A Revolução Constitucionalista não passou de uma tentativa mal-sucedida de golpe da oligarquia paulista, que decidiu medir forças com Getúlio Vargas e foi derrotada. É assim que o professor de História da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e doutor pela Universidade de São Paulo (USP) Maximiliano Martin Vicente resume o levante paulista, em 1932.
Na opinião dele, as comemorações realizadas no dia 9 de julho são válidas porque prestam homenagens aos homens que morreram por um ideal democrático que, naquele momento, foi manipulado e estava fadado ao fracasso.
Enquanto cultiva respeito pelos soldados perdidos em batalha, o professor ressalta que os estudantes de Direito mortos durante o movimento (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo -MMDC), não passavam de filhos da elite paulista defendendo seus próprios interesses, mas que foram transformados em mártires para insuflar a população.
Vicente ainda garante que a Constituição de 1934, transformada em troféu da Revolução, só saiu dois anos depois devido a um “conchavo†que permitiu a reeleição de Vargas. Assim, muita gente morreu em vão, por pura ingenuidade, envolvida por uma elite reacionária que marca a história do Estado.
A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Vicente, que estudou por oito anos a figura do ex-presidente da República.
Jornal da Cidade - A Constituição de 1934 pode ser considerada uma vitória paulista após a Revolução de 1932? Maximiliano Martin Vicente - Isso é totalmente mentira. A Revolução foi uma derrota paulista. Mas Vargas cede e elabora uma constituição em 1934 porque ele não estava interessado em humilhar o derrotado, que era a oligarquia de São Paulo. Por ser elite, ela também tinha poder econômico e você não pode desprezar um poder econômico.
JC - A história começou por que São Paulo não queria se submeter a Vargas? Vicente - A origem de tudo é em 1930, quando o Partido Democrático apóia Getúlio Vargas contra Júlio Prestes. Há um acordo entre Vargas e o partido para que a legenda assuma o controle do Estado de São Paulo. Mas Vargas não cumpre o acordo. Naquela época, a oligarquia de São Paulo se dividia em dois partidos. Um era o Republicano e o outro era o Democrático. O Partido Republicano tinha o controle do Estado.
JC - Então Vargas trai o Partido Democrático? Vicente - Trai. Quer dizer, ele não dá o poder, que fica com os tenentes que o apoiaram no golpe (1930). Ficam apenas as secretarias com o partido. O tempo foi passando e os dois partidos acabam se unindo contra Vargas pedindo a reconstitucionalização do País.
JC - Neste período os cafeicultores estavam bem fragilizados. Vicente - Já estavam muito fragilizados. A crise do café começou em 1926 e explode em 1929. Vargas, economicamente, assume a dívida dos cafeicultores de São Paulo, garantindo o pagamento delas e a compra dos estoques de café.
JC - Mas em contrapartida? Vicente - Quer a submissão política.
JC - Como lutar contra Vargas, então? Vicente - A oligarquia não podia falar que Vargas era um péssimo estadista, porque ele assumiu suas dívidas. Aí disse que era péssimo político porque ele não convocava eleições.
JC - Então planejaram a revolução? Vicente - Não foi uma revolução. Foi um golpe, como o de 1964. Para nós, na História, revolução significa transformação total. Como a francesa e a russa.
JC - Eles não queriam mudar nada. Vicente - O movimento de 1930 a 1932 foi feito pela elite, que só queria a transferência do poder.
JC - Então, Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo foram vítimas das circunstâncias? Vicente - Não, porque eles sabiam o que estavam representando. Eles eram filhos da elite e defendiam a oligarquia. Ao mesmo tempo, temos a morte de muitos operários e ninguém fala deles. Eles também morriam em manifestações. Mas isso todo mundo esquece. A morte dos estudantes do Largo São Francisco foi utilizada para insuflar um levante. Quando se cria um mártir, a causa está justificada.
JC - A elite que organizou o levante também foi para as trincheiras? Vicente - Não, eles ficaram para organizar bailes e levantar fundos. Quem vai para a batalha é o povo, que é mobilizado e está convicto de que há por trás da batalha uma causa justa. Esse sim merece homenagens.
