A ausência de uma proibição ao uso de bebidas alcoólicas e cigarros torna o acesso a essas substâncias químicas extremamente fácil. Desde cedo, as crianças têm contato com esses produtos nos mais diferentes ambientes - em casa, na casa de parentes, na escola, em parques e restaurantes. Essa conotação de que fumar e beber é “normal†mascara o problema. São drogas que, como todas as outras, fazem mal, deixam seqüelas e viciam.
“As pessoas não fazem sexo na frente das outras. É proibido? É crime? Não, mas nossa cultura não permite. No entanto, ela permite que se fume e beba na frente dos filhos. Eu sou contra isso. A criança é nosso espelho. O que plantarmos durante o desenvolvimento dela é o que teremos como adulto amanhãâ€, adverte a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Darlene Martin Tendolo.
Para ela, a banalização do consumo tabagista e alcoólico desperta a curiosidade da criança. “As propagandas de televisão, por exemplo, associam a bebida ao prazer, às mulheres bonitas, à vitória no futebol. Isso deveria ser policiado. Tais publicidades deveriam ter seus horários de veiculação restritos, como ocorreu com os cigarrosâ€, sugere.
A disseminação das bebidas e do cigarro é tão grande, que muitos pais chegam a oferecer as substâncias químicas aos filhos. São pais que molham a chupeta da criança na cerveja só para ver o filho fazer careta e ainda dizem “esse é homemâ€.
“Eles acham bonitinho. Ficam todos na expectativa da reação da criança, se ela vai gostar ou não. Essa expectativa vai fazer com ela repita, mesmo não gostando. Isso é banalizar a educaçãoâ€, acrescenta a psiquiatra Elaine Lúcia Dias de Oliveira.
“A criança toma um golinho hoje, sente o cheiro amanhã e desperta a vontade, até chegar ao ponto de ir a uma festa e ficar procurando os restos em copos abandonadosâ€, completa o pediatra Felinto dos Santos Neto.
Extremos
Mas não é só o “bonitinhoâ€. Há casos em que os próprios pais ou babás adicionam bebidas e calmantes à mamadeira da criança para que ela durma e não dê trabalho.
“Recebemos uma mãe que colocava cerveja na garrafinha para a criança levar para o lanche na escolaâ€, contam a psicóloga Adriana Félix Providello e a assistente social Fabiana Lopes da Silva.
Elas trabalham no Centro Regional de Registro e Atenção aos Maus Tratos à Infância (Crami) e afirmam que esses pais não sabem a dimensão de suas atitudes e os prejuízos que causam ao desenvolvimento dos filhos.
“Já houve uma empregada que colocava a criança perto do fogão a gás com as válvulas abertas para que ela dormisse. Até que a criança morreu intoxicadaâ€, destaca Eliane Oliveira.
Em casos de empregados, uma observação constante do comportamento da criança permite a identificação do problema. “A criança que ingere essas substâncias fica sonolenta, perde a coordenação motora, perde os reflexos, não quer brincar. Ou, ao contrário, fica agitada e agressiva. Qualquer alteração brusca deve ser investigadaâ€, orienta o pediatra.
Para a psiquiatra, é preciso ser radical. “Quem lida diretamente com a dependência química sabe que não existe meio termo. Substâncias entorpecentes não devem estar presentes na casa e no dia-a-dia das crianças. Isso é consensoâ€, completa Elaine Oliveira.
Alívio
A farmacêutica especializada em dependência química Daniele Castro Di Flora, do Núcleo de Apoio Psicossocial (Naps) destaca, ainda, as crianças que buscam as substâncias entorpecentes na tentativa de aliviar seus problemas.
“Observando os pais e experimentando, ela descobre que aquilo tira a angústia, a aflição, os sintomas ruins. São substâncias que alteram o nível de consciência dela. Muitas vezes, sem outra alternativa, ela recorre àquilo simplesmente para aliviar seu mal-estarâ€, comenta.
“Ou simplesmente uma forma que eles encontram para chamar a atenção, porque, dependendo da idade, a criança não tem nem repertório para verbalizar o que está sentindoâ€, observa a psiquiatra.