalha para unir os dois segmentos.â€
No dia a dia, o tenente nota que, dependendo do delito, existe uma maior ou menor participação da comunidade. “As campanhas anti-drogas e o trabalho que a mídia faz em torno desse assunto faz com que as pessoas fiquem incentivadas a denunciar o tráfico de drogas próximo de sua casa.â€
Outro tipos de crime, como o roubo a ônibus, por exemplo, é mais difícil de ser delatado. “Eu acho que as testemunhas existem. Alguém sempre vê, no ato do crime, ou após o crime, mas poucas vezes usa o telefone para ajudar a polícia.â€
Família em perigo motiva denúncia
Os informantes das polícias são homens e mulheres com idade entre 30 e 35 anos. Quase sempre casados e com filhos pequenos, eles informam a polícia por vislumbrarem o perigo que seus filhos podem correr no futuro.
O segmento da população que mais participa com a polícia, é a classe social mais baixa, os menos abastados que vivem em bairros periféricos, onde normalmente a marginalidade de refugia.
A solidariedade da população tem levado a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) a conseguir autuar em flagrante autores de estupros. Recentemente, dois casos foram esclarecidos com a ajuda de informantes.
A delegada titular, Rejane Tirintan Borro agradece as pessoas que estão ajudando a polícia. “Sem a participação da população, dificilmente conseguiríamos fazer a prisão em flagrante de um estuprador.â€
Ela lembra que, recentemente, uma testemunha ouviu gritos e foi ver o que acontecia. Viu um homem arrastando uma mulher para um matagal. “Essa testemunha ligou para a polícia, que conseguiu pegar o criminoso no ato. Ele estava estuprando uma mulher.â€
Num outro caso, a delegada também ressalta que a testemunha ouviu gritos de socorro e mesmo sem saber o que acontecia ligou para a polícia. “Era outro caso de estupro. Se essas pessoas não tivessem ligado para a polícia, dificilmente, chegaríamos ao autor do crime, tão rapidamente.â€
História
Houve uma época, no início da civilização, que não existia polícia. A própria comunidade é que fazia a segurança. “Quando o homem percebia que uma quebra da normalidade, ele tomava uma atitude. Dava um grito, segurava o ladrão e pedia socorro aos demais integrantes daquela comunidade. Todos os homens se juntavam para pegar o criminosoâ€, lembra o tenente Hudson Covolan.
Em 1829, foi criado na Inglaterra a polícia metropolitana. “Um funcionário do Estado foi treinado para fazer essa atividade, mas a comunidade continuou ajudando a polícia. Com o passar do tempo, a comunidade vai se afastando e deixa de auxiliar. A polícia vai ficando sozinha no combate ao crime.â€
A Scottland Yare diz que é dever do próprio cidadão a verificação do cumprimento da lei. “Se a lei fosse violada, o cidadão podia, naquela época, agarrar os ofensores.â€
Na prática, de acordo com ele, o homem, com mais de 12 anos e menos de 60 era responsável pelo comportamento dos demais integrantes daquela comunidade.