Saúde

Intoxicação química começa no útero

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A intoxicação infantil causada por substâncias químicas pode começar no próprio útero materno. Mulheres dependentes de álcool, drogas ou cigarro transmitem tudo o que consomem para o feto através da placenta e corrente sangüínea. Além dos riscos de abortamento, o bebê que sobrevive pode apresentar inúmeras seqüelas pela vida.

De acordo com a médica ginecologista Carla Lambertini Bonjorno, a questão deve ser analisada sob três aspectos: o orgânico da gestante, o emocional desta mulher e as conseqüências para o feto.

Segundo ela, usuários de substâncias químicas tendem a ser subnutridos em função da falsa satisfação proporcionada pelas drogas. “O álcool, a maconha, cocaína e outros são considerados calorias vazias, ou seja, eles sustentam, tiram o apetite, mas não oferecem nutrientes. A mulher geralmente apresenta deficiência vitamínica ou protéica. Então, a gravidez já começa num organismo debilitado”, comenta.

Neste caso, o abortamento é o problema mais comum. Bonjorno informa que um trabalho realizado pela Universidade de São Paulo (USP) demonstrou que 30% das mulheres comprovadamente dependentes químicas apresentam um trabalho de parto pré-termo, ou seja, antecipado.

Quando isso acontece no primeiro trimestre da gravidez, a perda da criança é inevitável, conforme a médica. “Se o trabalho de parto pré-termo ocorre a partir do segundo trimestre, a medicina até tem algumas alternativas para tentar parar o processo e ‘segurar’ o feto, mas com muitas dificuldades”, afirma.

Outro problema comum em mulheres toxicômanas e alcoolistas é a alta incidência de doenças sexualmente transmissíveis (DST). “Principalmente no caso das drogas, em que há uma tendência à promiscuidade e ao desleixo higiênico. Muitas nem tomam banho. Além disso, elas não procuram atendimento médico aos primeiros sinais e a doença se agrava, podendo contaminar o feto”, destaca.

Paralelamente, a mulher usuária de drogas e álcool sofre crises emocionais importantes. Ela não admite a dependência e acredita que pode “sair dessa” a qualquer momento. Enquanto isso, ela sofre com o preconceito e conflitos internos. Dificilmente vai procurar acompanhamento pré-natal, acentuando a gravidade das repercussões físicas.

Transferência

Se durante a gestação tudo o que acontece com a mãe é automaticamente transferido para o feto, o consumo de substâncias químicas vai ter efeito certeiro na saúde do bebê.

Uma das conseqüências apontadas pela ginecologista em mulheres que se utilizam destas drogas na gestação é o envelhecimento precoce da placenta. Sendo responsável pela manutenção e proteção do feto, qualquer alteração neste tecido representa prejuízos enormes ao bebê.

“A gestação pode ser dividida em três períodos. O primeiro trimestre é formativo, o segundo é de crescimento e o terceiro de engorda. Se a placenta envelhecer antes do tempo, essa criança vai nascer, no mínimo, com um retardo na engorda e no crescimento. O baixo peso é grave. Um bebê com menos de 500 gramas não tem condições de sobreviver”, observa.

Além disso, todo bebê nasce com seu sistema imunológico incompleto, ou seja, ele é muito suscetível a vírus e bactérias. Numa gravidez normal, a mãe transmite anticorpos ao feto. Na usuária química, o organismo dela está debilitado e o nível de anticorpos fica comprometido. Somado ao baixo peso, comum neste caso, há risco para a vida desta criança.

“Boa parte dos anticorpos é passada para o bebê durante a amamentação. Na mulher dependente química, o leite é nutritivo (mesmo na mãe subnutrida), mas é carente em anticorpos. Além disso, tudo o que ela consumir será ingerido pela criança através deste processo. É um leite intoxicado”, alerta Bonjorno.

Ela cita exemplos de mulheres que se espelham em vizinhas dependentes para imaginar como vai ser a sua gestação. “‘Ah, minha amiga fuma maconha e a filha dela nasceu perfeita.’ Sorte dela. Só que a química destrói neurônios - células cerebrais que não se reproduzem de novo. Lá na frente, essa criança perfeita poderá apresentar um déficit de inteligência e ter vários outros problemas”, ressalta.

Dependência fica na memória genética

A ginecologista Carla Lambertini Bonjorno afirma que o bebê gerado por uma mulher toxicônoma ou alcoolista não nasce dependente de substâncias químicas.

“Mas os receptores cerebrais para estes produtos já nascem com uma memória. Se a criança não for condicionada ao vício, ela vive normalmente. É como se estivesse vacinada, só que dependendo da circunstância em que houver o contato com a droga, ela pode criar dependência”, resume.

Questionada sobre crianças que apresentam sintomas de abstinência após o nascimento, ela esclarece que algumas deficiências nutricionais causam sintomas muito parecidos com os da ausência química, o que confunde as pessoas.

“O que normalmente encontramos são bebês que fizeram uso de álcool, por exemplo, depois do nascimento. Por mães ou empregadas que dissolvem a bebida no leite para fazer a criança dormir. De repente isso deixa de ser oferecido, aí ela realmente tem crise de abstinência”, comenta.

De qualquer forma, pesquisas comprovam que existe a influência genética. Crianças nascidas em famílias com histórico de vícios estão mais predispostas e vulneráveis à dependência.

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