JC - Eles são vítimas e mártires, mesmo? Vicente - Sim. Porque estrategicamente e militarmente falando, desde o começo, sabia-se que o movimento era fracassado.
JC - Foi um movimento só para intimidar Vargas? Vicente - Exatamente. São Paulo não tinha aviação nem marinha. Como você decide um conflito sem aviação e sem marinha? Vargas bloqueou militarmente o Estado, através do mar, e pronto. Aí acabou a munição e a revolução.
JC - Por que Vargas designou um interventor para o Estado? Vicente - A nomeação de um interventor foi uma resposta a um movimento muito forte de intelectuais, que cobrava a união do País, o fim das oligarquias estaduais e um projeto de desenvolvimento nacional.
JC - As reivindicações integravam a proposta de Vargas? Vicente - Sim, mas ele tinha duas formas para fazer isso. Ou pelo viés democrático ou pelo viés autoritário. Optou pelo segundo. Aí ele nomeou os chamados interventores. Por isso, como concentrou o poder, não via necessidade da Constituição. Vargas incorpora uma tendência absolutista, que era mundial, naquele período.
JC - A elite se incomodou com esse absolutismo de Vargas, mas se tivesse no poder iria repetir a mesma posição. Vicente - Eu creio que seria muito pior do que Vargas. A oligarquia era mais reacionária e mais conservadora. Eles tinham um lema que era fantástico. Diziam que tinham atitudes definidas e definitivas! Tanto que a Revolução Constitucionalista não passou de um golpe de poder.
JC - Quais são os resquícios, hoje? Vicente - A idéia sobre São Paulo. De que é uma terra onde só se trabalha. Isso é um mito.
JC - A oligarquia continuou governando São Paulo? Vicente - Não. Tanto que em 1932 Vargas cria uma nova situação. Ele favorece a indústria de São Paulo.
JC - A ruptura foi logo após a revolução constitucionalista? Vicente - Isso. Vargas apóia e incentiva outros setores, que já estavam em São Paulo, mas marginalizados, tanto pelo partido Republicano quanto pelo Democrático.
JC - Vargas, então, passa a apoiar outros segmentos? Vicente - Sim, a Fiesp. O setor industrial, que foi atraído para cá por Vargas, já que o Estado contava uma infra-estrutura razoável.
JC - A troco de que? Vicente - Vargas dava o apoio econômico em troca do apoio político. Por isso, após o golpe em 1937, você encontra novos republicanos no comando do Estado, como Adhemar de Barros, que era republicano, mas não era dos antigos. Vargas consegue desmantelar a oligarquia até 1945. Depois, o grupo mais liberal acaba formando a União Democrática Nacional.
JC - O tempo foi passando, mas o perfil reacionário foi mantido. Vicente - O Estado de São Paulo tem uma história reacionária. O mesmo grupo acaba criando a Arena, depois o PDS e, depois, o PFL.
JC - Por fim a Constituição saiu. Vicente - Saiu quando garantiram a reeleição de Vargas, aí ele autorizou a elaboração da Constituição. Sabe por que? Sabe o quanto durou a Constituição? Nem três anos. Vargas perguntou se ainda queriam brincar de Constituição, disseram sim, e ela saiu.
JC - Mas no final das contas, o povo acabou se envolvendo com a chamada Revolução de 1932. Vicente - Manipuladamente, mas se envolveu. Cientes de que se tratava de um propósito democrático. As pessoas não tinham como descobrir o que estava por trás. Os soldados ficam muito bravos quando dizemos que eles foram manipulados. Eu até entendo, até porque eles têm história para contar. Eu costumo falar o seguinte para meus alunos: você tem de ser crítico em qualquer circunstância. Um dia você vai ser cobrado pelo que faz hoje. E se você não é atento ou esperto, teu filho vai te falar que você foi reacionário e vai ter razão.
JC - E sobre as comemorações alusivas à data? Vicente - O Covas, muito espertamente, conseguiu ressuscitar as comemorações. Esse feriado está sujeito a mil manipulações, inclusive de grupos separatistas, de ideário fascista, que ainda sobrevivem no Estado.