O susto com as perdas nas aplicações em fundos de renda fixa e DI fez os pequenos e médios investidores migrar em massa para a velha Caderneta de Poupança, que registrou recorde histórico de captação de R$ 6,092 bilhões em junho, contra R$ 499 milhões em maio. No entanto, a perspectiva de ganhar pouco, mas com segurança, pode resultar em dupla perda para o investidor.
Segundo especialistas consultados, a primeira perda foi ocasionada pela mudança da regra do Banco Central (BC) quanto à contabilização dos títulos pelo valor de mercado - a chamada marcação a mercado. A recuperação do dinheiro perdido, no entanto, poderia acontecer a médio prazo se o investimento nos fundos fosse mantido.
A explicação para isso é que os fundos, atualmente, rendem cerca de 1,3% ao mês. Já a poupança, porto seguro dos pequenos investidores, capitalizou 0,72% para a caderneta que aniversariou ontem. Com a mudança de aplicação, o investidor teria de esperar, pelo menos, o dobro do tempo para recuperar a perda.
A segurança da Caderneta de Poupança, por outro lado, é um forte argumento para atrair o investidor. Nessa aplicação, a garantia de que não vai haver susto é quase total. “A pessoa troca a rentabilidade, esses décimos a mais, pela segurançaâ€, observa o economista Wagner Ismanhoto.
No caso dos fundos, como as regras mudaram, a preocupação dos bancos é convencer o cliente de que essa aplicação continua, de certa forma, segura. Diante disso, os bancos deverão oferecer benefícios para segurar - e atrair - os investidores, como a reposição da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) paga.
A expectativa é de que as instituições bancárias passem também a dar “maior atenção†aos fundos, já que, para muitos, os bancos também foram responsáveis pelas perdas. “A tendência dos bancos agora é disciplinar isso de forma mais atenta, ou seja, mantendo nos fundos somente o mínimo necessário (de títulos do governo) exigidoâ€, aponta Ismanhoto.
Imposto
Para quem já tirou o dinheiro dos fundos e colocou na poupança, a segunda perda apontada pelos economistas é causada pelos tributos referentes à operação, como a CPMF. “A cada movimentação dessa, tem que pagar a CPMF, que muitas vezes é superior à rentabilidade que você temâ€, diz Ismanhoto.
O economista Said Yusuf Abu Lawi tem a mesma opinião. “Quem fez a migração, quem não aguardou, se deu malâ€, declara. Para ele, o impacto da retirada em massa dos fundos não deverá causar impacto significativo no mercado.
Na opinião de Lawi, o problema seria se a migração para a poupança causasse um “efeito-dominóâ€, contaminando as bolsas e provocando nervosismo no mercado. Segundo o economista, os investimentos nos fundos totalizam R$ 350 bilhões.
Lawi acredita que, de fato, os grandes responsáveis pela migração - e pelo recorde de captação da poupança - foram os pequenos investidores, com pouca experiência, que temiam perder ainda mais do dinheiro aplicado. “O grosso permaneceu nos fundos, porque não compensaria fazer a migração sem antes reaver aquilo que havia perdidoâ€, aponta o economista.
CDB
Uma opção de investimento que mantém rentabilidade maior que a da poupança - e que expõe a aplicação a menos risco - é o CDB (Comprovante de Depósito Bancário). Para os economistas, essa seria uma saída mais vantajosa para quem quer retirar o dinheiro dos fundos. No último mês, a taxa líquida de rendimento do CDB era de aproximadamente 1,22%.
O economista Ismanhonto alerta, contudo, que aplicações no CDB comportam um certo grau de risco, pois estão intimamente vinculadas aos bancos. “Se o banco vai mal, você perde de qualquer modoâ€, afirma.
Para Lawi, o CDB é realmente uma alternativa melhor do que a poupança, em termos de rentabilidade. Quanto aos riscos, diz o economista, a margem de segurança em relação ao fundos não compensaria a transferência. “O risco dos fundos não é alto, é baixo também. Essa é a razão de dizermos que as pessoas tomaram uma medida precipitadaâ€, afirma.
O que aconteceu
Em 31 de maio, o Banco Central (BC) antecipou a data para a mudança nas regras dos fundos de renda fixa e DI, antes marcada para setembro.
Com a mudança, os títulos atrelados ao rendimento dos fundos (80% são papéis do governo) passam a valer pelo valor de mercado, e não mais pelo valor de face, o que ocasionou perda de rentabilidade e, na maioria dos casos, prejuízo.
Os pequenos e médios investidores, que consideravam os fundos de investimento tão seguros quanto a Caderneta de Poupança, foram os que mais se assustaram com as perdas.
A procura por investimentos seguros de quem perdeu nos fundos foi responsável pela captação recorde da poupança desde sua criação, em 1966. Foi registrada a entrada líquida de R$ 6,092 bilhões no mês passado.
Com isso, o estoque em Cadernetas de Poupança atingiu R$ 125,6 bilhões em junho, contra R$ 119,6 bilhões em maio.